Memórias

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Hoje tem sido um dia de memórias…
«Nem boas, nem más; só memórias», como diz o Gabriel; um dos meus personagens numa saga na qual ainda estou a trabalhar.
E é isso que as memórias têm de ser: lembranças desprovidas de sentimentos.
No entanto, isso não é fácil, porque o nosso cérebro tem um método de arquivamento que deita por terra quase todos os esforços que possamos fazer nesse sentido. O nosso cérebro utiliza os nossos sentimentos, e emoções, como fonte de etiquetagem; e, assim que algo acontece, é imediatamente inventariado desta forma ou da outra.
É por isso que às vezes uma fragrância nos deixa tristes ou um som nos causa ansiedade, porque está associado, e muitas vezes inconscientemente, a um determinado sentimento. Mas se não conseguimos perceber o porquê do surgimento desse sentimento, pois na maior parte dos casos já não recordamos exatamente o facto que espoletou o sentimento que ressurgiu naquele instante, de que nos serve?
Actualmente, de pouco ou nada. Contudo, é assim que o cérebro funciona e quanto a isso nada se pode fazer; resta-me sublinhar que, no tempo em que o Homem pouco mais era que um animal, ajudava-o a sobreviver – e, então, era essencial.
Por outro lado, poderemos questionarmo-nos de que nos servirão as memórias se com elas não evocarmos sentimentos. Poderemos até perguntar: se não nos recordar um sentimento, poderá ser considerado uma memória?
É claro que sim. Uma memória, taxativamente, é algo que ficou gravado para referência futura. Não tem necessariamente que nos lembrar um sentimento, tem – isso sim – que servir para nossa condução.
A roupa – independentemente da marca – tem uma única função: vestir-nos. E os sentimentos incorporados nas memórias podem ser vistos da mesma forma; sendo que os sentimentos serão a marca da memória, mas não aquilo que nela é essencial.
Mas somos humanos. E somos ensinados no valor dos sentimentos, da importâncias das boas recordações, e com isso – mais o sistema natural do nosso cérebro – tornamo-nos colecionadores de memórias. Tudo isso estaria muito bem se, entretanto, também não nos tivéssemos especializado no sofrimento; se não tivéssemos criado um espaço especial para as memórias da dor…
E isto é natural. Ninguém quer repetir uma experiência dolorosa. Há que saber o que provocou a dor, para nos mantermos afastados. Contudo, pergunto:
Será necessário evocarmos sempre essa mesma dor quando recorremos à memória?
Não seria tão mais fácil existir uma forma – estilo Pop up – que nos alertasse para o perigo?
Mas não. A maior parte de nós parece que tem um fio ligado à memória e, quando a memória é evocada – e desiludam-se se pensam que podem desligar a memória -, apanham uma descarga elétrica.
Voltando ao exemplo da roupa… Apesar de termos de andar vestidos, acham que temos de andar apertados ou com roupas largueironas?
É claro que não!
E com as memórias é igual. Para a memória cumprir a sua função não tem necessariamente de nos fazer sofrer de novo.
Como disse, logo ao princípio: hoje tem sido um dia de memórias…
Algumas trouxeram-me sorrisos e outras trouxeram-me lágrimas… Mas nenhuma me trouxe sofrimento.
As memórias só têm de ser memórias:
«Nem boas, nem más; só memórias.», by Gabriel.

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