Muxito – De empreendimento de luxo a ruína abandonada

Em 1957, era inaugurado um complexo hoteleiro, único do género em Portugal, em Vale de Gatos, perto da Cruz de Pau. Fechou as portas, em 1973, mas nunca foi esquecido pela população local. Hoje é um local predominantemente abandonado que suscita a curiosidade de quem por ele passa e de quem descobriu formas de aproveitar o espaço que restou.

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ABANDONO. O aspeto do antigo complexo hoteleiro Muxito, em 2018.

“Vale de Gatos foi outrora refúgio de malfeitores e depois depósito de gatos vadios. Hoje é, sem dúvida, grito de progresso, bandeira de turismo do concelho do Seixal, orgulho da freguesia de Amora a que pertence e da qual dista cerca de 300 metros das suas primeiras casas”. A afirmação é feita pelo Jornal Tribuna do Povo de 2 de Junho de 1957 e recuperada pelo Jornal Comércio do Seixal e de Sesimbra de 7 de Março de 2014. E os elogios continuam: A “grandiosa obra” era propriedade da firma Lino & Zimbarra que “no adusto pinheiral e ermo sítio levantou aprazível estância de repouso, construindo casas de habitação, um restaurante, que no mais elegante meio da capital seria dos primeiros, e projectando para um futuro próximo, uma piscina!”.

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De inspiração colonial, e localizado nos pinhais outrora pertencentes à Infanta D. Isabel Maria, filha de D. João VI, o Muxito foi um empreendimento de luxo composto por uma estação de serviço rodoviário, um posto de abastecimento, um hotel com 60 quartos, um motel (conjunto de 13 vivendas), um apart-hotel, um parque de campismo, campos de ténis, um lago artificial onde se podia navegar em barcos a remos, um restaurante à entrada e outro panorâmico no último piso, duas piscinas (uma olímpica com prancha de 10 metros, das primeiras em Portugal, e outra para crianças), equipamentos de apoio à piscina, entre os quais um bar, um centro hípico, uma boate e uma praça de touros. A propriedade tinha mais de dez hectares que os hóspedes podiam explorar em motorizadas. Fazia parte do projecto a construção de um centro comercial que teria sido o primeiro do país, caso tivesse avançado.

GLÓRIA. Complexo hoteleiro Muxito em funcionamento

O negócio era lucrativo e vinham pessoas ricas de todo o país e de vários pontos da Europa para descansar no caminho para Lisboa ou, simplesmente, para aproveitar as comodidades desta estância turística. Antes das autoestradas, chegar a Lisboa podia demorar várias horas e o Muxito ficava no caminho pois estava situado à beira da estrada nacional 10, a única que servia o sul do país (incluindo o Alentejo e o Algarve) na época. Já diziam os Xutos e Pontapés, em 1988, que “de Bragança a Lisboa são nove horas de distância”. Em 1966 é inaugurada a então designada ponte Salazar, rebaptizada ponte 25 de Abril depois do estabelecimento da democracia. Algumas teorias dizem que esta ligação, hoje vista como essencial para o desenvolvimento da região a sul do rio Tejo (e onde circula o comboio da ponte desde 1999), fez com que o Muxito ficasse “fora de mão” e a “ver o trânsito a passar nas suas costas”. No entanto, Jorge Garcia, filho de José Garcia (gerente do Muxito), afirma que o pai “nunca comentou nada sobre isso” e que “o Muxito era lucrativo na mesma, fechou por outros motivos”. Hoje, a Autoestrada A2 divide a propriedade, a urbanização está próxima e a vegetação toma conta do antigo hotel que, ainda assim, já não está protegido dos olhares exteriores como acontecia durante o seu período de funcionamento: passando a entrada, à beira da estrada, era um local isolado, com o objectivo de preservar a privacidade e descanso daqueles que podiam pagar a estadia.

ATUALIDADE. Vista da piscina e dos apartamentos a partir da estrada

De 1973 anos nossos dias: será “maldição”?

A decadência chegou no início dos anos 70. Jorge Garcia conta que o “Cristo [um dos sócios da firma proprietária do complexo] tinha outros negócios e esses é que foram ruinosos”. Zimbarra faleceu em 1973 e com ele morreu também a firma, que declarou falência. Em leilão, o espaço foi adquirido por uma sociedade hoteleira, na altura presidida por Gordana Bayloni, de nacionalidade “jugoslava”, mas que “tinha por detrás dela, evidentemente, altos senhores do nosso país e organizações anónimas”, escreveu o Comércio do Seixal e de Sesimbra, também em 2014, citando o jornal Tribuna do Povo de maio de 1975. Apesar de terem sido realizadas obras e criados projectos para melhorar o Muxito, a estagnação manteve-se “por razões desconhecidas”.

Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, a 7 de Março de 1975, o edifício do Hotel Muxito foi ocupado “por elementos de diversos partidos da extrema-esquerda revolucionária [Frente Socialista Popular e Liga de Unidade e Acção Revolucionária] e por comissões de trabalhadores, para ser colocado ao serviço das classes exploradas”, escreve o Comércio do Seixal e de Sesimbra, a partir do blogue “Abril de Novo”. Começou, assim, a “Comuna Che Guevara” dedicada à instalação de serviços de apoio social. O local passou a funcionar como ponte para um projecto de realização de venda directa de produtos entre os agricultores e o consumidor final, como cantina popular e como jardim-de-infância. Também a piscina foi aberta ao público que a podia utilizar gratuitamente. “No mês de Abril de 1975, o negócio da cantina popular rendeu a soma de trinta contos (150 euros). No jardim-de-infância, nesse mesmo Abril, estavam já 22 crianças, dos 3 aos 6 anos”, avança a mesma edição do Comércio do Seixal e de Sesimbra. Havia vários outros projetos pensados para o local, também devido ao facto de a comuna ser apoiada economicamente por empresas da área, bem como pela INATEL e pela IFAS.

Todavia, quando estas ligações terminaram, foram instalados campos de treino, palco de tiroteios e de negócios obscuros, situação que viria a acabar com o 25 de Novembro de 1975. O Comércio do Seixal e de Sesimbra cita o Tribuna do Povo de 8 de Novembro de 1975 para dar conta desta situação “onde se prova que não basta ser revolucionário de boca” porque “ocupar realmente não basta”. O jornal acrescenta: “Para além da falta de limpeza e higiene, do desaparecimento do inventário de móveis após a ocupação, prática de sexo livre, desvios de dinheiros, inclusive para pagamento de despesas pessoais, hospedagens gratuitas a familiares e amigos de alguns, desvios para o ócio e sexo de grupos estrangeiros ali chegados, inicialmente com outro sentido. Nem tudo por certo foi negativo nesta triste experiência, fica entretanto bem evidente o oportunismo hoje de tantos como estes, que sabem mandar para a frente nomes bem sonantes como Che Guevara, para encobrir a sua própria miséria”.

O infantário ainda funcionou até 1977, mas o local encontra-se abandonado desde aí e são poucas as pessoas que se aventuram a entrar no espaço do antigo hotel. O restaurante à beira da estrada tem sido sucessivamente explorado desde então. No entanto, de acordo com Jorge Garcia, “os negócios duram apenas meses, apesar de a localização ser excelente”. E conclui: “Eu acho que há ali alguma maldição”. Actualmente o restaurante está em funcionamento e o cartaz que anunciava a entrada do hotel anuncia agora a entrada para o restaurante.

OUTRAS UTILIZAÇÕES. Entre a arte, o exercício e o vandalismo

Não obstante o vandalismo de que o Muxito foi alvo desde o seu encerramento nos anos 70, os seus espaços têm sido palco de utilizações alternativas que vão desde a pintura de grafites (como este que vemos no meio da destruição e que tem a data de 2015 na assinatura), à rodagem de filmes e prática de jogos ou exercício. A título de exemplo, grande parte das cenas do filme português de ficção científica “RPG” foram filmadas neste espaço. São vários os vídeos publicados no Youtube por jovens que se orgulham de, simplesmente, ter entrado no complexo “assombrado”. Dada a proximidade do Complexo Municipal de Atletismo Carla Sacramento, por vezes passam pessoas a correr pelos caminhos que já serviram para que os hóspedes pudessem ir de um espaço a outro, no interior desta, na altura enorme, estância turística. Forças policiais aproveitam a estrutura do hotel para treinos físicos e grupos de jovens divertem-se a explorar o “perigo” que este local abandonado representa. Algumas das vivendas que constituíam o motel encontram-se habitadas e, desde o início dos anos 2000, sujeitas ao pagamento de uma renda para o efeito. Há, também, pequenas hortas para consumo próprio dos residentes.

Esta fotografia mostra um pormenor dos equipamentos de suporte à piscina. Seria, provavelmente, uma casa de banho ou balneário, enquanto no piso superior estavam os apartamentos com varanda voltada para a piscina. Gastão Silva, autor do blogue “Ruin’Arte”, publicou, em 2010, fotografias desta ruína que o intrigou e o levou a procurar a história e localização da mesma. Na altura com 44 anos, o bloguer descreveu desta forma o cenário que encontrou: “Nunca vi uma ruína tão frequentada, além dos habituais ‘ocupas’, vi também grupos de jovens que se reuniam por aqueles lados para namorar, fumar ganzas, faltar às aulas e talvez vandalizar por divertimento mais um pedaço desta defunta estrutura. Cruzei-me também com um pelotão de jogadores de paintball e assisti a uma autêntica guerrilha urbana”.

EVOLUÇÃO. A priorização dos equipamentos coletivos

A partir da década de 70, a população do concelho do Seixal aumentou exponencialmente, tendo quadruplicado de acordo com os censos de 2011. A conquista de direitos por parte das pessoas que já habitavam na zona, conjugada com a chegada de novos habitantes, de diferentes proveniências, ao longo dos anos, potenciou o aproveitamento público do espaço para a construção urbanística e para a instalação de equipamentos colectivos como é o caso do Complexo Municipal de Atletismo Carla Sacramento (CMACS), da estação de comboios de Foros de Amora, do quartel da Associação Humanitária de Bombeiros Mistos de Amora e de prédios para habitação nas imediações, alguns deles em terrenos que pertenciam ao Muxito. O CMACS foi inaugurado em 2001 e construído no local onde antes funcionavam os campos desportivos do Muxito. Esta fotografia foi tirada no último piso do hotel, correspondente ao antigo restaurante panorâmico, e permite ver a proximidade dos prédios e a estação ferroviária.

Embora pareça haver planos para a área do Muxito há quase 30 anos, como podemos ler no Comércio do Seixal e de Sesimbra, a verdade é que o espaço continua maioritariamente entregue ao abandono: “A Assembleia Municipal do Seixal aprovou, em 30 de Julho de 1993, o seu Plano Director Municipal, no qual era referido que ‘a área do Muxito apresenta potencialidades para actividades turísticas de desporto e lazer’. A 22 de Outubro de 2001, durante a campanha eleitoral para as eleições autárquicas, Alfredo Monteiro referia ao jornal Setúbal na Rede que ‘o projecto para o Muxito e todo aquele conjunto que tem a pista de atletismo e a área que já é municipal, junto à estação [de comboios] de Foros de Amora, é fazer um grande espaço de lazer com um complexo de atletismo que irá crescer em termos de equipamento. É uma área de lazer para onde se prevê, também, equipamentos turísticos. Com investimento privado ou com investimento municipal, vamos dotar o Muxito de condições para que venha a ser o grande pulmão e a grande área de lazer deste concelho. O projecto não pode avançar porque, tendo a proprietária do terreno falecido, o processo está com os herdeiros. Mas a câmara está atenta e pretende avançar com este objectivo assim que o caso se resolver”. Os anos (e também os Planos Directores Municipais) passaram e as propostas para reconverter o Muxito continuam no papel.

CURIOSIDADES. As pessoas que davam vida ao Muxito (fotografias de Jorge Garcia)

Os proprietários da firma que detinha o Muxito eram José Vieira Zimbarra (ao centro na primeira fotografia) e José Maria Cristo. Jorge Garcia, filho de José Garcia, reitera o luxo do complexo: “Na altura aquilo era só frequentado por gente rica. Por exemplo, as equipas estrangeiras que vinham jogar contra o Benfica estagiavam ali. As pessoas que viviam aqui na zona não frequentavam, não era que fosse interdito mas sentiam-se mal. As terras do Muxito iam quase até à Fonte da Telha, depois a autoestrada cortou. Lembro-me de o meu pai dizer que ali havia muitos campos de ténis. E há uma coisa que pouca gente sabe: a estrada que vai para a Fonte da Telha foi alargada pelo Muxito para poder levar os turistas à praia porque na altura não havia muitas pessoas a ir à praia”.

E aproveita para recordar os pais que passaram vários anos da sua vida no Muxito: “O meu pai conheceu a minha mãe [Lídia Garcia] lá. Ela foi para lá trabalhar quando apareceram os primeiros telefones, era telefonista”. José Garcia (que está mais alto na primeira fotografia) foi sempre o gerente e “desde que aquilo fechou, muito antes do 25 de Abril, nunca lá voltou durante mais 30 anos, apesar de ter a chave e de morarmos a um quilómetro dali. Só lá voltámos uma vez poucos anos antes de ele falecer. Quando falava do Muxito era com mágoa, foi mesmo um trauma que ficou, teve um grande desgosto. Depois ainda tentou outros negócios mas não funcionaram. Ele achava que as coisas podiam ter sido diferentes e ainda tentou reunir dinheiro para ficar com aquilo mas não conseguiu”.

Embora o Muxito tenha tido sucesso nos anos 50 e 60, houve um episódio lamentável que ainda é recordado na actualidade: “Um casal morreu lá [em 1959] e foi o meu pai que os encontrou e que viu que as crianças estavam vivas. Hoje sabe-se, devido a investigações, que eles foram mortos pela PIDE e isso nem o meu pai sabia. Começou a falar-se disso na comunicação social porque era um casal inglês e dizia-se que eram espiões. O meu pai desconfiou que tivessem sido assassinados porque os filhos estavam vivos”.

Na segunda imagem está um cartoon com gatos (animal que deu origem ao logótipo do Muxito) a brindarem, numa brincadeira com as “festas” de 1965, e Jorge Garcia explica: “Havia um senhor, que trabalhava lá no Muxito, a quem chamávamos ‘Bio’ e que desenhava muito bem, era recepcionista ou porteiro, não sei, e então ele fez, durante anos e anos, 170 cartoons do Muxito que dava ao meu pai. É engraçado porque, muitas vezes, ele desenhava provérbios e ditados populares mas com a temática do Muxito. E ia fazendo isto com envelopes ou outros papéis que tinha. Há muitos em que aparece o meu pai e às vezes era para gozar com ele porque acho que o meu pai demorava a acordar, era complicado e ele é que o ia acordar. E ele também fazia alguns a gozar comigo e com a minha irmã”.

Por fim, na terceira imagem está Jorge Garcia, na altura com cerca de cinco anos, na companhia da irmã, a aproveitar um dia nas piscinas do complexo: “Quando o Muxito fechou eu era muito pequenino, devia ter cinco ou seis anos. Tenho poucas memórias. Lembro-me de andar por lá”.

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