Os sinais patológicos do tempo em que vivemos

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Arlindo Mota – Presidente da UNISETI

No redemoinho de uma discussão, o nome de Naomi Klein e do seu  livro “A Doutrina do Choque” suscitou-me a curiosidade de conhecer um pouco mais em que se fundamentava a autora, que regride a um tempo rugoso, onde as ideologias se combatiam tenazmente e em que emerge uma filosofia económica, o neoliberalismo, com raízes na designada “Escola de Chicago” que, por mais que o neguemos, tem vindo a fazer caminho um pouco por todo o mundo, frequentemente à boleia de importantes instituições internacionais, como o FMI.

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Sentados neste cadeirão confortável que era a Europa da União Europeia, fomos ignorando os sinais inequívocos e inquietantes que se iam acumulando: a ascensão de Marine Le Pen na segunda maior economia europeia, a emergência do caos que resultou no Brexit (saída da Grâ-Bretanha da União Europeia), a chegada ao poder de partidos de extrema direita em Países como a Áustria, Polónia, República Checa e, principalmente, a Itália. A eleição de Trump e o fechamento dos EUA ao outro, a eleição agora de Balsonaro no Brasil, o êxodo dos migrantes serão sinais premonitórios de que o mundo, tal como o fomos conhecendo, está em lenta mas entranhada mutação?

O “fim da história” que Fukuyama profetizava com a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética (de que mais tarde o autor se haveria de redimir), revelou-se um logro. A globalização e o desenvolvimento vertiginoso da economia digital num quadro nebuloso onde os “mercados” constituem a expressão mais extrema de um capitalismo desregulamentado, paraíso de off-shores e da corrupção e paladino da privatização dos entes públicos.

As crises bolsistas haviam-se sucedido ciclicamente, mas a Crise do Sub-prime nos EUA em 2007 que rapidamente contaminou a Europa e de que Portugal também foi vítima parecia ter alarmado finalmente o mundo ocidental, deixou a descoberto um dos aspectos que têm escapado a uma análise cuidada de causa e efeito, sempre com o mesmo resultado: os mais ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

A crise dos migrantes gerou uma onda de repulsão (quer na Europa quer nos EUA), como já adivinhara o escritor e filósofo italiano Umberto Eco, mas será imparável a médio prazo, por mais muros de betão ou arame farpado e leis rígidas. Estaremos a atravessar um período similar ao da segundo quartel do século passado? As ideologias estão de volta em passo apressado? Os avisos premonitórios de que caminhamos para sociedades cada vez mais securitárias e desiguais sucedem-se; adensa-se um clima de insegurança que não se escora apenas no campo político-social mas também na descoberta de algoritmos que convergem na invasão da privacidade e na certeza de que o desenvolvimento da inteligência artificial liquidará milhões de empregos, precisamente naquelas camadas da população com formação mais baixa.

A evidência mostra que as redes sociais não substituem os amigos de carne e osso e os “likes” escondem frequentemente uma infelicidade latente. As distopias como a de Orwell (“1984”) começam, depois de algumas décadas de paz e alguma prosperidade, a fazer cada vez mais sentido e o precariado no trabalho, que introduz a intranquilidade na unidade familiar, tenha ela a forma que tiver, é fonte de angústia, causa de “burnout” (esgotamento) e de outras patologias próprias dos tempos que vivemos. Segundo um estudo da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor – Deco, que foi publicado na edição de Outubro da revista Teste Saúde, os profissionais em maior risco de desenvolver crises são os empregados de lojas e supermercados (43%), profissionais de saúde (não médicos, 39%) e quem trabalha em serviços administrativos (37%) ou em profissões ligadas ao ensino (28%).

O filósofo Byun-Chul-Han vai mais longe quando escreve: “O síndroma de burnout não nos apresenta apenas um Eu esgotado, mas, sim, uma alma esgotada, consumida”

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