A Loj(ic)a do Mestre André

Opinião

É um clássico infantil: mestre André tem uma loja de instrumentos musicais bastante afinados e desejados por todos quanto apreciam boa música. Fazendo face à inquietação e curiosidade comercial de um potencial cliente, há um menino que responde de forma objectiva: Onde compraste um pifarito, menino? “Ai olé, ai olé, foi na loja do Mestre André”; Onde compraste um tamborzinho, menino? “Ai olé, ai olé, foi na loja do mestre André”.

Poucos saberão, mas é possível que a letra desta música tenha ficado desactualizada muito recentemente. Porquê, pergunta o leitor mais atento? Vários cientistas da música e paineleiros do futebol português poderiam explicar, mas aquilo que o leitor precisa é de ler a opinião de um gajo a sério, que é aquilo que o leitor está a fazer e bem.

Resumidamente, os acontecimentos são estes: no passado dia 11, a equipa de Benjamins B do Vitória de Setúbal, liderada por André Vilanova, jogou e venceu o Comércio e Indústria num escaldante derby da cidade do Sado. Até aqui tudo certo, salvo o facto do primeiro golo do Vitória ter ocorrido quando o guarda-redes da equipa contrária estava a chorar no chão após uma bolada na cara. O árbitro não parou o jogo e o Vitória marcou. Gerou-se indignação. Foi então que, André Vilanova, o treinador do Vitória ordenou que a sua equipa marcasse um auto-golo, de forma a equilibrar o resultado e conferir um cariz mais justo ao encontro.

Peço a especial atenção ao leitor mais distraído porque é precisamente neste ponto que o futebol se substitui à música, na medida em que também pode oferecer outros bons conhecimentos para além de uma excelente cultura símia. É provável que, a partir de agora, a música em causa seja cantada de uma outra forma.

Atente-se que a questão inicial relacionada com a música deixa de ter um sentido meramente comercial e passa a ter um sentido mais lúdico: “Foi na loja do mestre André que eu aprendi sobre fair play. Ai olé, ai olé, foi na loja do mestre André. Foi na loja do mestre André que eu aprendi a ser um exemplo. Ai olé, ai olé, foi na loja do mestre André.”

Tão atraente quanto a questão da existência de unicórnios é o debate sobre o fair play. De um lado, os que têm cultura suficiente e valores bem enraizados e que defendem a existência do fair play, do outro, Jorge Jesus. Quem acompanha o universo futebolístico sabe que existem duas frases memoráveis, uma proferida por alguém que percebe muito sobre futebol, a outra, por Jorge Jesus: “O futebol são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha” – Gary Lineker ; “O fair play é uma treta” – Jorge Jesus. Em relação ao, digamos, treinador, lamenta-se que não tenha os conhecimentos suficientes de português que lhe permitam ler na íntegra as notícias que saíram na imprensa sobre André Vilanova e a sua pequena-grande equipa no que toca ao fair play.

No livro de crónicas sobre futebol, “A chama imensa”, a dada altura, o autor Ricardo Araújo Pereira diz que o futebol é demasiado importante para ser levado a sério. Concordo. Diria mais: indigna-me pessoas que levam a vida demasiado a sério. Isso e parvalhões que deixam frases a m…

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