“Desde a criação do Serviço Nacional de Saúde, todos os governos quiseram criar um sector privado”

PESSOAS DA NOSSA VIDA

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MÁRIO DURVAL – Delegado de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo

 

Alentejano residente há décadas no Barreiro, é um activista de esquerda, que luta pelo serviço público a pensar nas pessoas. Homem de afectos, chega a fazer relatórios de congressos em poesia porque a inspiração de momentos de leveza e clarividência pode substituir discursos de horas. Aos 69 anos, continua médico em exclusividade no SNS, nunca se rendeu ao privado

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À beira de completar 69 anos, Mário Durval do Rosário, médico em exclusividade no Serviço Nacional de Saúde 8SNS), averba o reconhecimento por parte dos pacientes do Arco Ribeirinho Sul onde foi protagonista de uma reforma inovadora que passou pela criação de modelos e valências de saúde ocupacional em centros de saúde, modelos de gestão em equipas, unidades de saúde familiares e comunitárias. Uma inovação que não “estava escrita no papel”, sublinha o médico, que viu reconhecido este trabalho também pela Direcção-Geral de Saúde (DGS).

Além da sua actividade profissional, este alentejano de Avis, residente há décadas no Barreiro, é um antigo activista de esquerda, embrenhado nas lutas estudantis do tempo da ditadura, e é ainda presidente da Associação UDP, um dos movimentos que integram o Bloco de Esquerda, partido a que concorreu à presidência da Câmara Municipal do Barreiro nas autárquicas de outubro de 2017.

Há quase uma década lançou as bases do Movimento Escola/Cidade dos Afectos entre Barreiro e Caldas da Rainha, que já se estendeu a várias cidades.

Faz teatro, no Grupo “Projector”, no Barreiro, e de vez em quando no Alentejo, escreve poesia, e tem o hábito de resumir sessões de congressos e jornadas de saúde em… poesia. Nesta conversa, explica como.

 

 Um médico com forte intervenção no plano profissional no Arco Ribeirinho Sul, mas também na política, na área social e cultural. De onde vem este apelo?

Certamente da minha história de vida, do meu avô que era anarco-sindicalista dos rurais, da Republica, até uma consciência social que vinha do local onde o meu pai trabalhava e onde havia um certo apoio as pessoas que lá trabalhavam e aos filhos e pagavam os estudos aos filhos, tal como eu, independentemente da situação laboral deles. Quando fui para a faculdade (de Medicina), há as lutas estudantis… certamente muitos outros apelos, de historias de infância, da juventude, das relações com as pessoas que me colocaram perspectivas de justiça social, de igualdade, fraternidade… é toda esta construção que faz uma experiência politica, quer antes quer depois do 25 de Abril.

“O parasitismo nos primeiros anos era bacoco”

No Alentejo, naquela altura da ditadura eram tempos difíceis nos campos, com a repressão. E no PREC, em Lisboa, como foi a experiencia que viveu como estudante e activista de esquerda?

Eu tinha a minha ideia política construída antes do 25 de abril, não fui dos que começaram a abrir os olhos depois da Revolução. Quando foi o assassinato do Ribeiro Santos, eu estava ao lado dele, a bala que foi para ele podia ter ido para mim. Na universidade havia um largo leque de resistentes, que lutavam contra o fascismo, a guerra colonial.

O percurso como médico anterior e actual revela uma preocupação com questões sociais, não meramente a pratica clinica. É uma concepçao mais ampla de serviço público?

É uma forma de corrigir desequilíbrios que esta sociedade vai construindo. Um bom serviço público vai atenuando essas diferenças, é essa a minha perspectiva de trabalho.

A DGS assinala que inovou na criação de modelos e saúde ocupacional no Arco Ribeirinho Sul e também modelos em equipa de gestão e saúde comunitária. É também isto que falta ser implementado a nível nacional, agora que tanto se fala em voltar à essência do SNS, e revogar a Lei de Bases, de 1993?

Portugal tem algumas características curiosas. As leis do Serviço Nacional de Saúde funcionaram conforme os governos que la estiveram. Felizmente também existe espaço para se fazerem experiências e é por isso que às vezes aparece uma coisa boa num concelho, outra noutro… Eu fiz uma serie de inovações quer na organização dos serviços e a maior parte delas não estavam escritas em lado nenhum e tiveram impacto nacional. Aquilo que havia de comum a todas elas era de melhoria quer da abrangência quer do serviço público. Por exemplo, a questão das equipas; foi a primeira vez que passou a haver uma responsabilidade no SNS, nos cuidados de saúde primários, de uma equipa multidisciplinar que era responsável por uma população, com auto-organização, ligada à organização do centro de saúde por objectivos de gestão de saúde, e não de gestão financeira, ao contrário do que aparece agora. Esse é um dos problemas que persistem no SNS. Fomos tomados pelo pensamento da lógica contabilística abandonando a lógica da saúde.

Apesar destes modelos de eficiência, a margem sul do Tejo não é excepção em problemas como as listas de espera ou os largos milhares de utentes sem médico. Tem a ver com a fuga de médicos do SNS para o privado, falta de financiamento do SNS?

Isso é uma história muito comprida. Isto foi preparado quase a partir do momento em que foi criado o SNS (1978). A lei nunca foi aplicada na totalidade! Os vários governos andaram sempre a fazer contracorrente àquilo que estava determinado, sempre com argumentos financeiros, mas o objectivo principal era o de criar um sector privado que funcionasse como um negócio paralelo. Desde os primeiros anos, e agora ainda, é o orçamento de Estado que tem pago os serviços privados. O parasitismo nos primeiros anos era bacoco agora como as empresas já são de grandes dimensões… Por exemplo um funcionário do Estado, da ADSE, até há pouco tempo, pagava menos se fosse a um hospital privado. Não se entende! Como é que um funcionário público paga menos num hospital privado que num hospital público? Taxas moderadoras, etc… É evidente que isto é intencional. Dizer que as taxas são moderadoras é treta! Não moderam coisa nenhuma.

Um reforço do financiamento SNS pode atenuar o problema dos utentes sem médico?

O problema tem mais a ver com a desvalorização do serviço, das carreiras… Foi criado mal-estar nos hospitais e nos centros de saúde para que as pessoas se fossem embora e reformassem antecipadamente.

 “O sorriso faz parte dessa mensagem de saúde”

É uma questão de valorização salarial?

A valorização salarial não se põe tanto. As pessoas foram-se embora porque foram maltratadas e essa é a questão central e a degradação das relações profissionais.

Uma maioria de esquerda pode ainda ir a tempo de relançar as bases do SNS original?

Duvido. Porque a reforma estrutural exige uma lei. Com esta maioria parlamentar é contudo possível mudar. Embora existam lóbis muito poderosos, como a indústria farmacêutica que domina toda a Saúde, determina tendências e muitas vezes fraudulentas.

Educação para a Saúde/ Escola Cidade dos Afectos, foi um movimento que lançou há uns anos em parceria com a Região Centro, Caldas da Rainha, e que já teve adesão de outros concelhos.

Precisamos de afectos e os afectos são essenciais para a saúde das pessoas e são essenciais porque as pessoas conseguem melhorias da sua disposição e da sua atitude se tiverem afectos no seu dia-a-dia. Começámos pelas escolas, mas isto estendeu-se à cidade. As potencialidades são enormes, porque as relações afectivas são entre as pessoas, mas também com a cidade, com os locais de trabalho, nas escolas, é por isso que temos que dar atenção a tudo. Por exemplo, houve aí aquelas escolas da Parque Escolar, todas branquinhas, todas imaculadas, não se podia por nada nas paredes… Isto é o primeiro passo para que os estudantes se afastem e desliguem afectivamente da escola. Só os colegas e os professores se podem substituir nisso. Mas os espaços também têm ligações afectivas. O filósofo José Gil diz que os portugueses inscrevem no território a sua história e isso é importante para se reconhecerem. Para a ‘Cidade dos Afectos’, é importante que o território tenha a inscrição de afectos, algumas cidades já tem um Jardim dos Afectos, aqui (Barreiro), já há uma estátua, em aço, a quinzena dos afectos, a hora dos abraços, etc. Isto corresponde a uma necessidade e a uma interacçao que vamos fazendo com as escolas. Os afectos tornaram-se uma necessidade da comunidade. Aqui há uns anos, quando houve aquele terrível atentado num concerto em Londres, no dia seguinte em vez de palavras de ódio, as pessoas vinham com palavras afectivas. Está criado um ambiente social global que é favorável aos afectos. Nós temos, enquanto pessoas da Saúde, de fazer essa leitura e aproveitar em benefício da saúde da população.

O sorriso faz parte dessa mensagem de saúde.

O sonho de Rosa Luxemburgo pode cumprir-se também com o sorriso e o afecto?

Esse está por cumprir. Todos nós podemos contribuir com esse pequeno papel. Todos no seu sítio podem contribuir lutando pela humanidade.

E de canções, quais são os autores da tua vida?

Os clássicos, o Zeca, O Adriano Correia de Oliveira, o Sérgio, são essas músicas que cantam isto. Em particular gosto muito do José Mário Branco. Penso que não está suficientemente reconhecida a sua genialidade. Há uma musica que eu uso aqui nas minhas actividades, com cujo refrão eu depois construo poemas que é o “para não dizer que não falei de flores”. Nós fazemos a hora e se nos juntarmos, fazemos a hora toda.

Vai ao seu Alentejo profundo com frequência?

Tenho ido pouco, mas o trabalho que comecei deixou lá marcas e é gratificante ir e ver que, ao fim de 30 ou 40 anos, aquilo que se fez foi muito fundo no coração das pessoas.

O Alentejo serve-lhe de inspiração para escrever poemas?

Já fiz. Já fiz teatro para os mineiros de Aljustrel, o Kira pintou para cada um dos poemas e fizemos um espetáculo. Escrevo os poemas relacionados com os eventos que estou a viver. Não sou poeta de estar a fazer poemas. Há uma coisa e eu faço um poema a propósito. Posso, por exemplo, fazer um resumo de um congresso (médico) em poema. Em vez de estar a fazer discursos, porque o conteúdo foi suficientemente forte até à consecução de um poema. Numa das jornadas de educação para a saúde do Arco Ribeirinho em que tive que fazer os resumos, em que faltava um quarto de hora para o final e eu ainda não tinha nenhuma ideia e nos minutos finais fez tudo sentido na minha cabeça e resolvi fazer em poema. Houve uns minutos de silêncio absoluto. O poema chama-se “Ser Professor”, as pessoas reviram-se naquilo, levantam-se todas em aplauso… Foi uma coisa linda, linda! Porquê? Porque no fundo nós quando estamos num sítio para darmos alguma coisa de nós e para mobilizar os outros para objectivos nobres, às vezes conseguimos ter momentos de leveza e até de clarividência e dizer em poesia coisas que demorariam horas a fazer discursos.

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