Considerações à volta de um sobreiral

0
31
visualizações

Um sobreiral à antiga, até onde a vista alcança. Sobreiras imponentes, ramudas, frondosas, filhas de glandes dispersas por acaso, monumentos de idade provecta entremeados com árvores mais novas e igualmente espontâneas. Reparo no número zero, pintado nos troncos, a assinalar a última tirada – 2010. E noto marcas de gatunagem nas tiras descortiçadas a esmo, o que se vai vendo pelos sobrais.
Erva viçosa à altura de meio homem. Seara garantidamente biológica. Forragem para encher celeiros, se alguém a dignar colher. Panascos, centeeiras, malmequeres diversos, saramagos, tremocilhos, papoilas, serralhas, trevos, ervas-agulhas, ervilhacas, malvas, serradelas, ervas-brancas e outras que conheço desde criança, mas de que não sei nome. A terra, mãe ciosa, é capaz de guardar no seu ventre, anos a fio, as sementes que germinarão nas condições climatéricas propícias. Quando o março é marçagão e o abril de águas mil, a vegetação irrompe e medra, exuberante, pelos campos. E onde há fartura de alimento, a vida, na sua diversidade, manifesta-se e prospera.
Grandes manchas de amarelo, branco, rosa, vermelho, azul, roxo, num mar de verde que se não via há uma remessa de anos. Um deslumbramento de cor, num jardim que a brisa, rendida a tamanha beleza, ondula suavemente. Para lá do prado, sobressaem as imaculadas flores das estevas e as prendas odorosas dos rosmaninhos. A Natureza pôs a mesa: um banquete de pólen, de folhas e de sementes, no qual a bicharada tira a barriga das misérias do inverno. Um exército de carochas, blindados minúsculos, avança por todo o lado, na azáfama da colheita. Dúzias de borboletas brancas voam em ondulações caprichosas sobre o manto vegetal, detendo-se aqui e além. Abelhões saltitam de flor em flor. Não vejo abelhas. O que lhes terá acontecido?
Tenteando forças e regulando respirações, interrompo a corrida e sigo a passo pelo caminho outrora percorrido por carroças. E extasio-me com o que vejo e oiço. Estendidas em renques rasteiros à beira do aceiro, as ervas-brancas, o olho negro e vivo a sobressair nos malmequeres amarelos, olham-me como espetadoras curiosas e desabituadas de ver gente. Por detrás delas, altas e vergadas ao peso das sementes túmidas, as centeeiras parece que me acenam. Na tranquilidade da charneca, as ramagens ramalham saudades de sons de outros tempos: o balir dos cordeirinhos, o assobio do pastor e o ladrar do cão a dar a volta às ovelhas tresmalhadas; as falas das mulheres que tiravam a jorna na apanha das bolotas para a engorda de porcos. Trinam melros, tentilhões, pintassilgos, verdelhões, chapins. Pardais gorjeiam em revoadas frenéticas. Rolas arrulham docemente. Grasnam charnecos. Esmeram-se nas melodias, gratos aos dias felizes. Depois mergulham no celeiro a céu aberto, alimentam-se, levantam voo com provisões no bico e desaparecem na espessura do arvoredo e dos matos, a alimentar a prole. Neste quadro idílico, desencanto meu, não oiço nem vejo milheirinhas. E estranho, porque sei, de experiência juvenil, que onde há saramagos há milheirinhas. Porque não dão sinal de vida?
Chego às Casas Amarelas, que batizaram o local, agora um monte de ruínas sitiadas e invadidas por fera vegetação. O carro está próximo. O corpo protesta fadiga e dores. Mas a alma, essa, está plena. Ou quase.

- Pub -

Queremos a sua opinião!