Um desafio destes (próximos) tempos…

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No passado fim-de-semana foi tornado público o mais recente Barómetro dos Internamentos Sociais (BIS) promovido pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH).
Um estudo que trouxe à luz do dia uma realidade muito preocupante a diversos níveis, e que é bem conhecida e vivida diariamente pelos profissionais de saúde e na generalidade dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Diz aquele estudo que, já em pleno mês de fevereiro deste ano, se encontravam cerca de 1000 pessoas internadas que não só não precisavam de o estar, como sobretudo não o deviam estar. Tratam-se de pessoas já com alta clínica e que só permaneciam em situação de internamento hospitalar ou porque as famílias não as iam buscar ou porque a rede de cuidados continuados integrados tem ainda uma enorme incapacidade de resposta para as necessidades existentes.
Trata-se de um problema grave destes nossos tempos, para que urge encontrar respostas estruturais urgentes, sob pena do seu agravamento e de se vir a tornar no futuro um problema social (mas também económico e financeiro) insustentável.
Porque, de acordo com o referido estudo, só o impacto financeiro anual estimado para os hospitais destas situações ascende já neste momento aos 100 Milhões de Euros!
Mas há outros impactos… Cada situação destas em que uma pessoa que já teve alta clínica ocupa uma cama de internamento sem que o seu estado de saúde o justifique já, contribui para o crescente fenómeno de saturação ao nível dos internamentos hospitalares, em especial em momentos de maior procura como ainda recentemente aconteceu com o surto de gripe, que tem depois tradução naquelas angustiantes imagens de pessoas a aguardar a disponibilidade de camas em macas, mas também na saturação das próprias urgências… E a resposta não poderá só passar pelo aumento progressivo e sem fim da oferta de camas hospitalares, ainda para mais para a prestação de cuidados que carecem de outras respostas que não a hospitalar.
Mas há sobretudo os impactos sociais destas situações. Numa das notícias publicadas sobre o referido estudo, o presidente da APAH, Alexandre Lourenço, recordava com a maior oportunidade que “A cada dia que estão internados, principalmente os idosos, perdem capacidade. Um dia de internamento nestes casos corresponde a um mês de fisioterapia de recuperação. Estamos a falar de pessoas que estão, em média, 67 dias internadas. Provavelmente muitas nunca vão recuperar a sua funcionalidade”. Uma constatação que só nos pode angustiar!
Ainda mais, quando constatamos que se trata de um problema que se tem vindo a agravar, pois basta recordar que a evolução da taxa destes internamentos sociais relativamente a toda a capacidade de internamento do SNS passou dos 4,9% em outubro do ano passado para os 6% no dia de referência deste estudo! E este é um fenómeno social que irá continuar se, perante a evolução demográfica anunciada (e já em curso!), não forem com a maior urgência procuradas e colocadas em causa as respostas necessárias!
Porque felizmente a esperança de vida não para de aumentar, resultado dos avanços tecnológicos e científicos que têm surgido de um cada vez maior investimento e uma cada vez maior aposta à escala global na investigação científica e médica e na inovação terapêutica.
Mas esse aumento da esperança de vida, sendo extraordinário em si, traz consigo outros desafios que as sociedades não podem ignorar ou desprezar.
Desde logo o aumento dos inevitáveis custos em saúde inerentes a uma vida mais longa, mas sobretudo os decorrentes do para já incontornável aumento da prevalência das demências e doenças degenerativas do sistema nervoso, como são o caso da Doença de Alzheimer ou a Doença de Parkinson, entre muitas outras… Situações que necessitam de novas respostas e em cada vez maior disponibilidade de camas, não apenas ao nível do internamento hospitalar para os episódios de crises agudas, mas também de respostas permanentes ao nível da rede de cuidados continuados integrados.
E esse será um dos maiores desafios destes próximos tempos… Encontrar essas respostas a um nível adequado, nível adequado esse que irá evoluir nos próximos anos à medida que também a esperança de vida e o envelhecimento populacional for progredindo conforme é apontado por todos os estudos demográficos conhecidos. E essas respostas terão de ser garantidas a todos os cidadãos, independentemente da sua situação socioeconómica e, por isso, passar em larga medida pelos setores público, social e solidário!
E isso exige que este seja considerado um dos desígnios estratégicos do País para os próximos anos! E consequentemente passar também pela assunção de que os recursos financeiros públicos a afetar à Saúde e às Políticas Sociais terá de ser cada vez maior, num enquadramento demográfico em que o número de cidadãos ativos não para de diminuir e o de cidadãos beneficiários não cessa de crescer. Uma verdadeira “quadratura do círculo”, em que no entanto uma coisa me parece certa: a continuação do caminho prosseguido até aqui de crónico subfinanciamento do setor da Saúde, com o permanente engrossar da dívida do Serviço Nacional de Saúde, neste enquadramento, será um caminho para o desastre social!
Mas, também por tudo isto, há uma outra dimensão no olhar para esta realidade que não pode ser descurada e que tem também de rapidamente ser objeto da devida atenção: a importância do papel da família e a necessidade de serem encontradas formas que permitam esse reforço e que esta possa ser uma real alternativa de resposta para as famílias que, podendo, o queiram fazer!
A definição de um Estatuto do Cuidador Informal é uma urgência não de hoje, mas de ontem! E ainda mais de amanhã! E, a cada dia que passa, cada vez mais…

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