MIGUEL LEMOS: Número de utentes sem médico de família no ACES Arco Ribeirinho baixou para 48 mil

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O director executivo do ACES Arco Ribeirinho, que engloba os  centros de saúde dos concelhos de Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo, faz balanço positivo ao trabalho desenvolvido em 2017. A diminuição do número de utentes sem médico de família (Moita e Barreiro são os casos mais preocupantes) e a articulação com o Centro Hospitalar Barreiro Montijo reflectem isso mesmo. Mas há ainda um longo caminho a percorrer

Que balanço faz à actividade do Agrupamento dos Centros de Saúde (ACES) Arco Ribeirinho em relação a este ano de 2017?

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O ACES Arco Ribeirinho tem uma nova direcção Executiva cujo mandato teve início em Julho de 2016. Nestes 17 meses de existência, houve a preocupação em conhecer os cerca de 560 Km2 de território que abrangem uma população de 221 mil 463 utentes, bem como todas as unidades funcionais e profissionais que nelas trabalham.

A diversidade humana e territorial, associada a necessidades de saúde e sociais, também elas diversas, foram seguramente os grandes desafios, que se depararam enquanto responsável pelo ACES Arco Ribeirinho. De forma resumida, poderei separar em três grandes áreas aquela que foi a actividade do ACES Arco Ribeirinho ao longo deste ano: equipamentos e infra-estruturas; prestação de cuidados de saúde primários; e integração de cuidados de saúde com o Centro Hospitalar Barreiro Montijo (CHBM) e a comunidade do Arco Ribeirinho.

Olhando para cada uma dessas áreas, ao nível dos equipamentos e infra-estruturas…

… O ACES realizou um conjunto de pequenas intervenções de manutenção e remodelação em algumas unidades de saúde (USCP Alcochete, Montijo e Baixa da Banheira), ao nível da introdução de melhorias nas condições de atendimento e acolhimento dos nossos utentes, medida que resultou da operacionalização de um projecto da ARSLVT, denominado de “Acolhimento Saudável”.

Em Março foi assinado um protocolo de cooperação, celebrado entre a ARSLVT e a Câmara Municipal da Moita para a instalação da nova Unidade de Saúde Baixa da Banheira. Actualmente, encontram-se a ser realizadas as intervenções para finalizar a área exterior do edifício da USF Santo António da Charneca no Barreiro.

E ao nível da prestação de cuidados de saúde primários?

O ACES sempre teve como prioridade o problema da falta de médicos de família. No início do ano existiam cerca de 60 mil utentes que não tinham médico de família. Actualmente, e em resultado da entrada de novos médicos, este número passou para cerca de 48 mil utentes. Esta situação também tem sido minimizada, através do recurso à contratação de médicos aposentados, situação que foi prontamente agilizada pela ARSLVT e que se traduz, actualmente na existência de 7 médicos que se encontram a dar cobertura assistencial aos utentes sem médico, distribuídos pelas zonas mais carentes dos concelhos de Alcochete, Montijo, Moita e Barreiro.

Uma das outras estratégias encontradas, para alargar a prestação de cuidados aos utentes sem médico de família, foi o protocolo de colaboração, assinado no passado a 12 de Dezembro, entre a ARSLVT e a União das Misericórdias Portuguesas que permitirá apoiar com consultas médicas as zonas de Setúbal, Canha/Pegões, Barreiro e Quinta do Conde/Sesimbra.

O ACES Arco Ribeirinho foi um dos ACES que participou no projecto-piloto para a colocação de médicos dentistas nos CSP. Este projecto, que se iniciou em finais de 2016, permitiu até ao momento realizar 2 891 consultas. Ainda durante este ano, assistiu-se ao reforço das consultas de cessação tabágica no ACES, que se pretendem implementar em todas as unidades de saúde.

Finalmente, no âmbito da prevenção, este ACES foi um dos que participou no projecto inicial da ARSLVT para a implementação dos programas de rastreios do Cancro do Colon e Reto e Cancro do Colo do Útero que se prevê que esteja a funcionar em pleno todas as nossas unidades de saúde.

E em relação à integração de cuidados de saúde com o CHBM?

Poderemos afirmar que 2017 foi o ano em que se reforçaram as bases fundacionais de uma articulação com o CHBM, cuja expressão máxima aconteceu com a candidatura conjunta de 5 projectos ao Programa de Investimento à Integração de Cuidados e à Valorização dos Percursos dos Utentes no SNS em 2017, promovido pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Estes projectos foram organizados por equipas multidisciplinares do CHBM e do ACES, tendo sido aprovados os seguintes projetos: Unidade Domiciliária de Cuidados Paliativos; InCom – Intervenção Comunitária em Saúde Mental; Sistema de Alerta Oncológico (SAO); Programa de intervenção integrada para a promoção da saúde em patologia crónica não transmissível – Academia de Movimento CHBM-ACES Arco Ribeirinho.

Neste domínio, e reforçando a proximidade funcional entre estas instituições, encontram-se ainda a desenvolver protocolos de actuação em diversas áreas clínicas, como a cardiologia, a urologia, a psiquiatria, a oftalmologia, a gastrenterologia, análises clínicas e imunohemoterapia.

A participação deste ACES na comunidade tem sido um dos pontos fortes que ao longo dos anos se tem vindo a intensificar, com a participação nos vários conselhos de acção social dos nossos quatro concelhos.

De uma forma transversal e abrangente, definiu-se durante este ano a centralidade organizacional e funcional que o nosso Plano Local de Saúde (PLS) deve ter em toda a lógica de funcionamento deste ACES. O posicionamento do PLS no ACES é determinante para a definição do planeamento e das actividades em saúde das quais somos responsáveis enquanto gestores e prestadores de cuidados de saúde primários. Este será, seguramente, um caminho a manter durante os próximos anos.

Em qual dos quatro municípios que abrange (Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo), o ACES Arco Ribeirinho sente maior dificuldade na capacidade de resposta dos cuidados primários de saúde e porquê?

As dificuldades de resposta centram-se essencialmente nas unidades onde existem mais utentes sem médico de família, como é o caso dos municípios da Moita e do Barreiro. A ausência de resposta ao nível dos cuidados médicos tem sido o factor crítico na gestão do ACES.

A tutela, recorde-se, abriu concurso para recrutamento de 18 médicos para o ACES Arco Ribeirinho: sete para a unidade do Barreiro; cinco para a unidade da Baixa da Banheira; três para a unidade do Montijo; dois para a unidade da Moita; e um para a unidade de Alcochete. Apenas oito das 18 vagas foram preenchidas: três no Barreiro, três no Montijo, um na Baixa da Banheira e outro em Alcochete. Que razões aponta para que se tenha registado um número de candidatos inferior a 50% do total das vagas?

Como é do conhecimento geral, o processo de colocação de médicos recém-especialistas, resulta essencialmente da classificação obtida no concurso a que se candidatam e da escolha e decisão pessoal de cada um. Este ano e pela primeira vez, foi atribuído a este ACES o estatuto de ACES carenciado, o que permitiu criar condições de maior atractividade para os profissionais médicos que o escolhessem. Apesar de ser insuficiente, este foi o ano em que concorreu um maior número de médicos.

A escolha do local de trabalho, além da remuneração mensal, está dependente de muitos outros factores, entre os quais se destacam, a atractividade do local geográfico e social em que as unidades de saúde dos ACES se encontram, das suas equipas, da organização do trabalho, dos projectos de desenvolvimento pessoais e profissionais que os trabalhadores possam encontrar como motivadores, ao ponto de poderem determinar uma decisão de escolha.


Samouco sem médico era situação inaceitável

É aceitável que uma extensão de um centro de saúde, como a da freguesia do Samouco, concelho de Alcochete, ficasse privada do único médico que tinha, mesmo depois de ter sido colocado um clínico no Centro de Saúde de Alcochete?

Por não ser aceitável, e dado que estava previsto a entrada da médica aposentada que actualmente já lá se encontra, houve um esforço imediato por parte do ACES em colmatar esta falta de resposta local. Apesar do sucedido, conseguiu-se no prazo de duas semanas repor a assistência médica, recorrendo à equipa da UCSP de Alcochete com a contratação de uma médica aposentada que se encontra a tempo inteiro naquela unidade e com maior disponibilidade de horário de atendimento.


Em termos de novos projectos, o que nos pode adiantar em relação ao ACES do Arco Ribeirinho?

Em relação a novos projectos, podemos destacar os desafios subjacentes aos projectos de integração de cuidados com o CHBM, anteriormente referidos e que deverão introduzir algumas práticas inovadoras dentro do ACES. Existem outros projectos/actividades que queremos desenvolver com a criação de novas USF, como é o caso do Montijo e da Baixa da Banheira. Pretendemos ainda estimular os nossos profissionais e os médicos em formação neste ACES, no sentido de proporem novas respostas ao nível da organização e prestação de cuidados de saúde, como sejam, a transformação de UCSP´s em USF`s, a criação de novas consultas, como por exemplo a consulta do viajante, a implementação de um serviço de atendimento em zonas remotas do ACES, utilizando uma unidade móvel, entre outros.

Numa lógica de trabalho integrado, temos ainda o projecto da ARSLVT sobre Telenutrição, que permitirá disponibilizar online um serviço de consultas de nutrição em todo o ACES, aumentando deste modo, o aceso dos nossos utentes a este tipo de cuidados.

Sendo este ACES um local onde anualmente existem em permanência 30 a 40 médicos internos em formação, é nosso objectivo poder oferecer também como campo de estágio de formação e aprendizagem as UCSP´s, que tradicionalmente não têm feito parte deste processo. Esta acção irá reforçar e diversificar as equipas que aí trabalham e motivar os profissionais para novos desafios.

Qual o tratamento que defende para a saúde dos ACES, de uma forma geral?

Os ACES são unidades que, dada a sua natureza funcional, prestam cuidados de saúde primários que devem ser de proximidade. Esta proximidade, junto da comunidade e dos utentes, pressupõe uma lógica de actuação com autonomia funcional que facilite a resposta em tempo útil às necessidades de saúde dos utentes. Também a função de literacia e educação em saúde, a par das estratégias de promoção e prevenção, são um pilar que estrutura a identidade dos próprios CSP.

Na senda do que já está preconizado com a reforma dos cuidados de saúde primários, a flexibilidade, a autonomia e a capacidade de gerir localmente todos recursos que compõem a estrutura de um ACES, devem continuar a ser discutidos e avaliados, de forma a poderem ser encontradas formas inovadoras de gestão e prestação de cuidados de saúde primários com qualidade cada vez maior.


ACES Arrábida é o mais carenciado da Península de Setúbal

Consegue classificar o ACES Arco Ribeirinho em comparação com os restantes ACES existentes no Distrito de Setúbal?

Dos três ACES que compõem a Península de Setúbal, o Arco Ribeirinho é o que neste momento se encontra a meio da tabela ao nível da falta de recursos médicos, sendo o mais carenciado o ACES Arrábida [que abrange os concelhos de Setúbal, Palmela e Sesimbra] e em terceiro o ACES Almada-Seixal. No entanto, posso afirmar que apesar destas diferenças de necessidades, há uma grande convergência ao nível do entendimento sobre o modelo de organização dos cuidados de saúde primário nestes três ACES. Existe uma prática de partilha entre estes agrupamentos, que se traduz num encontro mensal entre os directores executivos e as responsáveis das unidades de apoio à gestão, onde se abordam temas, problemas e se tentam encontrar soluções comuns para os cuidados de saúde primários na Península de Setúbal. Existem mais coisas que nos unem do que as que nos diferenciam.

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