Haverá algo verdadeiramente aleatório?

0
56
visualizações

Existe uma probabilidade de 1 em 90 de o leitor morrer num acidente de carro, 1 em 250 de ser vítima de um incêndio, 1 em 60000 de ser ceifado por um tornado e 1 em 135000 de ser atingido fatalmente por um relâmpago. Mais avassalador ainda é a probabilidade de ser atingido por um meteorito que é cerca de 1 em 1600000.
Logicamente, todos estes números representam estimativas e não regras incontestáveis. É mais que evidente que estando o leitor num deserto longínquo e despovoado que a probabilidade de ser mortalmente atropelado por um carro decai para valores nulos. Contudo, nunca estaria isento da probabilidade de ser atingido por um meteorito.

- Pub -

Podemos considerar absolutamente imprevisível o resultado do sorteio do Euromilhões, sendo que o leitor, sempre que joga, aposta contra uma chance de 1 em 139838160 de alcançar o primeiro prémio. Porém, podemos pensar que todas as probabilidades figuram não mais que o nosso elementar desconhecimento do Universo. Se conseguíssemos saber com toda a exatidão a posição das bolas na altura do sorteio, bem como todas as diferenças microscópicas entre as suas partículas, as mais pequenas variedades nos seus pesos e o exato instante em que se iria abrir a cancela para cada bola, então conseguiríamos saber qualquer chave do Euromilhões que fosse sair. Sempre! Como o problema é demasiado complexo para ser analisado, ninguém consegue prever de antemão a chave do Euromilhões. Mas nada garante que seja impossível. No fundo, o sorteio resume-se a sucessivas colisões entre todas as bolas e já sabemos analisar e prever o resultado de colisões de bolas desde o séc. XVIII com Newton.
A Universidade de Harvard construiu um braço mecânico que conseguia a proeza de lançar, sucessivamente, uma moeda ao ar sempre com a mesma face. Os engenheiros por detrás desta obra conseguiram mostrar que o lançamento de uma moeda só aparenta ser aleatório quando o é feito por uma pessoa, pois quando são reproduzidas mecanicamente as mesmas condições, o mesmo resultado é sempre obtido.

Se for verdade que quanto maior o nosso conhecimento sobre qualquer sistema, menos aleatórios serão os seus eventos, levanta certos tormentos morais, nomeadamente o desvanecimento do nosso livre-arbítrio. No dia em que soubermos tudo sobre o Universo e não haja uma única pedra por revirar significa que vamos poder olhar para o bater de asas de uma borboleta e conseguir deduzir daí todas as colisões entre partículas subatómicas que deram origem a esse evento desde o início do Universo. Porque tudo se resume a colisões, de uma maneira ou de outra, todos os grandes eventos da história da nossa Humanidade, desde a construção das Grandes Pirâmides do Egipto às Grandes Guerras, não seriam mais do que as causas de bem determinadas colisões sem que nenhum ser humano pudesse ter tido a liberdade de os influenciar. E nada no futuro poderia ser alterado sendo que será igualmente o produto de certas colisões, também estas dedutíveis pelo simples bater de asas de uma borboleta.

Com ou sem livre-arbítrio, o físico alemão Werner Heisenberg formulou, em 1927, o seu Princípio da Incerteza, uma propriedade fundamental dos sistemas quânticos que dita que um observador nunca conseguirá saber com certeza todas as propriedades de uma partícula subatómica. Este físico alemão descobriu as regras do jogo que o Universo pratica para permanecer misterioso e incógnito aos mais expeditos olhos que o tentem desvendar. Talvez ainda tenhamos que aprender melhor as regras para conseguirmos vencê-lo no seu próprio jogo, mas enquanto tivermos toda a certeza sobre o Princípio da Incerteza, o nosso livre-arbítrio permanecerá intacto. Continuaremos a enfrentar cada dia sem conhecer o seu desfecho, ou chave do Euromilhões e sairemos de casa, cada dia, rogando que não seja o dia em que a probabilidade de sermos atingidos por um meteorito se concretize.

Comentários

- Pub -