Mundet – Uma fábrica transformada em museu, restaurante, arquivo e escola

Após 85 anos a produzir cortiça, a fábrica Mundet encerra definitivamente em 1988. Durante os anos em que esteve em atividade, foi um importante empregador na região e teve um papel ativo na vida dos seus trabalhadores e da comunidade. Adquirida pela Câmara Municipal do Seixal em 1996, a fábrica foi musealizada, sendo hoje um dos núcleos do Ecomuseu do Seixal. Além disso, em 2016, o antigo refeitório transforma-se num bar/restaurante. Há, ainda, lugar nas antigas instalações da fábrica para a Escola de Música do Conservatório Nacional – Pólo do Seixal e para o Centro de Documentação e Informação do Ecomuseu Municipal do Seixal.

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MUNDET. A cortiça continua presente no bar/restaurante Mundet.

Em 1905, a firma L. Mundet & Sons instalou a sua fábrica-sede na Quinta dos Franceses, na vila do Seixal. Proveniente da Catalunha, já estava então radicada nos Estados Unidos da América e evoluiu para uma poderosa organização corticeira a nível mundial. Em Portugal, a firma Mundet expandiu-se, para além do Seixal e de Amora, pelo Montijo, Mora, Ponte de Sor e Vendas Novas.

MEMÓRIAS. Tanques de cozer cortiça: a fábrica Mundet transformada em museu
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No entanto, a partir de 1972, apenas se encontravam em funcionamento as fábricas do Seixal e Montijo. Depois de 1974, assistiu-se a um empolgante e conturbado processo de luta dos trabalhadores pela sua recuperação e viabilização, mas o percurso da Mundet parecia comprometido por sucessivos problemas de administração e estratégias, a que se juntaram a falta de modernização, a expansão do plástico e a crise internacional dos anos 70.

A fábrica do Seixal encerrou em 1988. Tornada património municipal em 1996, quando a Câmara Municipal do Seixal a adquiriu em hasta pública, a antiga fábrica Mundet foi objeto de um processo de musealização. Lá passaram a funcionar o Pólo do Seixal da Escola de Música do Conservatório Nacional, os serviços centrais (sede administrativa) do Ecomuseu Municipal do Seixal, o Centro de Documentação e Informação, o Serviço Educativo e duas exposições: uma no Edifício das Caldeiras Babcock & Wilcox (desde 1998) e outra no Edifício das Caldeiras de Cozer (desde 2000).

A sala que vemos na fotografia é o interior do Edifício das Caldeiras de Cozer, construído em 1942 e onde começava o processo de fabrico da cortiça. Os tanques são os originais e permitem vislumbrar como se iniciava o trabalho. Acima, um grande cartaz com fotografias recorda-nos de que estamos num espaço musealizado que já não opera como fábrica. A exposição chama-se “A Cortiça na Fábrica: A Preparação”. Aqui, efetuava-se a primeira cozedura da cortiça, um trabalho que exigia robustez física e habilidade manual, para enfardar as pranchas vindas do mato e obrigar os volumosos fardos a submergir na água. Por esse motivo, esta secção, onde depois eram escolhidas as pranchas com base no seu calibre e qualidade, era conhecida como “Caldeiras dos Homens” para se distinguir daquela onde era feita a segunda cozedura: “Caldeiras dos Moços”. O nome devia-se ao facto de o trabalho realizado nesta fase ser mais leve, embora se mantivesse o perigo de manipular cortiça em água a elevada temperatura, pelo que era realizado pelos operários mais jovens. As cozeduras eram essenciais para permitir a posterior transformação da cortiça nas oficinas, como João José Fominha, antigo escolhedor de prancha, afirmou em 1998 ao núcleo museológico da Mundet: “Crua não, crua não se escolhia. Nem dá para escolher cortiça crua. Era depois de ser cozida e de ser aqui traçada. Isto era cheio de cortiça! Depois lá para baixo é que a gente escolhia cortiça. Numas bancas, assim é que a gente escolhia”.

EXTERIOR. Um investimento incompleto

Embora vários espaços da antiga fábrica tenham sido reaproveitados, a parte do museu ainda está pouco dinamizada e divulgada, contando apenas com uma exposição permanente e outra temporária que nem sempre é possível visitar devido a problemas no teto do edifício. Este é o Edifício das Caldeiras Babcock & Wilcox, onde está a segunda exposição. Tem afixado um cartaz onde, no início dos anos 2000, se podia ler “exposição”. Atualmente é necessário estar perto e com atenção para se ser capaz de distinguir essa palavra na parede, como revela a fotografia. Aparentemente, depois do investimento inicial, aquando da aquisição do espaço, não voltou a haver avanços concretos no que respeita ao aproveitamento da antiga fábrica.

A fábrica da Mundet estendia-se por vários hectares e, embora o trabalho fosse duro, os trabalhadores tinham vários direitos inovadores para a época (entre avanços e recuos) e que provam algum sentido de responsabilidade social por parte da administração, principalmente até aos anos 60. A partir daí, mudanças nos líderes e dificuldades económicas começam a ditar o encerramento de espaços e das próprias fábricas, à exceção do Seixal e do Montijo. Logo em 1939, é inaugurada uma creche e casa de infância (1943) no interior das instalações da Mundet, para que os trabalhadores tivessem onde deixar os seus filhos, até estes completarem 10 anos. Em 1941, é fundada a Caixa de Previdência do Pessoal da Mundet, face à ausência de segurança social como hoje a conhecemos. Em 1942, surge a Corporação dos Bombeiros Privados da Mundet para responder rapidamente aos incêndios que podiam acontecer na fábrica. O ano de 1951 trouxe a inauguração da sede e novas instalações desportivas do Grupo Desportivo Mundet, fundado em 1949 (onde se destaca o hóquei em patins). O ano de 1955 ficou marcado pela instalação do Posto Médico da Caixa de Previdência do pessoal da firma Mundet – na região havia apenas uma ambulância, propriedade da Mundet mas que era utilizada por toda a população envolvente. No ano seguinte, é instalado cinema ao ar livre na esplanada contígua à patinagem do Grupo Desportivo Mundet. A cronologia completa pode ser encontrada na obra “Água, fogo, ar, cortiça – exposição temática sobre a Mundet”, publicada pelo Ecomuseu Municipal do Seixal e pela Câmara Municipal do Seixal, em 2002.

ANTIGO REFEITÓRIO. Em 2016 abre o bar/restaurante Mundet Factory que aproveita elementos em cortiça para a decoração

O antigo refeitório transformado em bar/restaurante

Em 1930, a Mundet compra o edifício do Grémio Recreativo Seixalense, contíguo à fábrica, num primeiro sinal de querer apostar em atividades desportivas, culturais e recreativas. Por alguns anos, a instituição continuou a funcionar sob os auspícios daquela firma. Posteriormente, em 1935, esse espaço é adaptado e torna-se um refeitório para os trabalhadores da fábrica que, até aí, tomavam as suas refeições na berma da estrada ou em quintas vizinhas. Em 1939, o edifício é ampliado e é instaurada a “Sopa dos Pobres” para assegurar uma ação de assistência à população mais carenciada. No final da década de 70, com a crise na empresa e o decorrente decréscimo de operários, parte do espaço dos refeitórios foi adaptado, instalando-se aí o Café do Grupo Desportivo dos Trabalhadores da Mundet, os balneários de apoio ao ringue de patinagem e a Cooperativa de Empregados da Mundet.

Com o encerramento da fábrica, em 1988, o espaço ficou fechado até ter sido adquirido pela Câmara Municipal do Seixal, em 1996. Foi alvo de obras que permitiram a sua reutilização com fins recreativos e culturais, a partir de abril de 1997. No entanto, a revitalização efetiva surgiu muito depois: no dia 21 de dezembro de 2016, é inaugurado o bar/restaurante Mundet Factory. O espaço é dirigido por João Macedo, que participou no programa “MasterChef” da TVI, e ocupa os antigos refeitórios da Mundet, cuja recuperação “foi pensada para manter as características do edifício, tais como a fachada, e reaproveitar algumas peças originais do mesmo, estando a cortiça presente na decoração”. O objetivo é, simultaneamente, marcar a agenda cultural do concelho através de exposições, espetáculos de música ao vivo e outros eventos.bém marcar a agenda cultural do concelho através de exposições, espetáculos de música ao vivo e outros eventos que vão dinamizar a vida cultural do Seixal.

A importância da Mundet também se evidencia pelo número de trabalhadores, que chegou a ascender, nos anos 40, a mais de 4000. Cerca de 2500 estavam na fábrica do Seixal, e, desse número, perto de metade eram mulheres. Embora houvesse tarefas claramente destinadas a homens e outras a mulheres, é de assinalar a importância da mão-de-obra feminina na fábrica, principalmente desde os anos 30. A maior fábrica de cortiça em Portugal, na época, produzia todo o tipo de objetos em cortiça. No bar/restaurante os bancos são, agora, semelhantes aos que existiam no refeitório, uma prancha de cortiça é utilizada como mesa e a ementa parece um jornal antigo, com muitos trabalhadores a passar à entrada da fábrica.

No início da produção de discos na fábrica, havia uma “oficina grande”, construída em 1961, ou seja, o espaço onde se concentravam as operações de transformação dos diversos produtos: ”Era uma oficina assim muito grande. Os homens faziam aquelas tiras para fazer as pastilhazinhas. Tinha uma secção disso, tinha uma outra secção de lixar a rolha para ficar muito lisinha, muito lisinha… Tinha as mulheres a rebaixar, tinha os homens a fazer a rolha numa máquina que metiam as rabanadas de cortiça ali assim e aquilo fazia… tuc, tuc, tuc, tuc, tuc… Dali é que saíam as rolhas todas!” – Testemunho de Adelina Maria da Conceição, antiga escolhedora de rolha na Mundet & C.ª, Lda, em 2001, quando tinha 90 anos. Adelina era filha de operários corticeiros desta fábrica, tendo sido admitida na empresa em 1926 (com 15 anos), onde permaneceu como escolhedora até à idade da reforma, em 1968 (com 57 anos). Esta informação foi retirada do livro “Quem diz Cortiça, diz Mundet”, publicado pelo Ecomuseu Municipal do Seixal e pela Câmara Municipal do Seixal, em 2010.

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