“Um D. João português” chega ao teatro de Almada e esta pode ser a última representação

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Quando “Um D. João português” subir ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, este domingo, pode bem ser a última oportunidade para o público ver esta encenação de Luís Miguel Cintra, depois do fecho da Cornucópia.

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Às apresentações parciais da peça iniciadas no Montijo – a 29 de abril de 2017 -, a que se seguiram Setúbal, Viseu e Guimarães, sucedeu-se a representação de toda a peça nas mesmas cidades, mas pela ordem inversa. Hoje, o encenador sobe ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, naquela que poderá ser, para já, a última apresentação da mais recente encenação do homem que esteve à frente do Teatro da Cornucópia, durante 43 anos.

E isto porque, até ao momento, o diretor do Teatro Municipal de Almada foi o único a contactar a produção da peça para a apresentar na cidade, explicaram à Lusa Luís Miguel Cintra e Levi Martins, responsável pela produção.

Quando decidiu fazer este trabalho, depois do fecho da Cornucópia, em dezembro de 2016, a produção do espetáculo decidiu que não contactaria nenhum programador com o intuito de promover o espetáculo.

Os únicos contactos nesse sentido decorreram com responsáveis culturais das cidades onde a peça foi apresentada parcialmente e na totalidade, disse Levi Martins.

“Se as pessoas estivessem interessadas em programar o espetáculo, vinham ter connosco. Foi o caso do Rodrigo Francisco e da Companhia de Teatro de Almada”, indicou Levi Martins.

Por isso, o futuro desta peça é incerto. Porque “é muito difícil fazer isto [a peça] como ato isolado”, como disse Luís Miguel Cintra, em entrevista à Lusa.

“Estamos a falar não da parte de características dramatúrgicas do espetáculo, mas a falar de uma coisa muito concreta – como se as pessoas vêm, não vêm, que género de pessoas vêm – e isto é muito conforme os sítios que acolhem, porque o próprio edifício do teatro é fundamental”, sublinhou.

Assim como “é fundamental” a relação, a tradição, os hábitos que as pessoas, que os locais estabeleceram de ligação com esse sítio”, enfatizou Luís Miguel Cintra.

Daí que o encenador esteja com “muita curiosidade” sobre como o espetáculo vai ser acolhido em Almada (com representações hoje às 16:00).

“Porque aqui é o oposto. Parece que o teatro é mais do público do que das companhias”, observou o encenador, na entrevista realizada num dos camarins do Teatro Joaquim Benite.

”Sempre louvei muito isso, e julgo que a razão do sucesso do Festival de Almada é, de facto, a própria população de Almada acarinhar muito aquilo que é feito”, disse, sublinhando não ter visto em nenhum outro teatro português onde os atores se sintam como em Almada.

“Os espetadores estão sentados na plateia com uma vontade imensa de gostar, de aquilo ser suficientemente bom para eles poderem gostar. E, se não gostarem muito, iludem o facto porque é mais importante que o teatro continue a funcionar e que tenham na terra um teatro com esta dimensão”, acrescentou.

Além de que a sala daquele teatro “é ótima”, e “não tem problemas de acústica”, referiu.

O único problema daquela sala é ser pouco intimista, como para peças de Tchékov, observou.

Sobre a possibilidade de “Um D. João português” não vir a ser representando mais, Levi Martins invocou dois motivos.

Primeiro, porque tendo em conta as condições de produção atual, é “muito complicado conseguir conciliar as agendas e segurar 18/19 pessoas numa equipa”, disse. “Para isto continuar era necessário um financiamento que neste momento não existe”, frisou.

O outro motivo prende-se com o facto de terem decidido, desde o início, não se dirigirem aos programadores para oferecerem o espetáculo.

Luís Miguel Cintra vai, porém, mais longe.

“Na prática, o que senti falhar mais”, explicou o encenador, foi que, “como os diretores das salas de província já estão habituados a programar segundo jargões – por exemplo, a ‘Black box’, as ‘residências artísticas’, o ‘acolhimento’ (uma companhia de teatro chama-se ‘o acolhimento’…) -, qualquer coisa que não corresponda às características que já têm na cabeça (…) não [a] reconhecem e querem [torná-la] igual a essas categorias”, adiantou.

E esses jargões não são linguagem do teatro, prossegue Cintra. Trata-se de um vocabulário “que foi inventado pela burocracia e não pelas pessoas do teatro”, acrescentou.

Porém, afirma, é também esta tendência a pautar o comportamento do Estado, no apoio às artes performativas e ao teatro.

A tendência atual do apoio da parte do Estado ao teatro “aposta exatamente em tornar todas as salas em salas de acolhimento”. “E isto é uma ideia completamente teórica e má na prática, porque as pessoas acabam por não saber o que é a preparação de um espetáculo”, referiu.

“A parte humana, a generosidade, o desejo de ver um objeto artístico em que todos colaboram é fundamental na preparação de um espetáculo. Até porque isso depois passa para o público”, argumentou.

Luís Miguel Cintra disse ainda que, nos dias de hoje, se veem “muitos espetáculos frios ou tão esotéricos que não se percebe nada do que estão a fazer”. “E eu habituei-me a fazer uma coisa para umas pessoas que vão ver”, indicou.

Apesar da incógnita quanto ao futuro deste “Dom João português”, o encenador considerou ter valido a pena fazê-la. Porque “valeu sobretudo como exemplo”, à semelhança de quase tudo o que fez, ainda que o espetáculo não tenha sido visto por grandes responsáveis pela cultura.

Muitas das coisas “que em determinada altura se pensa que não têm eficácia, acabam por influenciar diretamente muita coisa; portanto, vale a pena trabalhar para o exemplo”, disse. Até porque tudo se resume na “atenção ao outro”, enfatizou.

“Se a gente considerasse que, se a vida que interessa é só a nossa, até entramos para o caixão, realmente ou era uma sociedade paradisíaca, parecida com o paraíso terrestre onde viveu Adão e Eva, ou então não valia a pena”, observou.

“Tudo se resume à atenção ao outro. É o problema da batalha do eu contra tudo o resto, e o que é engraçado é que a massificação devia destrruir os ‘eus’, mas não, torna-os profundamente monstruosos”, concluiu.

Lusa

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