PEDRO DOMINGUINHOS “Precisamos de um pacto territorial contra o insucesso escolar até 2030”

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Reeleito para um novo mandato de quatro anos na presidência do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), Pedro Dominguinhos, 46 anos, doutorado em gestão, faz uma “radiografia” à educação na região, que continua a  apresentar das mais elevadas taxas de abandono e insucesso escolar

 

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Pedro Dominguinhos diz que o IPS está preparado para o novo desafio colocado pela legislação recentemente aprovada pelo Governo, ao abrigo de uma recomendação da OCDE, que possibilita a estas instituições a atribuição do grau de doutoramento. As alterações no sistema de quotas de vagas para o ensino superior é outra das novidades e poderá ter algum impacto na actual situação que define como “drenagem de cérebros do interior para o litoral”.
O presidente do IPS mostra-se ainda optimista quanto ao incremento da actividade económica, apesar de avisar que a região é de “risco”, considerando que existem condições competitivas para a expansão do investimento directo estrangeiro.
Ideias fortes passadas em torno das questões do desenvolvimento económico e social do distrito, com este alentejano de Chança, Alter do Chão, amante da literatura de Jorge Luís Borges, José Luís Peixoto ou Pepetela.

 

Qual tem sido a grande dificuldade com que se tem deparado ao longo destes últimos quatro anos na presidência do Instituto Politécnico de Setúbal?
Há um desafio que é a compatibilização entre o meu lema de candidatura que é a coesão interna e ser parceiro na região. Até 2015 vivemos um processo significativo de redução do número de alunos no ensino superior, fruto da crise económica e também de uma certa ideia que se criou na sociedade portuguesa, a de que estudar no ensino superior não compensa. Foi um processo complexo que felizmente se alterou. Já tinha sido vice-presidente do IPS, mas na minha chegada à presidência tive essa preocupação muito forte de conseguir aumentar o número de estudantes no ensino politécnico de Setúbal. Nesses quatro anos, passámos de cinco mil [estudantes] para seis mil.
Ao mesmo tempo, afirmar o Politécnico do ponto de vista internacional. Este desafio obteve, portanto, estes resultados, de compatibilizar a vertente interna crucial para podermos alavancar em termos de competências, projectos, a vertente externa. Neste momento gerimos cerca de 25 projectos nacionais e internacionais, cerca de 20 milhões de euros, lideramos um projecto “H20/20” na área da energia, somos parceiros noutro “H20/20” noutra área, já desenvolvemos uma centena de projectos Erasmus KA2 e outros 15 “H20/20”. Ao mesmo tempo, através de várias iniciativas conseguimos ter uma intervenção cívica, cultural e social na região com projectos de responsabilidade social envolvendo os estudantes.

 

Mas há mais exemplos a destacar…
… A aposta no projecto “Desenvolver Mais” dirigido ao bem-estar, das qualificações, da competência, da formação, dos trabalhadores na vida da instituição e que recentemente foi considerado uma boa prática pelo Instituto Nacional para a Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas a nível nacional. Houve também um investimento significativo nas condições ergonómicas dos trabalhadores e um fortíssimo investimento nos equipamentos e edifícios pedagógicos, laboratórios mais equipados, novas experiências, novas tecnologias.
Somos parceiros da Câmara de Setúbal na iniciativa “Nosso Bairro, Nossa Cidade”, nas áreas da saúde e educação. Essa parceria existe também no Moinho de Maré da Mourisca e estende-se também às actividades nas Ruínas de Troia.

 

E quais os desafios para este novo mandato?
Uma aposta muito mais clara e muito intensiva ao nível da investigação, até por força da recente legislação que está em discussão pública e que deverá ser concretizada. O Politécnico de Setúbal tem agora seis centros de investigação, que no futuro vão alicerçar as actividades de investigação. Isto é relevante porque a investigação é o coração de uma instituição do ensino superior e parte integrante da avaliação e acreditação dos cursos. Esses projectos são feitos em parceria com instituições do território e, portanto, essa alavancagem em termos de investigação e com a legislação em vigor são cruciais para que os politécnicos possam outorgar doutoramentos. Não vai ser dentro de um ano, porque a legislação precisa de ser mudada, mas permite uma sustentação durante os próximos três ou quatro anos para preparar aquilo que são as actividades de investigação.

 

Os politécnicos estão preparados para esse passo, de concessão de doutoramentos?
Sem dúvida alguma! Esta medida surge na sequência de uma recomendação do relatório da OCDE, após visita de peritos da OCDE a instituições do território, politécnicos, públicas e privadas. Reconheceram que a maturidade, a qualidade e a investigação dos politécnicos dá as garantias para que possam outorgar o grau de doutor. Mas os doutoramentos só são fundamentais para aprofundar a missão do ensino politécnico, já que o sistema binário em Portugal (universitário e politécnico) tem funções distintas. Não são fundamentais para fazer igual às universidades, mas para densificar a estratégia de actuação dos politécnicos nos territórios, investigação aplicada, mais profissionalizante e de desenvolvimento experimental e tecnológico. É preciso também formar doutores não só para o sistema público, mas para as empresas como refere o relatório da OCDE.

 

Discute-se também a tentativa de combater a desertificação do interior com quotas para o ensino superior.
O Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos considera que esta medida tem que ser complementada com outras para termos um país mais coeso. Nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, estão concentrados 54% de todos os estudantes do ensino superior. Nos outros países europeus, esse número não ultrapassa os 23%.
95% dos que terminam os cursos em Lisboa, continuam a estudar nas instituições de Lisboa; no Alentejo Litoral, metade abandonam a região e vão para Lisboa. Neste momento temos um problema sério de “drenagem de cérebros” das regiões do interior para Lisboa e para o Porto. É um problema seríssimo.
Vamos propor em breve ao ministro do Ensino Superior que não haja apenas uma redução de vagas de 5%, porque se isto acontecer, a maior parte vai para o litoral. Achamos que deve haver uma manutenção em áreas estratégicas como medicina, tecnologias, física, no litoral, mas concentrar verdadeiramente o aumento de vagas no interior. Se das 1800 vagas que estamos a falar, metade forem para o interior significa um impacto significativo, como por exemplo para politécnicos que têm três mil alunos.

 

Setúbal aparece como um dos distritos com maior insucesso e abandono escolar. Temos que encarar o problema como um desígnio na região?
Existe uma diversidade social, económica e cultural muito significativa que não existe em mais nenhum distrito do país. O que é necessário é um Pacto Territorial para eleger a promoção do sucesso escolar como um desígnio até 2030. Nesse Pacto Territorial no distrito de Setúbal temos vários projectos no terreno, que são financiados pelo Lisboa 20/20 e que desenvolvidos no futuro poderão ter muito melhores resultados. A região não pode continuar com estes dados (insucesso escolar) quando comparada com outras a nível nacional. Isto ultrapassa ciclos políticos locais, nacionais.
Há um outro aspecto que tenho notado: as expectativas que as famílias têm para o futuro dos alunos vão até ao 12.º ano porque é a escolaridade obrigatória, não vão mais além, o que significa que temos que fazer ver ás famílias que estudar compensa. Não é admissível que 85% dos estudantes com o 12.º ano da via científico-humanísticas prossigam os estudos para o ensino superior e que apenas 15%, com o ensino profissional prossigam os estudos para o superior. Como também estarmos a falar do facto de 55% dos alunos do ensino superior serem do científico-humanístico e os restantes da área profissional.

 

Mas esse quadro é estrutural ou está também relacionado com as crises económicas e sociais das últimas três décadas que atingem o distrito de Setúbal?
Tem havido uma diminuição do abandono e do insucesso escolar nos últimos anos, mas Setúbal, porque é um distrito muito diversificado, tem aqui desafios adicionais, como por exemplo a questão da multiculturalidade. Como é que a trabalhamos nas nossas escolas? Há um desafio de desenvolver escolas mais inclusivas. Um estudo do ISCTE muito recente demonstra que os filhos de segunda ou terceira geração de imigrantes são aqueles em que o sucesso académico é mais reduzido. Os autores do estudo apontam quase para um certo “racismo organizacional”, porque as escolhas que são feitas implicam que sejam guiados para escolhas menos atractivas e menos sucesso profissional. Quando foi a crise, diminuímos de seis para cinco mil alunos (no Politécnico de Setúbal), porque somos muito vulneráveis à atracção e à deslocalização do investimento directo estrangeiro e essa recuperação económica tem muito a ver com uma maior capacidade de atrair os quadros que retomam os estudos. Temos cerca de 30% de trabalhadores-estudantes provenientes de empresas localizadas na região.

 

O distrito nos últimos 30 anos perdeu a sua antiga vocação na área da indústria pesada, como a CUF/Quimigal, metalomecânica, entre outros. O futuro passa por uma reconversão e aposta nas novas tecnologias e expansão da actividade económica noutros sectores?
Essa reconversão tem existido, temos empresas que estão no “top 5” mundial nos seus sectores. Lisnave, embora tenha um décimo do número de empregados que já teve, mas com um volume de negócios muito mais elevado, e também outros exemplos no sector aeronáutico. Temos empresas na Península de Setúbal que competem a nível internacional… O que o ensino superior no distrito tem vindo a fazer nos últimos anos é: ser capaz de responder às necessidades de formação de recursos humanos destas empresas. Estão a ser instalados novos centros tecnológicos porque há recursos humanos qualificados a diferentes níveis. Também se estão a desenvolver projectos em concreto de forte desenvolvimento. O lema da minha candidatura “Criar Valor para a Região”, além de ser um Politécnico coeso, é desafiar as empresas e os docentes a podermos ter projectos em parceria que acrescentem valor e que tenham a capacidade de fixar mais emprego e investimento na região.

 

O futuro da região continuará a ser industrial, mesmo com uma expansão muito grande do turismo nos últimos anos?
Os números não nos dizem isso. O que Setúbal tem de diferente de todos os outros distritos é uma grande dependência das grandes empresas. Praticamente todos os concelhos dependem entre dois terços a três quartos dessas quatro ou cinco empresas. Há uma margem diversificada muito forte, mas as grandes empresas em termos de volume de negócios têm um papel decisivo na estrutura económica dos territórios e aí há o risco envolvido. O desafio do distrito é o de como se conseguirá alargar a base económica para mais pequenas e médias empresas no sentido de torná-las mais competitivas, aumentar a sua visibilidade externa. Algumas já conseguiram fazer isso. O distrito tem é este risco, quando negociamos determinados benefícios, contratação colectiva, etc. Numa altura de eventual abrandamento económico, e isso verificou-se com a crise, o distrito de Setúbal foi dos que mais decresceram em termos de emprego, mas também agora é dos que estão a crescer mais. Há um efeito harmónio, dessa dependência. Alargar a base de PME’s e internacionalizá-las é uma aposta muito premente que envolve instituições de ensino superior, municípios. Setúbal tem um contexto muito mais atractivo do que Lisboa para fazer negócios, em termos de custo de renda, de mão de obra e isso pode ser uma estratégia de atracção de investimento directo estrangeiro.

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