Profissionais do distrito de Setúbal juntaram-se para debater comunicação e jornalismo

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A comunicação das autarquias como aprofundamento da democracia e participação cidadã, os desafios colocados pelas redes sociais e pelo turismo crescente e a comunicação empresarial foram alguns dos temas em cima da mesa

 

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Oitenta profissionais da comunicação do distrito de Setúbal juntaram-se ontem para debater temas como a comunicação autárquica, a comunicação no turismo, a comunicação empresarial e as dificuldades e desafios dos meios de comunicação social local, no âmbito do II Encontro dos Profissionais da Comunicação da Península de Setúbal e do Litoral Alentejano, organizado pelo DIÁRIO DA REGIÃO e pela Câmara Municipal de Setúbal, na Escola de Hotelaria e Turismo.

A abrir o encontro, o único do género a realizar-se em todo o distrito, a presidente da autarquia Maria das Dores Meira afirmou que são as autarquias que estão “na vanguarda da comunicação aberta e transparente desde há várias décadas”, contribuindo para o aprofundamento da democracia. “O poder local tem sido o que mais estimula e comunica a necessidade desta democracia”, reforçou a presidente.

O paradigma das redes sociais – em que cada cidadão tem um espaço para se fazer ouvir, denunciar e difundir informação – veio trazer, contudo, novos desafios à comunicação institucional das autarquias. “Longe vão os tempos em que aquilo que se passava nas câmaras municipais eram apenas mediado pelos jornais e rádios locais. Esta é sem dúvida a mais importante mudança comunicacional desde Gutenberg”, frisou.

“Hoje são as redes sociais que determinam muitas vezes aquilo que é notícia. É uma mudança que exige debate e reflexão”, numa altura em que as chamadas notícias falsas se têm propagado e ainda há “quem confunda a comunicação social com propaganda e informação que os munícipes partilham com actividade política”.

Sustentando que “as autarquias terão sido as primeiras a compreender esta nova realidade a explorá-la com enorme eficácia”, Maria das Dores Meira deu como exemplos a comunicação feita através do site do município e das páginas municipais no Facebook, que vieram permitir “comunicar sem intermediários com uma elevada audiência garantida”.

Debater a comunicação autárquica como factor de sucesso municipal, a importância da comunicação no turismo, a comunicação empresarial das grandes marcas, os desafios e dificuldades da comunicação social local e a comunicação digital nos órgãos de comunicação regionais foram os grandes objectivos do encontro, promovido pelo DIÁRIO DA REGIÃO em conjunto com a câmara municipal.

No encontro participaram como oradores Vítor Proença, presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, António Seia da Silva, presidente da Entidade Regional de Turismo da Região do Alentejo e Ribatejo e Vítor Costa, presidente da Entidade da Região de Turismo da Região de Lisboa.

Fernanda Pestana, vice-presidente do Instituto Politécnico de Setúbal, Márcio Cruz, responsável de relações públicas e comunicação da CCEP, empresa da Coca-Cola para a Península Ibérica, Marta Mimoso, directora-geral da Cidot – Estúdio de Comunicação e Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas também fizeram parte do painel de oradores.

Na ocasião tomaram ainda a palavra Humberto Lameiras, chefe de redacção do jornal ‘O Setubalense’, Cláudia Aldegalega, directora do ‘Jornal do Pinhal Novo’ e Pedro Jerónimo, investigador do Instituto Superior Miguel Torga.

O II Encontro de Profissionais da Comunicação da Península de Setúbal e do Litoral Alentejano veio, na óptica da organização, responder “ao desejo manifestado pelos participantes do primeiro encontro, realizado em Novembro de 2016”, de manter contacto, reflectir e partilhar técnicas e experiências.

Entre os mais de 80 participantes estiveram profissionais de comunicação de toda a região, como jornalistas, empresários de comunicação social, responsáveis de comunicação de empresas e entidades públicas.

O evento foi organizado pelo DIÁRIO DA REGIÃO e pela Câmara Municipal de Setúbal, com o patrocínio da Coca-Cola e apoio da Secil, Instituto Politécnico de Setúbal, Escola da Hotelaria de Setúbal, O Setubalense e do Jornal do pinhal Novo.

 

 

PRESIDENTE DA CÂMARA DE ALCÁCER DO SAL

Vítor Proença diz que proximidade da comunicação é determinante

“A proximidade com as populações, aliada à abrangência das competências, obriga a que os municípios se liguem aos diversos públicos de uma forma global e, por outro lado, segmentada”, afirmou Vítor Proença, presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, no painel “A comunicação autárquica como factor de sucesso municipal”.

Reforçando a ideia de que é preciso “apreender o que é essencial para as pessoas”, o autarca sustentou que a comunicação exige dos gabinetes comunicacionais “capacidade de antecipação e busca de soluções, de inovar e de estar próximo das pessoas, das instituições e dos seus problemas”. Isto porque, no contexto em que as redes sociais dominam a comunicação pública, as comunidades tornaram-se “muito mais reivindicativas e exigentes” face às tomadas de decisão das autarquias.

Noutra esfera comunicacional, é de registar o crescimento exponencial de Alcácer do Sal no sector do turismo, “uma área que há 20 anos não tinha a amplitude de hoje”, vindo inclusive a somar vários prémios internacionais com filmes promocionais da região.

 

 

PRESIDENTE DA ENTIDADE DE TURISMO DO ALENTEJO E RIBATEJO

António Ceia da Silva: “Em turismo, o mais importante é o turista”

“Em turismo, o mais importante é o turista”, foi esta uma das principais ideias apresentadas por António Ceia da Silva, presidente da Entidade Regional de Turismo da Região do Alentejo e Ribatejo, como orador no painel acerca da importância da comunicação no turismo.

O responsável destacou a importância de fazer uma segmentação da comunicação em função do tipo de turista e de produto alvo da comunicação, tomando o marketing estratégico como linha base da comunicação. Para isso, referiu, é necessário fazer uma “gestão das expectativas” relativamente ao destino turístico que se está a comunicar. Isto é, não se pode comunicar o turismo como o melhor do mundo correndo o risco de os turistas ficarem decepcionados ao visitá-lo.

Na sua intervenção, o presidente da Entidade Regional de Turismo da Região do Alentejo e Ribatejo adiantou ainda que um dos próximos slogans da comunicação do turismo da região irá apelar a que vários membros da família “se desliguem” do dia-a-dia stressante das grandes cidades, visitando o Alentejo. Esta ideia surge no seguimento da campanha “Desligue”, lançada em 2016.

 

 

PUBLIC AFFAIRS AND COMMUNICATIONS DA COCA-COLA EUROPEAN PARTNERS

Márcio Cruz explica como Coca-Cola tem estratégia global com comunicação local

Responsável da CCEP, unidade produtiva da marca, que tem fábrica em Setúbal transmitiu preocupação da empresa com a proximidade à comunidade e à “portugalidade”

O primeiro orador da tarde foi Márcio Cruz, public affairs and communications da Coca-Cola European Partners (CCEP), empresa produtiva, engarrafador, da Coca-Cola, que tem actividade em 13 países da Europa, através de várias unidade de negócio, entre as quais a ibérica, para Portugal, Espanha e Andorra.

Em Portugal, a fábrica (antiga Refrige) da empresa em laboração é em Azeitão, concelho de Setúbal, tem 420 colaboradores na sua “grande maioria” residentes na região. Uma fábrica que foi inaugurada em 1978, celebra 40 anos no próximo ano de 2018. São “quatro décadas a produzir riqueza em Portugal”, referiu.

Márcio Cruz informou que a CCEP representa muito mais do que a Coca-Cola, tem 16 marcas na sua oferta, e que tem a “responsabilidade fortíssima” de apresentar a marca Coca-Cola. “Transformar uma marca global em comunicação local é uma grande batalha”, disse, explicando que para isso a empresa tem uma “estratégia definida a nível global com aplicação global”.

Essa estratégia passa, em Portugal, por “três eixos” de comunicação; corporativo – dar a conhecer que a marca tem fábrica na região e no país -, negócio – a forma como trabalhamos, as políticas de responsabilidade da empresa, como a social e ambiental -, e social e colaboradores – em que a comunicação evidencia a relação com a comunidade. Além destas vertentes, há também a preocupação com a comunicação interna porque “os nossos colaboradores são os nossos melhores embaixadores”, diz Márcio Cruz.

 

 

IVO MOTA – COORDENADOR AUDIOVISUAIS DA CÂMARA DE SETÚBAL 

Comunicação audiovisual do município é “aposta ganha”

Ivo Mota, coordenador do sector de Audiovisuais do Serviço Municipal de Comunicação e Imagem (SMCI) da Câmara Municipal de Setúbal, considerou uma “aposta ganha” o investimento na criação de um sector de comunicação audiovisual, que desde 2012 já realizou e publicou 937 vídeos sobre diversos eventos e assuntos de Setúbal.

O popular vídeo do flashmob musical realizado no Mercado do Livramento é o mais visionado de todos até hoje.

A criação do sector de Audiovisuais no SMCI foi uma “aposta arriscada”, admitiu o responsável tendo em conta a inexperiência inicial dos profissionais relativamente à comunicação audiovisual e nas redes sociais, mas tem dado frutos, de que é exemplo o um crescimento sustentado no que respeita ao alcance de audiências na rede social Facebook, onde o município gere activamente 12 páginas.

Para os resultados, segundo Ivo Mota, muito tem contribuído a publicação regular de vários vídeos (reportagens, filmes institucionais, promocionais e transmissões ao vivo pela Internet), a uma média de 13 por mês. Em matéria de redes sociais, o município de Setúbal está em 7.º lugar no ranking nacional de municípios com páginas no Facebook.

 

 

VÍTOR COSTA – PRESIDENTE DA ENTIDADE DE TURISMO DE LISBOA

Sado e Azeitão em destaque nas paragens entre voos

A observação de golfinhos no rio Sado e o enoturismo em Azeitão já atraíram mais de mil turistas estrangeiros que escolheram ficar em Portugal pelo menos uma noite enquanto faziam viagens de médio e longo curso na Europa, revelou Vítor Costa, presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, no painel sobre a importância da comunicação no turismo.

Dos 3911 turistas que adeririam o ano passado ao programa Portugal Stopover da TAP – que permite aos viajantes usufruir de dois destinos pelo preço de um ficando alojados até cinco noites em Lisboa ou no Porto a preços competitivos -, mais de mil escolheram visitar Setúbal e Azeitão.

O presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa transmitiu por isso a ideia de que “a comunicação é essencial para atrair turismo”, e apresentou números como os mais de 13 milhões de dormidas registadas na hotelaria nacional em 2016 e os 522 mil passageiros de cruzeiros que desembarcaram em Portugal. “Muitos destes turistas geraram estes resultados e só vieram para Portugal porque houve comunicação”, rematou.

 

 

PRESIDENTE DO SINDICATO DOS JORNALISTAS PORTUGUESES

Sofia Branco nota enfraquecimento da imprensa com retrocesso na profissionalização

Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas, começou por reconhecer que “o estado da arte”, no jornalismo em Portugal “não é assim muito positivo” e recordou que “o grande poder do jornalismo, a sua missão central, é a de denúncia e isso é igual nos planos nacional, regional ou local”.

“Há muita gente a fazer jornalismo que não é jornalismo e é ai que reside o nosso problema de credibilidade”, disse, considerando que “tem havido um enfraquecimento da imprensa local”. Sofia Branco acrescentou que “em Setúbal houve projectos que desapareceram, como o ‘Setúbal na Rede’, creio que por razões económicas, e entretanto houve outros que apareceram mas que sofrem dos mesmos problemas”.

A presidente do sindicato defendeu que a proximidade “pode ser o grande valor da imprensa local” e que “o risco de pressões também existe no jornalismo nacional”. Sobre a “crise de confiança” das pessoas nos jornalistas, a dirigente sindical aponta como causa o distanciamento em que os profissionais se colocaram.

“Estamos muito longe das pessoas, temos estado numa ‘torre de marfim’”, porque “tínhamos ideia do jornalista como detentor do poder de informar e não como intermediário, que efectivamente é”, afirmou Sofia Branco.

A responsável referiu ainda que outro problema da imprensa regional é que “nos anos 90 houve um esforço de profissionalização e agora está a haver um retrocesso” e sustentou que “a Carteira Profissional de Equiparado [a jornalista] não deveria existir” porque a classificação deveria ser apenas jornalista.

“A imprensa local e regional tem muito a fazer, para dar voz às pessoas”, concluiu Sofia Branco.

 

 

DIRECTORA-GERAL DA CIDOT – ESTÚDIO DE COMUNICAÇÃO

Marta Mimoso destaca importância da proximidade às pessoas na comunicação das grandes marcas

A directora-geral da CIDOT – Estúdio de Comunicação completou o painel sobre o tema ‘A comunicação empresarial das grandes marcas’ e complementou o que disse Márcio Cruz, quanto à preocupação de proximidade da CCEP (Coca-Cola) à comunidade.

“É importante que as pessoas saibam que 95% dos produtos destas 16 marcas são produzidos aqui ao lado”, diz Marta Mimoso. Para isso, na sua opinião, “é importante o papel da imprensa regional”.

“Não podemos deixar de fazer uma posta forte na imprensa regional se queremos chegar às diferentes regiões do país. Os restaurantes e bares são aos milhares em cada uma das regiões, assim como os consumidores, e nós queremos estar próximo. A CCEP faz uma comunicação de proximidade e isso passa por sermos capazes de fornecer aos jornalistas informação e matéria adequados de forma a que os nossos conteúdos despertem interesse.”, defendeu.

Marca Mimoso sublinhou que a empresa pretende, basicamente, “salientar os diferentes valores da portugalidade” e explicou como, através de dois exemplos.

Um foi o festival de gastronomia que a marca promove em todo o país, indo ao encontro das especificidades de cada região, e o outro exemplo é a iniciativa com que a empresa assinalou os 40 anos da produção da primeira Coca-cola em Portugal. Através da garrafa que é uma produção artística, que associação a efeméride à arte, e que a Coca-Cola está a oferecer a cada um dos distrito.

Em Setúbal a garrafa está colocada no Parque Urbano da Albarquel.

Exemplos de “como a Coca-Cola se preocupa em estar próximo das pessoas”, referiu Marta mimoso, acrescentando que se trata de uma estratégia que arrancou há dois anos e em que “há ainda muito a fazer”.

Marta Mimoso completou que a Coca-Cola não precisa muito de apresentação, é muito conhecida, pelo que a preocupação da comunicação é a “parte afectiva, a ligação às pessoas”, dai a estratégia de comunicação local.

 

 

PROFESSOR E INVESTIGADOR DO INSTITUTO SUPERIOR MIGUEL TORGA

Pedro Jerónimo aponta estagnação no jornalismo digital local

Pedro Jerónimo, do Instituto Superior Miguel Torga, abordou a questão da ‘Comunicação digital nos órgãos de comunicação social locais’ disse que, imprensa em Portugal, o papel continua a ser um suporte “privilegiado”, com a “produção pensada primeiramente para o papel” embora as plataformas digitais já tenham surgido há 20 anos.

Segundo o investigador o jornalismo digital no nosso país passou já por “quatro tempos”; a implementação do digital em 1996/97, a reacção no período entre 1998 e 2006, o boom de 2007 a 2009, e uma estagnação de 2010 em diante, que se mantém e caracteriza a situação do jornalismo digital local actualmente.

“O contexto digital poderia ajudar na proximidade, através da interactividade, escutar as pessoas, mas isso não acontece, e ainda acontece menos nos nacionais”, afirmou Pedro Jerónimo considerando ainda que entretanto, com a Internet “todos nos habituámos a consumir a informação gratuitamente”.

 

 

DIRECTORA DO JORNAL DO PINHAL NOVO

Cláudia Aldegalega pede “outro olhar” do Governo à comunicação social local

Directora do ‘Jornal do Pinhal Novo’ começou por referir que os jornais de distribuição gratuita, que viviam exclusivamente da publicidade com base no comércio local, com a crise económica, tiveram de procurar outras estratégias, como o preço de capa, mas que essa receita não é suficiente para a sustentação dos órgãos de comunicação. Cláudia Aldegalega pede a atenção de outras entidades, como as autarquias, e um “outro olhar” por parte do Governo.
“Um jornal local é também a voz das populações, muitas vezes a forma de as populações chegarem aos autarcas”, disse a responsável para quem o desafio da comunicação social local “também passa pelos jornalistas” que têm de ter “muita atenção com os textos que fazem”. Cláudia Aldegalega apontou o dedo à ERC por “certas decisões” que não deviam ser permitidas por não constituírem uma adequada regulação da actividade editorial.
“Não gostava que os jornais locais levassem o mesmo rumo que as rádios locais levaram”, disse.

EDITOR DO JORNAL ‘O SETUBALENSE’

Humberto Lameiras defende que imprensa é parte da comunidade local

Humberto lameiras, editor do jornal ‘O Setubalense’, recordou o papel da imprensa local defendendo que os jornais locais são “parte integrante” da comunidade local.

“Os jornalistas têm dever de informar a comunidade”. “Foi neste contexto que se formou e que tem carteira [profissional]”, disse o orador que integrou o painel ‘A comunicação social local – dificuldades e desafios’.

A proximidade tem o “problema”, o jornalista da comunicação social local, por estar mais próximo dos poderes, acaba por sofrer mais pressão”.

Um problema que exige uma “resposta global”, através da “ética”. Lameiras concluiu que a comunicação social local tem o “valor da proximidade”.

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