Autarquias locais: Cuidar do visível e do invisível

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Caro leitor, começo com uma reflexão mais abstracta para introduzir três temas bem concretos: uma rotunda; estacionar nos passeios; piso antiderrapante.
O filósofo político basco Daniel Innerarity, que é hoje um importante pensador, no livro O Novo Espaço Público, diz que se deve atender a quem não tem voz (os marginalizados e excluídos), às gerações vindouras (por isso devemos cuidar do futuro do Planeta), ao vivo, mudo e imóvel (árvore, animal, pedra, mar, património construído e imaterial: o que nos alerta para os desafios ecológicos e as alterações climáticas) e até aos mortos (não profanando a sua memória). Isto se quisermos viver em Sociedades e Democracias mais decentes, pois os direitos formais que existem não protegem quem não pode falar por si ou não tem voz.
Diz ainda Innerarity que cuidar do visível, do evidente, do que tem voz e reclama é fácil: difícil é cuidar do que não tem forças nem voz para se afirmar ou ainda nem nasceu. Como filósofo, ele pensa a Sociedade em abstracto, conceptualmente, o que ajuda a criar massa crítica indispensável à boa governação (desde o nível mais alto, no governo, ao mais elementar, na freguesia ou na associação local).
Mas talvez pense assim por viver num país que, apesar das semelhanças com o nosso, atingiu (pelo menos desde o Franquismo) um desenvolvimento social (e económico) muito superior. Basta ver a qualidade do espaço público nas localidades ou o cumprimento das regras sociais mais simples (p. ex., não estacionar nos passeios impedindo os peões de circular): refiro apenas duas coisas bem visíveis em Espanha.
Dou agora os três exemplos concretos (de localidades que conheço bem) que nos mostram como estamos longe do pensamento elaborado de Innerarity, talvez por, no íntimo, sabermos que ainda nem conseguimos satisfazer tantas necessidades básicas.
Palmela ─ Acabou um dos maiores obstáculos à mobilidade no concelho e na região: a tão desejada rotunda da Volta da Pedra, onde, nos últimos 30 anos (devido ao abandono do transporte público e ao crescimento exponencial do privado) se perdeu milhares de horas em filas (em especial às horas de ponta), se gastou toneladas de combustível no enervante pára-arranca, se poluiu o ar e degradou a qualidade de vida. A solução era técnica e financeiramente fácil, mas muitas vezes opta-se pelo fútil em vez do essencial. O que intriga no adiamento desta obra (que só foi possível fazer agora porque a Estradas de Portugal a impôs ao supermercado Aldi por causa da fluidez do trânsito) foi a opção de construir, às custas da autarquia, a rotunda mais acima (no cruzamento do cemitério), menos urgente, quando se sabia que ali ia surgir uma nova área comercial, que, tal como o Aldi, teria de a construir (as duas rotundas são da responsabilidade da Estradas de Portugal, pois ficam na via nacional N-379).
Setúbal ─ É inexplicável, e misterioso, o estacionamento abusivo e continuado ao longo de anos, que ocupa o passeio na Estrada da Baixa de Palmela (da Urbisado ao novo supermercado Continente) e na rua José Pereira Martins (entre as avenidas dos Combatentes e Luísa Tody, neste caso nas barbas da Esquadra de Trânsito). Já conhecemos a lamúria da falta de recursos, mas os (sempre) «poucos» polícias que restam serão invisuais?
Lisboa ─ Há dias, circulei por vários troços de passeio antiderrapante numa zona de grande declive, o que dá segurança e conforto aos peões e revela inovação e racionalidade no tratamento do espaço público. Mas é uma pequena ilha no imenso mar da intransitável calçada portuguesa, irregular, com buracos, cara de fazer e manter, mas que o conservadorismo entranhado nas mentes e na rotina não deixa mudar.
Os três exemplos mostram-nos que não podemos cuidar do invisível (como nos propõe Innerarity) se não cuidamos do visível. Mas reforçam a importância de olharmos mais longe (o que cria massa crítica) para vermos melhor mais perto (as necessidades diárias). Olhamos ainda demasiado para os pés e às vezes nem vemos os sapatos!

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