Em busca da melhor fartura da Feira de Sant’Iago

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Reportagem do DIÁRIO DA REGIÃO ‘provou’ as farturas de sete rulotes presentes na feira. Leia e dê a sua opinião.

 

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Sobre a origem das farturas pouco se sabe. Segundo explica o reconhecido gastrónomo Virgílio Gomes, terão vindo de Espanha, onde seriam feitas em paralelo com os churros. Outros acrescentam que terão surgido primeiro os malacuecos – um doce redondo e achatado de origem espanhola, popularmente conhecido por filhós – e só depois as farturas. Essas, são inconfundíveis para miúdos e graúdos, apesar de estes preferirem mais os churros recheados, crepes e waffles. Na Feira de Sant’Iago há sete rulotes dedicadas a esta nobre arte que é fazer farturas. Fazem-nas há décadas com a mesma paixão e profissionalismo, partindo da receita original (que leva apenas água, sal, farinha e óleo) e acrescentando depois um toque de limão ou outros ingredientes secretos para afinar o sabor. Até a forma de amassar a massa  – à mão ou com recurso à batedeira – concorre para a qualidade final da fartura, que se quer bem escorrida de óleo, estaladiça por fora, fofa por dentro e polvilhada de açúcar e canela. Não há feira que não dê em fartura!

 

01. Doce e Quente

Nesta rulote tudo começou pelos waffles, bolo de origem belga com formato rectangular e pequenos cubos normalmente cobertos de mel ou chocolate. “Começámos por vender waffles quando o meu pai Isaac trouxe um equipamento dos Estados Unidos”, conta Mónica Costa. Na altura, diz, foram pioneiros a vender o bolo em Setúbal. Depois o negócio cresceu, para dar resposta à preferência dos clientes, e este casal do Seixal, que diz ter enveredado no ramo por “casualidade”, começou a fazer também churros e farturas. Já lá vão 25 anos. “A experiência já é tanta que nós só de olhar percebemos logo se a temperatura do óleo e a massa estão bons”, acrescenta Joaquim, proprietário da rulote. Dois minutos na frigideira, com o óleo a 180 graus, são suficientes para a massa ficar no ponto. “É muito rápido”, completa Mónica, enquanto embrulha mais uma fartura num guardanapo. À rulote vermelha e preta, com o nome escrito a branco, chegam clientes de passagem e também aqueles que os acompanham desde a feira na Avenida Luísa Todi. “Era sem dúvida melhor, pelo sítio e pelo ambiente em si”. Nem que fosse pelo facto de começarem a vender farturas mais cedo. Aqui, só a partir das 19h30. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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02. Churraria Matos

Nuno Matos é fartureiro e considera-se uma pessoa feliz. “As coisas correm bem porque gosto daquilo que faço”, afirma convicto enquanto vira o caracol de massa na frigideira para que não frite demasiado. Mas “há muitos anos”, quando os pais já percorriam quilómetros de festa em festa com a rulote, Nuno tinha medo de se queimar. “Comecei a vender pipocas, de pequenino, porque não queria fazer farturas. Tinha medo de me queimar. Até que decidi a minha vida por isto”, então com 18 anos. Os pais ensinaram-lhe tudo. No espaço em que trabalha apenas com a ajuda da mulher, Vânia, faz a massa das farturas com recurso a duas farinhas (uma com fermento e a outra não). “O segredo é a nossa mão [amassa à mão e em vez de na batedeira] e a paixão com que fazemos”, diz, enquanto Vânia vai cortando o caracol entre 12 a 18 farturas, para depois as passar em açúcar e canela. Em alternativa também vendem churritos e churros recheados, assim como água e refrigerantes. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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03. Farturas à Otário

O nome é suficiente para despertar a curiosidade e ninguém melhor que Glória Macedo, feirante de 56 anos, para o explicar. “Nós, às pessoas que não são feirantes, chamamos os otários. Então o meu marido, como não tinha outro nome para pôr à rulote e tinha a alcunha de otário, disse ‘Olha, vou pôr Otário!’. E ficou Farturas à Otário”, conta, sorridente. Se não fosse o nome a despertar a atenção, seriam as luzes cor-de-rosa e azul fluorescentes e um enorme painel luminoso onde se lê “a tradicional fartura”, “a melhor e mais saborosa”. Palavras dos próprios. Certo é que Glória já as faz “há uns 15 anos”, tendo começado a correr as feiras com os pais, desde pequena. “Começámos com pipocas, algodão doce e balões e fomos subindo, para um pavilhão de jogos”, até se dedicar ao exigente negócio da venda de farturas, churritos e churros recheados. Na barulhenta zona dos carrosséis e diversões, onde estão estacionados, as farturas começam a sair a partir das 18h e às 22h há um pico de procura quando muitos acabam de jantar e as procuram como sobremesa. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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04. Super Fama

Na rulote da Super Fama, estacionada num dos corredores principais da feira, é Filipe Barbosa, 54 anos, que manuseia a seringa da massa das farturas. A mulher, Rita, filha de fartureiros, tem o negócio há 36 anos e talvez seja por isso que não se limita a seguir a receita base, adicionando à água, sal e farinha um bocadinho de limão e outros “toques especiais” para tornar as farturas diferentes das da concorrência. “Cada fartureiro tem a sua táctica, nós temos a nossa”, completa a afilhada, Cândida, bem-disposta. Numa boa noite são capazes de vender algumas centenas de farturas – a partir das 19h e até ao fecho da feira –, a par dos churritos, churros recheados, malacuecos, crepes e waffles cobertos de todas as doçarias possíveis e imaginárias. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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05. Família Fidalgo

É a segunda rulote de farturas mais antiga da Feira de Sant’Iago a seguir às Farturas da Luizinha e representa uma história de amor digna de registo. “Somos casados há 32 anos e há 32 anos que fazemos a Feira de Setúbal”, conta Fernanda Fidalgo. Na verdade, quando casaram, Manuel já dominava a arte de fritar farturas, tendo começado aos 14 anos. A profissão parece correr no sangue da família: “Tenho mais um irmão e os filhos dele fazem todos farturas”, diz, sorridente. Na Avenida Luísa Todi estacionavam a carrinha ao pé do restaurante O Duarte dos Frangos, e desde há 13 anos ficam sempre na entrada ao pé da Escola Secundária Dom Manuel Martins para corresponder às rotinas de quem pede para comer na hora e levar para casa. “É raro vender só uma fartura”, confirma Fernanda. E o segredo do sucesso não tem nada que saber: depende da qualidade dos produtos e de algo tão simples como o gosto por trabalhar na feira e servir como gostam de ser servidos. Claro que nem sempre vendem só farturas: os históricos malacuecos, que os setubalenses reconhecem como filhoses e que “antigamente faziam-se com massa do pão, com fermento, e à mão”, também os têm, assim como churros e waffles. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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06. Farturas Delícia

Entre a tradição e a inovação, assim se conta a história das Farturas Delícia, fundadas há 17 anos por Sérgio Tavares, natural de Palmela. “A minha esposa tinha o reboque do bingo, muito emblemático, e eu vendia outras coisas na feira. Quando o meu sogro nos deu a primeira rulote, achámos por bem criar um nome diferente. É um nome mais comercial e dá mais impacto”, conta o proprietário da única marca de farturas com duas rulotes na feira e onde trabalham 11 pessoas. Não raras vezes, Sérgio vai “saltando” de uma para a outra sempre que é preciso dar uma ajuda. A massa, conta, é sempre feita no momento, à vista dos clientes, e há “alguns segredos” que prefere não revelar. Já sobre o facto de colher a preferência de muitos visitantes, diz que “a matéria-prima, o modo de preparação e os tempos de fritura [não mais que dois minutos], aliados ao bom atendimento” são fundamentais. A juntar a tudo isso, o olho para o negócio que o levou a ser “dos primeiros na feira a vender crepes” e churros mix, isto é, recheados com chocolate branco e chocolate preto. Fazem as delícias da clientela mais jovem, enquanto “as pessoas mais velhas preferem farturas e filhoses”. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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07. Farturas da Luizinha

A rulote de farturas mais concorrida da Feira de Sant’Iago foi criada há mais de 40 anos por Luiza Arriola, de origem espanhola. Manuel Pereira, casado com a neta da D. Luizinha, Esmeralda Pereira, é quem gere esta quarta geração do negócio, com os filhos a ajudá-lo também. Na rulote opera a seringa da massa, enquanto a equipa, de mais cinco pessoas, mantém a cadeia de produção a funcionar para levar a fartura ao cliente sempre quente – com mais ou menos açúcar e canela – e envolta num guardanapo, ou em caixas de seis unidades. As filas sucedem-se das 21h às 00h, como se já fizessem parte da experiência, e a fama deve-se, na opinião de Manuel Pereira, a “três pequenas coisas que no fim fazem um produto especial”: o respeito pelo cliente, o amor com que se faz e a qualidade das farturas. A receita inclui uma raspa de limão e o óleo é mantido a cerca de 190 graus de forma a que a massa leve um “choque para que não absorva mais óleo”, fritando em vez de cozer. “Isso faz com que a fartura fique sempre sequinha”, conta o fartureiro, e provavelmente menos enjoativa que as demais. O veredicto fica por conta dos clientes. Preço da fartura: 1€/unidade; 5€ meia-dúzia

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Nota: a numeração das marcas não corresponde a nenhuma ordem preferencial.

 

Texto de André Rosa
Fotografias de Diário da Região
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