Os Portugueses são racistas?

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Recentemente, uma jovem colombiana de 21 anos, a viver há dezasseis anos em Portugal, foi brutalmente agredida por um segurança da STCP- Sociedade de Transportes Coletivos do Porto. Chamada a polícia, nada aconteceu, pois o agressor, «com uma mão manchada de sangue e fumando um cigarro», não foi importunado. A comunicação social divulgou o caso, tendo surgido alguns artigos de opinião, em que os Portugueses são acusados de serem racistas. Fundamento para essa acusação: o seu passado de comerciantes de escravos.
Sem margem para dúvidas, tratou-se de um ato de racismo por parte do segurança, contudo, é de destacar que vários populares se manifestaram contra o agressor, foram mesmo eles que chamaram a polícia. Ora, pressupondo que esses populares são portugueses, conclui-se que perante um ato racista, vários cidadãos demonstraram não o ser; a generalização de que os Portugueses são racistas, não contribuirá apenas para o discurso do ódio que alimenta a xenofobia e o racismo?
Quanto ao «passado histórico racista dos Portugueses» – é bom lembrar que quando os homens das caravelas chegaram a África, o comércio de escravos já lá existia, praticado pelos próprios africanos- é bom lembrar que, naquele tempo, comprar e vender seres humanos era tão natural como comprar e vender animais ou coisas- já nos tempos do Império Romano, das lutas entre Cristãos e Muçulmanos, alguns dos vencidos eram escravizados; por mais que nos choque, a realidade era essa. É bom lembrar que foi no tempo do Marquês de Pombal que se aboliu a escravatura em Portugal continental e nas terras portuguesas da Índia, e que na segunda metade do século XIX, Portugal foi um dos primeiros países a acabar com a escravatura; mesmo sabendo que as práticas não se mudam por decreto, esses acontecimentos não deixaram de ser marcos importantes para acabar com a exploração do homem pelo homem. Como é bom lembrar que, até hoje, nenhuma força política defensora da xenofobia e do racismo conseguiu impor-se no Portugal democrático, país de emigração e de imigração.
Para se compreender a História é indispensável «viajar na máquina do tempo» e sentir-se romano na Roma Antiga, medieval na Idade Média, renascentista no Renascimento…Julgar os acontecimentos históricos à luz dos olhos dos nossos dias, pode dar jeito a alguns, que parecem pretender que todos nos sintamos culpados pelos «erros» praticados pelos nossos antepassados, mas em nada contribui para a veracidade histórica, para a compreensão do presente.
O termo racismo terá sido usado pela primeira vez em 1902, pela revista francesa «Revue Blanche»; no século XIX, período em que se procurou justificar as diferenças entre os seres humanos através de teorias «científicas», usava-se a palavra racialismo e não racismo. As ideias de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, gritadas pelos revolucionários franceses em 1789, e em Portugal em 1820, foram os motores das revoluções liberais; a lei deixou de ser a vontade do rei, passando a ser a vontade dos cidadãos com direito de voto. Foi a implementação progressiva da democracia, graças às revoluções liberais, que abriu caminho aos Direitos Humanos, os quais defendem que «Todos Nascemos Livres e Iguais». Em Portugal, com a ditadura salazarista verificou-se um retrocesso, pois no « Ato Colonial» defendia-se a distinção entre «indígena» e «civilizado», o que permitiu, por exemplo, o trabalho forçado, ou seja, embora fossem remunerados, os «indígenas» não se podiam recusar a trabalhar; os colonos solicitavam à Repartição dos Assuntos Indígenas o «fornecimento» de mão-de-obra e esse «fornecimento» aplicava-se a mercadorias e a homens sem qualquer distinção. Ilação a retirar: quanto menos democracia menos igualdade, liberdade, fraternidade!
Nos nossos dias, infelizmente, há escravatura, mas é ignorada por aqueles que escrevem sobre «o passado racista dos Portugueses»; por exemplo: quem ganha o salário mínimo não tem direito a um vencimento digno; por outro lado, os impostos pagos por milhões de portugueses vão contribuir, entre ouras coisas, para que o Estado pague rendas a empresas como a EDP que obtém milhões de lucros; vão contribuir para o Estado injetar milhões e milhões em bancos privados -privados para distribuir lucros – públicos para o Estado cobrir prejuízos- como afirmou o padre António Vieira, «se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem, nem mil para um só grande.»
Em vez de procurarmos explicações históricas para atos cobardes como o do segurança dos STCP, não será de nos questionarmos sobre o que cada um de nós pode fazer para termos um país mais igual para todos- portugueses ou estrangeiros- logo mais justo?

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