Uma destas manhãs

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Uma destas manhãs, enquanto tomava café – numa pastelaria – e trabalhava no meu novo romance, escutava uma conversa entre um homem e uma mulher. Não por coscuvilhice, mas por defeito de profissão: nós, escritores, temos esta coisa de estar atentos a tudo à nossa volta, porque tudo à nossa volta é matéria sobre a qual, potencialmente, se pode escrever. Escutava esta conversa, dizia eu, entre uma mulher e um homem: era o tema interessante?
Nem por isso.
Nem era uma conversa de namorados, casados ou amantes. E também não era uma conversa de amigos; não pareciam sê-lo. Era uma conversa de conhecidos, de quem se já conhecia há muito tempo e com quem, até, já se tivera alguma cumplicidade – como acontece com as amizades esquecidas de infância –, mas que só se encontravam de vez em quando e em resultado – quase sempre – do acaso. Falavam por isso – parecia-me – de trivialidades.
Todavia, qualquer coisa naquela conversa captava a minha atenção, atraía-me, envolvia-me e puxava-me para o seio dela, como se eu, ou uma parte de mim, lá pertencesse.
Numa primeira elação, achei que era porque falavam alentejano.
O Alentejo não tem uma língua própria; como é óbvio. Os alentejanos têm, contudo, um linguajar, um sotaque, uma gíria – os ditos regionalismos – e uma cadência mágica na forma como falam que envolve, embala e quase nos acarinha. É possível que mais ninguém veja isto desta forma, mas eu vejo; nem que seja tão-somente porque tenho raízes alentejanas, e até tenha passado uma parte da minha infância por lá, e grande parte do meu crescimento tenha sido feito sob a influência do Alentejo: férias e épocas festivas era por lá que as passava. Por isso, o facto de ouvir aquela cantilena, ali tão perto de mim, era, só por si, um motivo de atenção.
Ainda assim; havia mais qualquer coisa. Eram as trivialidades de que falavam…
Falavam do seu passado, dos seus pais, dos seus irmãos e irmãs, dos primos, das desavenças familiares, dos ciúmes entre irmãs e entre irmãos, dos favorecimentos dos pais perante alguns filhos, das terras de beltrano «…que era um laranjo», da vida boa que alguns «pantomineiros» levavam enquanto outros nada tinham…
Eram coisas boas?
Não. Havia ali muita amargura, muita resignação e falso conformismo – aquele que se diz ter, mas que por dentro nos vai queimando em lume brando; enfim: muita tristeza. Tanta que nem a cantilena nutridora que nos abraça e embala conseguia disfarçar.
E, então, seria isso?
Não. Não era o tema da conversa, em si, que me ia envolvendo – até poderiam estar a falar de futebol; era a ambiência que aquelas duas pessoas haviam conseguido recriar numa pastelaria silenciosa …
No seu linguajar, e forma simples de ser e estar, aqueles dois desconhecidos trouxeram até mim os sons da minha infância; ecos esquecidos dos tempos bons que tive, junto dos meus avós – entretanto falecidos; aromas e sons de momentos e pessoas que deixaram umas saudades inexpressáveis… Daquelas que só os sons e os aromas conseguem despoletar de forma catártica e incontrolável.
Há sempre momentos assim, algures, à nossa espera…

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