Uma entrevista exemplar

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Há um mês, ao jornal O Setubalense, a presidente da Câmara de Setúbal, Maria das Dores Meira (MDM), deu uma entrevista exemplar: positiva e negativamente.

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Caro leitor, vou falar da entrevista por ser exemplar (positiva e negativamente), pois segue o velho padrão da nossa política (critica-se muito os outros, fala-se menos do que se vai fazer). É este padrão que analiso nesta reflexão sobre a nossa realidade autárquica, que tantas vezes fica muito aquém da que desejamos.

Nas entrevistas, em especial em início de mandato, espera-se que os autarcas falem mais do futuro e do presente do que do passado. Do futuro, explicando os planos estratégicos para os concelhos. Do presente, falando das acções imediatas e das seguintes para melhorar a vida dos munícipes. O passado, se há continuidade partidária, é esquecido, até se os anteriores correligionários não deixaram obra (e, às vezes, deixaram dívida); mas se houve mudança partidária, normalmente alimenta-se uma novela sem fim, atribui-se todas as culpas pelas dificuldades presentes à (sempre) «pesada herança» dos antecessores (mesmo que se esteja a aumentar a dívida para os sucessores pagarem).

Aspectos negativos. Esclareço, desde já, que não sou advogado da gestão PS (1985-2001) nem submisso a interesses partidários e não conheço, pessoalmente, os autarcas de então.

MDM zurziu a gestão anterior do PS e centrou a crítica em dois eixos: a obra, ou nada fizeram ou fizeram mal (refere-o 5 vezes); a colossal dívida deixada (mas, 16 anos depois, não sabe o valor exacto). Sobre o «nada fizeram», acusação simplista, lembro o seguinte:

─ O Parque de Vanicelos é o segundo pulmão da cidade, tão importante como o do Bonfim ou o da Várzea (em obra);

─ A Estrada da Várzea deu jeito a MDM para fazer as inúmeras rotundas que a tornaram funcional;

─ Para a ETAR da Cachofarra irá MDM enviar, com as obras em curso, 15% de efluentes que vão directos para o rio;

─ Os viadutos do Quebedo e Fontainhas eliminaram as cancelas na linha do comboio e deram fluidez ao trânsito na cidade.

─ A intervenção de emergência na rede viária da cidade, logo após a posse, que, por estar intransitável, terá sido o principal motivo da derrota da CDU em 1985.

Em resumo: há coisas «más» que dão jeito. É tão errado MDM criticar o que se fez como a oposição hoje dizer que ela só faz obras de fachada.

Sobre a «dívida herdada», refere números tão díspares que se fica sem saber o valor exacto (ora fala em euros, ora em contos, ora são 67 milhões de euros, ora 47, os prazos são outra confusão e fala ainda em 30 milhões de contos (150 milhões de euros). Passados 16 anos, ou diz o valor exacto da dívida ou deixa de falar dela. Com a câmara falida e resgatada em 2003, porquê, logo a seguir, comprar dois mamarrachos esteticamente deploráveis? A Estátua(?) da Liberdade (Av. Luísa Tody); o Pórtico (Largo José Afonso), que emparedou os velhos cedros, o que restava do outrora oásis de 1870: o Passeio do Lago.

 

Aspectos positivos. Apesar do muito que já fez, em especial desde 2013 (espaço público e mobilidade; frente ribeirinha; recuperação de equipamentos; dinamização cultural; intervenção social, etc.), MDM falou pouco dos projectos estruturantes que romperão, de vez, com o marasmo de 4 décadas: promoção externa e investimento (poucos dias depois até foi a S. Paulo-Brasil), mobilidade e intermodalidade; frente ribeirinha; retenção das cheias; recuperação do património histórico; intervenção nos bairros sociais, etc. Com tanto trabalho positivo realizado e projectado, é tempo de acabar com o velho padrão de denegrir os outros para se afirmar.

Daniel Ziblatt, polítólogo e académico de Harvard, diz-nos que «as democracias morrem através da polarização, quando os dois lados olham um para o outro como inimigos». Na nossa História, o radicalismo e a luta política acirrada na I República (45 governos em 16 anos) devia fazer-nos reflectir.

Jean Jaurès, grande socialista humanista, pacifista, assassinado por um nacionalista radical, dizia: «para se atingir o ideal é necessário compreender o real». O nosso real é que os eleitores se desinteressaram deste padrão anacrónico, como prova a altíssima abstenção nas eleições autárquicas.

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