Carta de uma neta com o coração em lágrimas

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Leitora do DIÁRIO DA REGIÃO escreve carta aberta ao homem que atropelou mortalmente a sua avó, no Barreiro

Ao homem que matou a minha avó

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Deixa-me contar-te como foram os últimos dias.

Quando o telefone tocou no domingo à noite e ouvi a voz do meu pai do outro lado, parecia uma brincadeira, mas o pai soluçava e tentava dizer-me que a minha Vóvó (era assim que a chamávamos) tinha morrido.

Caí ao chão e caiu uma escuridão imensa.

Corremos para casa da Vóvó. No banco de trás, a minha filha, indisposta. O meu T., a segurar-me a mão. A segurar-me o tempo todo, enquanto atravessávamos a rua e víamos o aparato de ambulâncias e pessoas. Não vi ninguém senão os meus.

O irmão caçula que ainda viu a nossa querida, ali deitada no chão daquela rua que foi sua durante décadas. Aquela passadeira que foi atravessada milhões de vezes, com cuidado.

Tu não sabes nada disto porque foste cobarde e fugiste. Não ficaste lá para ver o horror, a revolta e a dor indescritível que tentávamos combater nos braços uns dos outros. Vieram familiares e amigos. Choraram connosco e ficaram em silêncio connosco.

Nos dias seguintes, juntámo-nos todos em casa da mãe e do pai. Tudo surreal. A primeira noite foi passada quase em branco. Ouvi a mãe chorar, quase gritar. Fechar os olhos era deixar a imaginação correr para as circunstâncias trágicas. Tive medo de adormecer. Na única hora que tive de sono sonhei com a Vóvó. Ela estava bem, tinha sido só um susto e ela tinha acordado e nós estávamos com ela, naquela casa pequenina, como ela, que recebeu tanta gente. Acordei para o pesadelo novamente.

Nestes dias houve pranto e silêncio, houve pessoas que nos obrigaram a comer e beber, mesmo sem vontade. Outros que se fizeram presentes de tantas formas. Também houve memórias doces e música e oração. Se te parece paradoxal haver música numa casa enlutada, eu digo-te porquê. Porque acreditamos que morrer não é o fim. A Vóvó está com Jesus. Para sempre, sem lágrimas, nem dor.

Por agora, a balança parece desequilibrada. A dor da separação é gigantesca e pesada, maior do que a alegria de saber que ela está em Casa. Mas um dia, Deus vai dar-nos a graça de que a dor seja adocicada pela segurança desta realidade maior do que nós todos. Por agora, sentimo-nos atordoados, confusos.

Ela era imperfeita, mas era uma mulher de fé, que sempre cuidou dos seus e de todos os outros. Dos que lhe batiam nos estores da janela e que ela convidava a entrar. Cheia de paciência para os ouvir.

Naquela casa pequenina estão tantas memórias de infância… os animais que ela me deixava trazer para dentro, as brincadeiras na lama do quintal, debaixo do limoeiro sempre carregado de fruto. As histórias do acampamento (foi com ela que aprendemos a amar aquele lugar). As uvas, a que ela tirava as grainhas. Nunca as uvas me souberam tão bem como ali. Os hinos que cantava de cor, enquanto cozinhava.

Como foi paciente connosco, comigo e com os manos! Havia tanto riso quando a Vóvó estava em casa, quando éramos pequenos e adormecíamos ao molho a ouvir as suas histórias disparatadas.

Se ao menos a tivesses conhecido.

Estás em liberdade. Mas não acredito que estejas livre. 

A Vóvó está livre. Para sempre.

 

LEITORA DEVIDAMENTE IDENTIFICADA

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