Migrantes e refugiados e a hipocrisia europeia

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Estamos já perante a maior crise humanitária do pós-II Guerra.
E todos nós temos reagido: a maioria, especialmente depois das imagens chocantes que inundaram os media e as redes sociais de todo o mundo do pequeno Aylan prostrado numa praia turca, a Europa mostra-se mais solidaria (,ou o navio “Aquarius”, com 682 pessoas a bordo que a Italia liderada por um governo proto-fascista recusou), mostra-se solidária, alguns continuam a primar pela indiferença, e outros ainda, mantém a inadmissível posição de oposição ao acolhimento dos refugiados, mostrando, muitas vezes, o que mais desprezível existe no ser humano e lançando sobre eles os tradicionais epítetos de “vagabundos”, “terroristas”, “bárbaros”. E mais, muitos destes ferozes adversários são pacatos cidadãos seguidores da doutrina e fé cristãs, alguns deles fervorosos e militantes crentes. Como é possível um seguidor de uma religião fundada nos nobres princípios e valores do humanismo, da solidariedade, do amor incondicional, da fraternidade defender posições tão iguais aos fazedores do Holocausto como: ”afundem os barcos”, “matem-nos a todos porque é o mesmo que eles fazem”. E para defenderem os seus pontos de vista servem-se amiúde do insulto. Será que o Papa Francisco quando pede à comunidade católica para acolher refugiados também é “ingénuo”, “estúpido” ou “cúmplice”?
Mas é a Leste, onde num passado não muito distante se viveu uma colossal tragédia humana, que surgem pequenos sinais da reedição desses tempos holocáusticos que se julgavam enterrados e que a todos nos envergonham: ataques a habitações e centros de acolhimento de imigrantes, edificação de novos muros, comboios desviados para campos de refugiados, pessoas marcadas… Alguns dirigentes desses países chegam ao ponto de aceitar apenas os refugiados cristãos. E os argumentos são os mais variados: “nós temos muitos sem-abrigo e desempregados a quem devemos ajudar”, “são terroristas islâmicos”, “os países árabes ricos que os aceitem”, etc, etc, etc. Mas quem é que diz que não devemos resolver os problemas com os nossos pobres? Essa é a nossa vergonha interna. Mas quem é que diz que os novos ricos do Golfo não devem ser parte activa da solução? Identificar os refugiados como “terroristas islâmicos que se infiltram na Europa para nos destruírem com atentados bombistas” simboliza a subjugação ao medo. E neste momento vêm-me a memória as palavras do Mia Couto: “Há quem tenha medo que o medo acabe.” Ninguém garante que nestas vagas de refugiados não venha um ou outro actual, ex ou potencial terrorista. Mas o grosso foge precisamente desses bárbaros terroristas do auto-proclamado Estado Islâmico, do Al-Nursa (a Al-Qaeda 2:0). Os atentados realizados na Europa foram-no sobretudo por cidadãos europeus. Como dizia recentemente o general Loureiro dos Santos: “Quem faz terrorismo pelo Islão fá-lo onde está, não precisa de se deslocar”. A imensa maioria das vítimas destas bestas têm sido islâmicos, quer sejam sunitas, xiitas, drusos ou curdos.
À Europa terão chegado um milhão e meio de refugiados, a maioria sírios. Eles são apenas uma pequena percentagem dos quatro milhões que fugiram da guerra e (sobre)vivem agora nos países à volta da Síria. Sabem quantos estão nos vizinhos Líbano e Jordânia, pequenos países medianamente desenvolvidos e que já albergavam milhões de refugiados palestinos? O Líbano com uma população de pouco mais de 4 milhões, tem hoje 1,2 milhões de sírios de todas as origens, cristãos incluídos, totalizando cerca de 2 milhões de refugiados; a Jordânia com pouco mais de 6 milhões de habitantes, alberga mais de 600 mil sírios que se juntam aos 2 milhões de palestinos, aos mais de 1 milhão de iraquianos e centenas de milhares de sudaneses, eritreus, iemenitas e outros.
Desde tempos imemoriais, esta foi sempre uma região em constante convulsão, sem fronteiras, com permanentes reassentamentos populacionais. O domínio ocidental que se seguiu à queda do Império Turco Otomano no pós-I Guerra não fez mais do que, a exemplo do que acontecera em África após a Conferência de Berlim, rasgar o imenso território a régua e esquadro criando fronteiras e Estados artificiais que fizeram reacender e espalhar perigosamente conflitos seculares. À luta pelas fontes aquíferas seguiu-se a luta pelo “ouro negro”. O conflito israelo-palestiniano, o “Setembro negro”, a guerra civil libanesa, a questão curda, a guerra do Golfo, o reacender do conflito entre muçulmanos sunitas e xiitas no Iraque, no Iémene, países ingovernáveis como o Iraque, que é já um novo, rico e imenso “Estado falhado”. E o barril de pólvora estende-se ao Magrebe com a emergência de outro imenso e rico “Estado falhado”: a Líbia. E atenção ao Egipto!!! E hoje a região está a ferro e fogo, pondo em cheque toda a segurança mundial. A crise dos refugiados é apenas uma parte do problema.
Os portugueses são tradicionalmente solidários e acolhedores, com inúmeras provas dadas. Que o medo que falsos profetas da desgraça querem impor não os domine e que o espírito de Aristides de Sousa Mendes prevaleça.
Isto não é uma “guerra de civilizações”, mas alguém está apostado em que seja.

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