Tutela vai construir unidade de saúde familiar no hospital do Montijo

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Medida divide autarcas. Presidente da Câmara diz que integração de cuidados primários e cuidados hospitalares é o caminho do SNS no futuro.
E sublinha que a nova unidade visa resolver problema de utentes sem médico de família. Vereadores da oposição falam de “desmembramento” do hospital e de “tentativa de vender gato por lebre à população”.

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A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) vai criar uma Unidade de Saúde Familiar (cuidados primários de saúde) no edifício onde antigamente funcionava o serviço de medicina interna (cuidados de saúde hospitalares) no Hospital Distrital do Montijo.

Para o efeito, vai ser assinado, na próxima sexta-feira, pelas 15h00, um protocolo entre a ARSLVT, a Santa Casa da Misericórdia do Montijo (entidade que é proprietária do espaço) e a administração do Centro Hospitalar Barreiro Montijo (CHBM). A cerimónia terá lugar nas instalações da Santa Casa do Montijo.

A cedência do espaço por parte da Misericórdia à ARSLVT para a criação da unidade de saúde familiar está, porém, longe de ser consensual.

“Esta situação representa um desmembramento do Hospital do Montijo. Passa a ideia de que o hospital está cada vez mais a morrer”, afirmou João Afonso ao DIÁRIO DA REGIÃO, na qualidade de vereador da Câmara Municipal do Montijo. O autarca, eleito pela coligação PSD/CDS, que também preside à Assembleia Geral da Misericórdia do Montijo, considera que “está em curso um processo que visa passar todos os serviços da área hospitalar para o Barreiro”, apesar de “ninguém o assumir”.

O vereador admite ainda que “a unidade de saúde familiar é necessária”, mas “não à custa do Hospital do Montijo”. E defende outra solução: “A Câmara Municipal poderia ceder um terreno para construção desta unidade de saúde familiar.”

Fonte ligada à unidade hospitalar do Montijo faz leitura idêntica e reforça que, de futuro, “o Montijo poderá ficar reduzido apenas ao serviço de urgência básica e à unidade de saúde familiar”, o que “poderá significar o fim da unidade montijense do CHBM”.

Já Carlos Jorge de Almeida, vereador eleito pela CDU, defende que a criação da unidade de saúde familiar no hospital não é mais do que “tentar vender gato por lebre à população”.

“O que o concelho do Montijo precisa é de ter um hospital capaz, devidamente equipado, que possa servir não só a população montijense como também as populações de concelhos vizinhos. Já devíamos era estar a falar na construção de um novo hospital”, disse o vereador ao DIÁRIO DA REGIÃO, vincando a concluir: “Isto é o adiar, mais uma vez, de uma situação inadiável, que é a inevitabilidade da construção de um novo hospital no Montijo.”

Presidente da Câmara refuta eventuais perdas na área hospitalar e aponta
vantagens

Opinião diferente tem o presidente da Câmara Municipal, Nuno Canta, que refuta um cenário de eventuais perdas de serviços hospitalares no Montijo ao mesmo tempo que aponta as vantagens de criação da unidade de saúde familiar.

“A constituição de uma nova unidade de saúde familiar, leia-se novo centro de saúde, pretende resolver o problema do elevado número de famílias montijenses sem médico de família. Esta integração de um centro de saúde no hospital verticaliza os cuidados de saúde e ao mesmo tempo faz um aproveitamento de alas do hospital completamente desocupadas”, resumiu o socialista ao DIÁRIO DA REGIÃO, considerando que essa verticalização dos cuidados de saúde, primários e hospitalares, “é uma reforma importante, que permite utilizar melhor os equipamentos de saúde”.

Nuno Canta defende assim a criação da unidade de saúde familiar no hospital e aponta até um exemplo.

“Uma pessoa que vá ter consulta no centro de saúde, se tiver necessidade de fazer também imagiologia ou até diagnósticos complementares, poderá imediatamente utilizar os serviços do hospital para o efeito. Há aqui um benefício claro para os montijenses”, salientou, acrescentando: “Tem sido através da integração dos cuidados primários de saúde e dos cuidados hospitalares que se tem vindo a caminhar em países europeus onde a saúde funciona de forma pública. Este é quase um dos primeiros passos no [nosso] País em que se faz esta integração. Este vai ser o caminho que o Serviço Nacional de Saúde [SNS] vai desenvolver no País para resolver os problemas.”

O presidente da autarquia lembrou ainda que a criação da unidade de saúde familiar no hospital é “uma ambição antiga”. “Nossa, dos montijenses, podemos mesmo dizer assim, porque tem a ver com a necessidade de colmatar o grande problema da falta de centro de saúde no Montijo, cidade”, justifica, reforçando de seguida: “Já há algum tempo que a Câmara Municipal vem a insistir neste reforço. E foi amplamente apresentado por nós na última campanha eleitoral autárquica. Toda esta visão que temos para reforço do SNS no Montijo está expressa também numa declaração apresentada em reunião de câmara de 23 de Novembro de 2016, onde está escrito de forma clara a instalação de uma unidade de saúde familiar nas alas desocupadas do hospital do Montijo.”

A terminar, o edil é peremptório: “Ao contrário daquilo que muitos pensam, o hospital do Montijo tem ganho valências nos últimos anos e a integração dos cuidados primários com os cuidados hospitalares irá certamente reforçar o hospital do Montijo, criando um parque de saúde e por essa via facilitar a vida dos utentes do SNS”.

O DIÁRIO DA REGIÃO enviou um conjunto de questões quer à ARSLVT quer à administração do CHBM, mas até ao fecho desta edição não foi possível obter respostas aos esclarecimentos solicitados.

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