SETÚBAL Licenciatura de acupunctura no Politécnico é “aposta ganha”

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Professores e alunos acreditam que, no futuro, a acupunctura poderá servir de complemento à medicina tradicional para o tratamento de doenças músculo-esqueléticas, entre outras. Turma tem 16 estudantes, na maioria já licenciados noutras áreas

 

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No quadro do laboratório de Anatomia da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal (ESS/IPS) está a ser desenhado um esquema representativo do trajecto do canal principal da vesícula biliar. Os seis alunos na sala acompanham o percurso, através de um modelo e de um mapa do corpo humano.

Entre eles, está João Pedro Cruz, 18 anos, um dos primeiros estudantes a entrar na nova licenciatura em Acupunctura. Aluno de Ciências e Tecnologias na Escola Secundária de Bocage, em Setúbal revela-se satisfeito com a sua escolha. “Estou a gostar bastante, temos por base filosofias diferentes das que estamos habituados, mas acaba sempre por haver uma ligação prática ao nosso quotidiano, ou seja, conseguimos sempre enquadrarmo-nos entre a medicina convencional e não convencional”, afirma ao DIÁRIO DA REGIÃO.

A licenciatura em Acupunctura da ESS/IPS tem 20 vagas. No total, entraram 16 alunos, seis provenientes do 12º ano e os restantes pelo contingente dos detentores de outros graus. “Temos pessoas licenciadas em engenharia e enfermagem. Dois alunos desistiram, porque pensavam que conseguiam fazer o curso de Acupunctura ao fim de semana ou à noite, e não dá.”, explica Helena Caria, coordenadora do curso de Acupunctura e professora de Bioquímica.

Do ponto de vista organizacional, a licenciatura sem mestrado integrado está dividida em quatro anos lectivos e oito semestres, com unidades curriculares do departamento de Ciências Sociais e Humanas, Ciências Biomédicas, cadeiras específicas de Suporte Básico de Vida e unidades curriculares de Acupunctura designadamente Biofísica, Bioquímica, Anatomia, Psicologia, Meridianos, História: Princípios e Fundamentos de Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e Introdução à Profissão.

Três meses depois da certificação da licenciatura pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), o balanço é extremamente positivo. “As coisas estão a correr muito bem, os estudantes estão muito motivados e a escola também”, adianta Helena Caria. Para a professora de Bioquímica, “há muita gente a trabalhar em Acupunctura, mas não há muita regulamentação da profissão. A partir do momento em que estas áreas chegaram ao ensino superior, os politécnicos têm a responsabilidade de aumentar a transparência da profissão, dando-lhe um carácter mais profissional, que não tinha”.

JOÃO PEDRO CRUZ. Jovem foi um dos primeiros alunos a entrar na nova licenciatura

Em termos práticos, todos os alunos “vão sair com uma cédula profissional, que lhes dá direito a trabalhar por conta própria ou em clínicas que já existam. Pensa-se que no futuro, estas áreas comecem a ter acesso no Serviço Nacional de Saúde. Actualmente ainda não têm, mas isto tem tudo a ver com a qualificação”, informa Helena Caria.

As designações actuais para esta ciência milenar chinesa são terapêuticas não convencionais ou medicinas alternativas. “Estas terapêuticas não convencionais e a acupunctura em específico não substituem a medicina, mas é um bocadinho por aí que vem a designação complementar, porque quando temos uma pessoa com uma determinada patologia geral, há um conjunto de ferramentas para se tratar essa doença e a acupunctura é uma das ferramentas”, esclarece a docente.

De acordo com os teóricos, a história da Acupuntura é muito rica, tratando-se de uma prática milenar com pelo menos 2500 anos. Jorge Maia, professor de Anatomia e coordenador do curso explica que “existem muitas lendas por detrás do início disto tudo, mas uma das histórias tem a ver com um guerreiro que sofria de dor ciática e levou com uma flecha no ponto 60 da bexiga e esse problema desapareceu-lhe, daí começarem a ver o porquê daquilo e iniciarem os estudos na área”.

Os pontos de acupunctura nem sempre tiveram nomes, só a partir de determinada altura foi atribuída uma designação em chinês, que traduz a localização do ponto e o que ele faz. “Nós os ocidentais precisamos de saber o onde, o quando, o como e o porquê. Por isso, traduzimos os nomes em chinês para um número e uma letra”. Ex: yuanye (depressão da axila) = VB22 (vesícula biliar).

Relativamente às áreas de aplicação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu um total de 147 patologias, que apresentaram excelentes resultados com o tratamento da acupunctura. “Isto não significa a cura, porque essa palavra não existe, mas desde que se atrase um bocado a evolução já é considerado melhoria de qualidade de vida”, explica o professor. Jorge Maia dá exemplos. “A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e o Parkinson não têm cura, mas se melhorar a qualidade de vida, já é bom. E isso pode fazer-se em conjunto com as medicinas convencionais”.

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