O papel da imprensa local e regional

1
109
visualizações

Em Portugal, o discurso grandiloquente das entidades públicas sobre a imprensa local e regional contrasta com um vazio existencial de reconhecimento e consideração por estes órgãos de comunicação social.
Todavia, ainda recentemente, um estudo promovido pela Associação de Imprensa Não Diária referia que os jornais regionais passaram a ser mais lidos do que os diários nacionais em todos os distritos de Portugal, excluindo Lisboa e Porto.
E não se pense que a imprensa regional e local é, apenas, lida por gente pouco letrada. Segundo um relatório de Janeiro de 2017 da OBERCOM (Investigação e Saber em Comunicação) 31,6% dos leitores de jornais regionais impressos possuem bacharelato e 16,5% um grau de mestrado ou doutoramento.
Alguns autarcas e governantes nacionais, em linha com os periódicos catalogados de grande referência, minimizam, apoucam e desvalorizam o papel da imprensa local e regional.
O distrito de Setúbal contar hoje com um diário regional e impresso é um “luxo”, que devia orgulhar todos aqueles que exercem funções públicas regionais e locais. Afinal são muito poucos os distritos com diários regionais no país, o equivalente a menos de 20 títulos em todo o território nacional (2,5% da imprensa regional).
Muitos autarcas desvalorizam a imprensa local e regional e têm vindo a apostar nos boletins municipais, esquecendo que a credibilidade da mensagem é muito mais conseguida em órgãos independentes do que nos veículos oficiais.
Alguns autarcas tentam condicionar a liberdade de expressão, confundindo liberdade e pluralismo com autoritarismo e ditadura democrática, mas os jornalistas e directores tudo devem fazer para estabelecer um equilíbrio entre o exercício livre do jornalismo e a necessidade de garantir a sustentabilidade financeira. Os poderes públicos, se fossem mais informados e inteligentes, seriam os primeiros a tudo fazer para garantir a sustentabilidade financeira destes órgãos de comunicação.
Os jornais intitulados “de província” são fruto de um intenso trabalho e empenho de profissionais ou não apostados em fazer uma informação honesta, isenta e sem recurso à especulação e ao “politicamente correcto”.
Não obstante a aprovação em 1988 (decreto-lei 106/88 de 31 de Março) do Estatuto da Imprensa Regional, os poderes públicos continuam, no geral, a não dar à imprensa local e regional a relevância pública que merecem.
Não podemos esquecer que a asfixia da imprensa local e regional constitui uma ameaça para a democracia e um constrangimento à afirmação dos costumes, da cultura, dos valores e das tradições locais e regionais.
Nesse sentido, a Administração Central, as agências de comunicação, as centrais de compra, os tribunais, as finanças deviam canalizar muito mais os seus anúncios institucionais para a imprensa local e regional: Os jornais nacionais têm sido favorecidos em relação à imprensa regional, quando esta tem uma tiragem largamente superior àquela. Estudos continuados indicam que os índices de leitura da imprensa local e regional têm sido subavaliados, estimando-se que cerca de 50% da população tem por hábito ler este tipo de publicações.
Também as empresas deviam acarinhar muito mais a imprensa local e regional, na verdade é esta que gera emprego regional e local, dinamiza a economia e desempenha um papel relevante em termos sociais e culturais.
A diversificação das fontes de publicidade é determinante para a imprensa local e regional garantir uma maior independência editorial face, principalmente, aos poderes políticos.
Um povo só consegue lutar pelos seus direitos se os conhecer. E, neste momento, de crises, turbulência e mudança em todo o mundo, a necessidade de informação de qualidade nunca foi tão importante, daí a necessidade de um ambiente amigo para a liberdade de imprensa, bem como de sistemas que funcionem bem para garantir o direito de saber das pessoas.
Há 250 anos, a primeira legislação formal sobre o direito à informação foi promulgada, na região onde actualmente estão localizadas a Suécia e a Finlândia. Um avanço histórico naquela época, que serve de inspiração para, hoje, exigirmos uma comunicação livre e plural e uma imprensa local e regional com independência, liberdade e condições para exercer livremente o seu papel de informar.

- Pub -

1 COMENTÁRIO

  1. Perfeitamente de acordo.

    O jornal regional é visto muitas vezes como um produto inferior
    quando comparado com a imprensa de âmbito nacional, não sendo
    este juízo de valor derivado de uma observação da qualidade intrínseca
    do jornal regional mas antes de um preconceito ditado pela
    circunstância de aquele assumir uma dimensão circunscrita aos limites
    da sua região, distrito, concelho ou freguesia.

    O Estado organiza um sistema de incentivos não discriminatórios de apoio à imprensa,
    baseado em critérios gerais e objectivos, determinados em lei especifica.

    Constitui finalidade do sistema de incentivos, nos termos das
    disposições legais, assegurar a possibilidade de expressão e confronto
    das diversas correntes de opinião.

Queremos saber a sua opinião.