Duas árvores não fazem a floresta

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Pedro Guerreiro Cavaco – Advogado e militante do PSD

Emília Cerqueira admite ter assinado presenças falsas por José Silvano, secretário-geral do PSD, e explicou-se esta tarde no Parlamento, em conferência de imprensa. Em causa estão falsas marcações de presença, a 18 e 24 de outubro.

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A conferência de imprensa pode ser vista no canal do Observador, no YouTube, no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=dxXu8hf1fNo

E são as declarações da deputada que me proponho analisar.

Disse Emília Cerqueira que trocar as passwords faz parte do trabalho feito no parlamento e em qualquer organização. No parlamento, entre alguns deputados, parece que sim. A deputada e o deputado Silvano são o exemplo gritante. Em qualquer organização, não. Era o que mais faltava. Não é verdade que tal aconteça e se acontece, não se queixem depois. A troco de quê daria a minha password a alguém? Bem, citando o twitt de Re_diculo, “a password é da cooperativa”, aludindo às imagens existentes do início das cooperativas.

Também diz que quando se trabalha em grupo as passwords são partilhadas. Não é verdade e se acontece, onde acontece, não se queixem depois. Eu trabalho em grupo e não tenho a password de ninguém e ninguém tem a minha. E não deixo de trabalhar em grupo.

Diz a deputada que tem a password de José Silvano. Não só ela, mas também. Desculpem, é gravíssimo. E se não se vê gravidade nisto, então não sei. E não há necessidade de partilha de documentos que implica a partilha de passwords. É rebuscado. Não colhe. E se a documentação está “apenas acessível no computador dele”, então ele que a partilhe por outras vias.

A deputada diz que acedeu, como sempre, mas não para marcar presenças do deputado José Silvano. Então como as marcou? Por osmose? A senhora deputada diz que “não o fiz, pelo menos propositadamente”. Calma, afinal admite a possibilidade de o ter feito, mas não propositadamente. Fê-lo inadvertidamente, diz. Confesso não saber como o sistema opera mas presumo que se tenha de carregar num botão, num visto, numa confirmação, em algo que implique marcar a presença do ausente. Não foi de propósito, alega. Enfim, paira uma nuvem cinzenta sobre este tema que foi bem levantado pelo Expresso. Por falar nisso, por que demorou tanto tempo a deputada a vir a terreiro assumir a responsabilidade?

Considerou ainda ser um circo mediático. De facto, tem razão. Os jornais falarem em algo tão normal como alguém entrar no computador de outrem, com a password – o que implica o consentimento – e marcar presença na ausência, é a coisa mais normal do mundo. Citando a deputada, não tem nada de especial. Perfeito. Este alarido todo é surreal, como diz Emília Cerqueira.

O mais engraçado – e pode ser lido aqui https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/seis-dias-de-polemica-sobre-presencas-e-ausencias-de-jose-silvano-no-parlamento – é que o deputado José Silvano, antes, havia dito que não facultara a sua password, pessoal e intransmissível, a ninguém.

Além da questão moral, ética, parece haver aqui algo mais que o Ministério Público deverá escrutinar, estão aqui em causa os dinheiros públicos, pois José Silvano tem ajudas de custo no valor de € 69,00 por cada dia em que participa nos trabalhos parlamentares. E isto não pode ficar pela rama.

Face a que, ainda que se entenda que a senhora deputada faz parte do grupo de deputados que estão de bem com a actual direcção do partido (folgo sabê-lo), é minha opinião que a mesma direcção deveria retirar consequências políticas desta situação porque, lembremo-nos, Rio prometeu-nos um banho de ética. Este episódio é uma trapalhada inacreditável.

Como militante do PSD custa-me ver que tal suceda precisamente no meu partido, mas não o confundo com os actos individuais. Desta forma a minha crítica a algo que me incomoda não recai sobre o PSD.

É uma situação grave e por aqui se vê, como bem disse Adolfo Mesquita Nunes, que “nenhum partido tem o monopólio da ética e da correcção como o exclusivo dos erros e das violações de deveres de ética, que são individuais”. É uma verdade. Estamos de volta de uma situação grave, que aparenta um logro. E aqui, politicamente, Rui Rio tem dois caminhos. Rio definiu a ética como o maior activo que traria na sua liderança. Ou “ratifica o processado”, e deixa a situação ficar como está, silenciosamente, num silêncio que gradualmente se tornará ensurdecedor ou, pelo contrário, retira consequências políticas. Como militante preferia a segunda. Trazer clareza à política é algo muito importante e imprescindível, algo a que também pugnamos ao nível local. Não vale tudo. E como tal, na sendo do artigo que antecede, o povo precisa confiar na classe política e isso só se obtém com clareza.

Findo. Duas árvores não fazem a floresta. A floresta é maior e mais importante que qualquer árvore isoladamente considerada. Por outro lado, os erros e as violações de ética são actos individuais. Não confundamos, pois, a árvore com a floresta.

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