“Senti muito medo” – Jovem agredido por agentes da PSP recorda sequestro

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Dois anos depois, rapaz continua a ter dificuldade em confiar na policia. Mas reconhece que há “agentes exemplares, que não podem ser metidos no mesmo saco”

 

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Rogério Matos

 

Luís Contente, agora com 20 anos de idade, viu o tribunal de Setúbal comprovar os crimes de agressões e sequestro por agentes da PSP de que foi vítima na madrugada chuvosa de 4 de Dezembro de 2016. Hoje continua a ser seguido no hospital pelas agressões que sofreu, principalmente por um pontapé desferido na cara. Na próxima quinta-feira, dia 8, tem uma consulta na especialidade de cirurgia plástica reconstrutiva no Hospital do Outão. “Ainda tenho dores fortes na cabeça desde essa noite”, lamenta.

“Não desejo que ninguém passe por aquilo que passei, ser pontapeado na cara, colocado numa bagageira, levado para um sítio ermo e abandonado, todos podem imaginar, mas só eu sei o medo que senti.”, diz.

Luís não conseguiu identificar os agentes quando realizou a queixa, na companhia do seu pai, militar da GNR, mas foi quando ouviu a voz dum deles que percebeu que seriam aqueles os que o agrediram e raptaram.

Foi na fábrica quando, após as agressões, um dos agentes disse “deixa lá o puto e vamos embora” que lhe captou a voz. “Esta frase descreve o pânico por que passei, nunca vai sair da minha cabeça e quando ouvi aquela voz tive a certeza imediata de que foram eles”.

Luís Contente diz nunca ter duvidado da capacidade do tribunal em ajuizar o processo conduzido de forma “excelente” pela Polícia Judiciária, mesmo tendo em conta o que considerou serem as tentativas de intimidação das testemunhas ao longo das sessões, bem como a tentativa, por parte da defesa, em confundir os juízes com testemunhos “arranjados numa situação de desespero”.

Refere-se ao testemunho do pescador que em tribunal disse ter sido abordado numa operação stop na Estrada da Graça na altura em que se realizavam as agressões, bem como a de um agente familiar duma testemunha que identificou os arguidos e que no tribunal quis confundir os juízes ao referir que a história que lhe contou não era a que prestou em sede de primeiro interrogatório.

“O testemunho do pescador foi arranjado numa situação de desespero visto que os factos estavam a vir ao de cima. Ninguém acredita que numa noite chuvosa, os agentes tivessem estado 15 minutos a abordar uma só viatura para pedir documentos e abrir a bagageira”, considera Luís Contente.

Hoje pondera não recorrer à PSP para o acudir em caso de urgência e diz sentir-se intimidado sempre que passa por uma viatura policial. É pela sua família que receia agora, já que como diz, ao longo das sessões de audiências no Tribunal de Setúbal, foram alvo de “um olhar de insatisfação e revolta por todos os agentes presentes na assistência”. “Quando vou ao centro comercial perto de casa, passo por agentes da PSP que comentam: olha o jovem que suspendeu os nossos colegas”.

A juiz presidente do coletivo do Tribunal de Setúbal apontou para a necessidade de tranquilizar a sociedade perante este tipo de abusos. Luís não sabe o que pode mudar, mas espera que esta sentença sirva de exemplo para todos os agentes com comportamentos desviantes. “Há agentes exemplares que não podem ser colocados no mesmo saco, mas aqueles que agem desta forma devem ficar alertas e mudar o comportamento”.

O jovem não acredita que a situação por que passou tenha sido isolada. “Sei que há muitos jovens que sofreram situações semelhantes e têm que expor aquilo por que passaram”. “Apresentei queixa pelo suporte familiar que tenho, mas há muitos que não o têm e pensam que ninguém vai acreditar na palavra destes contra os agentes da PSP”.

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