Caos do Seixalinho

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Em tempos alguém teve a brilhante ideia de que seria deveras interessante relocalizar os transportes públicos do Montijo num local onde não existem pessoas. Sem bem o pensou, melhor o executou. E assim, em 17 de Dezembro de 2002, ou seja, há 15 anos, foi inaugurado o Terminal rodo-fluvial do Cais do Seixalinho. Para esclarecimento dos mais desatentos refira-se que o aglomerado habitacional mais próximo digno de registo distará 2,5 km desta estrutura.

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Esta seria a altura ideal para fazer um balanço exaustivo do que foi corporizado nesta década e meia. Escuso-me a elencar as promessas feitas antes da transferência dos barcos do Cais dos Vapores para o Seixalinho, pois as mesmas são sobejamente conhecidas. Mas é fácil indicar o que foi realmente concretizado. De todas as promessas, a única que viu a luz do dia foi a gratuitidade do parque de estacionamento, embora tenha ocorrido apenas em Junho deste ano, altura de pré-campanha autárquica.

Na época foi transmitida aos montijenses a ideia de que a Administração da Transtejo estava interessada em deslocalizar o barco devido ao assoreamento da cala que obrigava a dragagens bienais (e dispendiosas) deste braço do rio Tejo. O medo foi-se instalando na comunidade, à medida que crescia o rumor que Montijo corria mesmo o risco de ficar sem barcos. No meio disto tudo, ninguém se lembrou de perguntar quem passaria a ser responsável pelas dragagens necessárias na frente ribeirinha, asseguradas até ali pela Transtejo, para manter o rio navegável. Aliás, há pouco mais de um ano, esta situação deu azo ao apelo dos pescadores montijenses para se fazer o desassoreamento da cala. O problema é que a própria Associação do Porto de Lisboa não define a entidade competente pela manutenção do II Troço do Canal do Montijo. Assim, temos agora um novo cais para os pescadores que impossibilita a ida e vinda da faina em período de baixa-mar.

Por parte do poder local, a principal razão apontada para “desterrar” os barcos era o estacionamento automóvel na cidade. Pelo que se foi dando a perceber, todo o problema gerado com o tráfego e o estacionamento automóvel citadinos era da responsabilidade dos utentes que iriam apanhar o barco no Cais dos Vapores. Mas tenho para mim a ideia que, efectivamente, o que pesou foi a maçada que advinha da difícil missão para os eleitos locais e funcionários camarários de arranjar um lugar de estacionamento vago no centro do Montijo…

A nova centralidade da cidade que nos era prometida foi afinal um logro. Mais, a opção pelo Terminal rodo-fluvial do Cais do Seixalinho em nada beneficiou os montijenses. Perderam tempo, dinheiro e comodidade. Enfrentam um serviço fluvial cada vez mais degradado e um serviço de transporte rodoviário miserável. Neste aspecto, quer gestão pública quer gestão privada apresentam o mesmo nível de incompetência e desrespeito pelo utente. O poder local não parece ter a força e/ou capacidade necessária para bater o pé e exigir mais e melhores transportes públicos para o Montijo.

Entretanto, tal como no passado se acreditava que a Ponte Vasco da Gama criaria uma nova cintura de desenvolvimento e uma nova centralidade no Cais do Seixalinho, efervescente de novos e modernos transportes públicos, agora é esperado que seja um possível terminal de aeroporto a trazer “um grande desenvolvimento” e a resolver todos os problemas na área da mobilidade, que as sucessivas gestões camarárias das últimas décadas não conseguiram solucionar.

No meio de toda esta gestão errática, emerge o Seixalinho. Isolado, desterrado e maltratado. Lançou o caos no quotidiano da comunidade e nada deu em troca. Todas as maravilhas e potencialidades anunciadas falharam. Que foi um erro, há muito que todos deram conta, mesmo a gestão camarária da altura e de agora. Mas confessar o lapso e corrigi-lo não é usual na política nacional. Perante este panorama resta à comunidade duas opções. Ou se exige a reversão do processo, devolvendo a importância devida aos transportes públicos colectivos. Ou se defende o cumprimento total dos compromissos divulgados aquando da deslocalização do transporte fluvial, tentando dessa forma atenuar os impactos negativos sentidos. Caso contrário, a mobilidade, fundamental para a comunidade montijense, continuará entregue ao actual Caos do Seixalinho.

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