Mais de 40 constroem presépio comunitário em Santiago do Cacém

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Obra tradicional estará exposta a partir desta quinta-feira no antigo quartel de bombeiros. Estará patente ao público até 7 de Janeiro

A população de Santiago do Cacém prepara a realização de um presépio tradicional português que estará em exposição a partir de quinta-feira, 7, no antigo quartel de bombeiros da cidade.

A iniciativa surge no âmbtio de a arte do presépio tradicional português estar “a definhar” e a correr o risco “de se extinguir a breve trecho”, alertou o Centro UNESCO de Arquitectura e Arte (UCART), com sede em Santiago do Cacém.

O presépio está a ser construído sob a orientação do arquitecto Ricardo Pereira, da conservadora-restauradora Sara Fonseca e da pintora Raquel Ventura, com o apoio de 40 pessoas, entre adultos e crianças, uma equipa que inclui o escultor Vasco Tavares da Silva e o mestre serralheiro Gonçalo Cavalinhos. É composto por “centenas de figuras todas com mais de 50 anos, feitas em materiais tradicionais, e emprestadas pelas famílias da região”, tendo-se utilizado na montagem cortiça, troncos, bolotas e ervas aromáticas autóctones, assim como produtos fabricados no concelho, designadamente o papel colorido, segundo nota do UCART enviada à agência Lusa.

“À semelhança de outros tempos, o presépio foi ganhando corpo pouco a pouco, permitindo explicar não só como o montavam os nossos antepassados, mas também o que simboliza cada um dos seus elementos. Uma ‘escola informal’, fervilhante, da arte ‘presepística’, em que se transmitem, de geração para geração, os segredos de como se faz uma gruta, se monta uma cascata ou se dispõe a cavalgada dos Reis Magos”, segundo a mesma nota.

“Este é um presépio comunitário que recupera velhas práticas”, sublinhou à Lusa Sara Fonseca.

Tradição tem vindo a ser perdida

Para o historiador de arte José António Falcão, responsável pelo UCART, “quem estuda o fenómeno da descaracterização dos presépios, o problema não reside, como se chegou a temer, há alguns anos, na concorrência do Pai Natal ou das árvores cheias de bolas coloridas e flocos artificiais de neve que fazem parte do imaginário mais recente da quadra”.

“O que tem vindo a suceder realmente, nas últimas décadas, é uma perda acentuada dos traços distintivos dos nossos presépios, que abandonam a sua matriz e se tornam cada vez mais banais. Está em risco um património, material e imaterial, que precisa de mais atenção”, advertiu o responsável.

“O presépio português faz parte de uma rica tradição europeia, mas tem personalidade própria, em que marcam presença as cenografias baseadas em paisagens naturais, a multiplicação de cenas da vida rural e urbana, a alternância de escalas e o destaque conferido à Sagrada Família, que é o seu epicentro”, argumentou José António Falcão.

“Não se trata de manter a arte presepística como algo parado no tempo, há todo um espaço de inovação a valorizar, mas o que ocorre agora é a proliferação de uma amálgama de coisas sem sentido e sem gosto, que perturba inclusivamente a captação da mensagem de fundo do presépio”, defendeu.

Para o UCART, “assegurar o futuro desta arte, transmitir os seus preceitos aos mais novos e adaptá-la aos tempos de hoje são as chaves de uma iniciativa que transforma a construção de um presépio tradicional português numa ‘escola viva’ do ‘presepismo’”, envolvendo os moradores no centro histórico de Santiago do Cacém.

O presépio fica exposto até 7 de Janeiro próximo, no antigo quartel de bombeiros, que foi projectado pelo arquitecto Rafael de Castro, em 1931, onde existiu a capela de Santo António.

DIÁRIO DA REGIÃO com Lusa

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