A última curva do caminho

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Mário Moura –
Médico

Caminhando neste nosso mundo, ao começar a ter alguma capacidade de meditar sobre a vida e o mundo em que vivemos, comecei  ser invadido por perguntas incómodas cuja resposta não conseguia que me satisfizesse. Entrei então a recorrer aos filósofos que desde a Grécia antiga equacionavam e tentavam responder a problemas idênticos, continuados  geração após geração, até aos nosso dias.  Infelizmente a educação geral das nossas faculdades , e as características do pensamento reinante e generalizado nas nossa escolas e nas sociedades foi atenuando a profundidade dessas interrogações vivendo um dia a dia orientado pelos desejos do poder e da importância social.   E a minha vida foi-se encaminhando orientada por dois princípios que a biologia e a psicologia iam marcando como essenciais: (I)construirmo-nos a nós próprios e (2)colaboramos na construção da sociedade em que estamos integrados sendo necessária a fraternidade.. E assim trabalhei intensamente durante décadas ,profissionalmente e não só, enquanto era conduzido pelo desejo de ajudar os outros o que era fácil para o tipo de profissão que tinha – médico.

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E no meio desse vendaval de  trabalho as tais perguntas nunca me abandonaram e de quando em quando era obrigado a interiorizar problemas que se iam incrustando e exigindo uma resposta –  para que vivo? Para onde vou? Quem dirige este mundo numa perfeição extraordinária, pensando no nosso sistema solar ou descendo ao infinitamente pequeno, observando a maravilha do funcionamento do nosso corpo, de fenómenos complicadíssimos mas funcionando numa harmonia extraordinária no âmago das nossa células e no geral do funcionamento do nosso corpo ( embora com erros de quando em quando!)  ? E tanto no estudo do funcionamento da  fisiologia do nosso corpo como no aprofundamento de tantas perguntas que vinham da juventude, uma constante aparecia em pleno de grande importância – o amor. A criança necessita dele para se desenvolver normalmente, a sociedade necessita da fraternidade e da consideração da dignidade de todo e qualquer ser para ser uma sociedade que viva em paz e com algum odor de felicidade tal passou a ser uma certeza para mim e um verdadeiro motor da minha vida, fosse no trato dos pacientes, fosse na necessidade de participar nas iniciativas cívicas, fosse vivendo intensamente uma relação conjugal.

E o tempo corria célere e por isso os anos iam passando e ao saltar a linha dos noventa, tendo abrandado o trabalho vieram os pensamentos sobre a vida, especialmente, para que vivi e como será o resto da vida depois de sair deste caminho que tenho vindo a trilhar – passei a meditar sobre a morte que via lá longe na última curva do caminho. E as dúvidas esbateram-se e comecei sentindo que o nosso caminho tem duas margens , uma aqui neste mundo cheio de maldade e guerras (dependendo do homem a sua melhoria) e outra em que estaremos num ambiente de felicidade sem atropelos, num meio onde se sente sempre à nossa volta o AMOR. Esse Amor já há muito que para mim era afinal o que se costuma chamar DEUS. E assim senti tranquilidade, não tive receio das dores e dos sofrimentos que o fim da vida neste mundo nos pode trazer, e sonho com uma vivência eterna rodeado de todos aqueles e “aquela” que compartilhou comigo os acidentes e as dores da nossa vida terrena.

Termino esta espécie de confissão chamando a atenção de todos os que se dizem cristãos de que o único e verdadeiro pecado é “não amar” e que nos deixemos de clericalismos e participemos num verdadeiro “povo de Deus” , que sejamos um verdadeiro rebanho misturados com os que têm a função de pastores servindo e orientando o nosso caminho. É bom pensarmos nisto ao aproximar-se o Natal em que o AMOR se fez Homem.

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