ALCÁCER DO SAL | Produtores de arroz receiam ter de ficar sem cultivar em 2018

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Redução da quantidade de água armazenada nas barragens de Pego do Altar e de Vale do Gaio faz-se sentir há três anos consecutivos. Produção já havia sido diminuída entre 20 a 30% este ano

Os produtores de arroz de Alcácer do Sal, no Vale do Sado, receiam não poder cultivar em 2018 caso a seca de prolongue, depois de este ano terem reduzido “20 a 30%” da área semeada.

“Para o ano corremos o risco de não fazer nada”, disse hoje à agência Lusa o diretor do Agrupamento de Produtores de Arroz do Vale do Sado (APARROZ), João Reis Mendes, preocupado com a quantidade de água armazenada nas barragens de Pego do Altar e de Vale do Gaio, que abastecem os produtores de Alcácer do Sal.

A redução da quantidade de água nas duas barragens nota-se “desde há três anos”, o que levou à decisão dos produtores de semear arroz em menos “10 a 15%” da área em 2016 e “20 a 30%” em 2017, de um total de “5.500 a 6 mil hectares”.

Prestes a terminar a campanha de arroz, semeado nos meses de Abril e Maio e colhido entre Setembro e Novembro, a preocupação dos produtores é o próximo ano, em que temem não haver produção.

“Actualmente, a nossa perspectiva (para o próximo ano], se não chover, é zero”, afirmou o representante da APARROZ, que conta com 30 sócios e trabalha com “cerca de 170 produtores”, maioritariamente de Alcácer do Sal, mas também dos concelhos de Grândola, Santiago do Cacém e Montemor-o-Novo.

João Reis Mendes alertou que, caso a seca se prolongue, os efeitos vão sentir-se não só nos agricultores, “que têm despesas fixas e trabalhadores”, mas também podem afectar a “economia regional”, através das “actividades em redor do arroz”, como oficinas ou fornecedores de adubos, pesticidas e sementes.

Actividade pode valer cerca de 10 milhões

Com uma “produção média anual de seis toneladas por hectare” e com “um preço médio de 280 euros por tonelada”, o cultivo do arroz é uma das principais actividades económicas de Alcácer do Sal, que, quando explorados os seis mil hectares, pode chegar a valer cerca de “10 milhões de euros”.

“Há pelo menos 19 anos” que os níveis de água não estavam tão baixos nas barragens do Pego do Altar e de Vale do Gaio, tendo mesmo ficado descoberta este ano uma ponte, submersa numa das albufeiras, que não era vista fora de água desde 1999.

“A barragem do Pego do Altar tem um indicador muito bom que é uma ponte em rio Mourinho, que só aparece nestas alturas, já não aparecia há 19 anos e está a descoberto”, disse à agência Lusa Gonçalo Lince de Faria, coordenador geral da Associação de Regantes do Vale do Sado, entidade que gere as duas albufeiras.

Actualmente, as barragens “estão completamente em baixo, com valores entre os 8 e os 10% da capacidade e armazenamento”, indicou Gonçalo Lince de Faria, explicando que isso representa um nível de água disponível de “praticamente zero”, uma vez que não se pode “esgotar toda a água da barragem”.

A água destas albufeiras é usada maioritariamente por produtores de arroz, que representam “92 a 93% da área de perímetro de rega” e estão nesta altura em fase de colheita.

Caso o Inverno traga “chuva regular e contínua”, Gonçalo Lince de Faria acredita que, até à próxima campanha de arroz, que começa em Abril, os níveis de água podem ser repostos.

Embora a barragem de Vale do Gaio possa ser abastecida pela barragem do Alqueva, segundo o mesmo responsável, os sócios da Associação de Regantes do Vale do Sado, entre os quais estão cerca de 200 orizicultores, optaram por não o fazer, argumentando que “o preço [da água] para a cultura do arroz é muito elevado”.

A decisão foi ainda justificada por haver “algumas restrições a nível das condutas da EDIA [empresa gestora de Alqueva], que não permite dar resposta a grandes volumes no período da campanha do arroz”.

“Aquilo foi tudo montado para que o fornecimento aconteça no período do Inverno, que é quando a rega está parada e as condutas têm disponibilidade para tal, mas é um grande risco pedir água em Outubro, Novembro ou Dezembro e depois começa a chover e temos que jogar água fora àqueles preços, além da evaporação”, concluiu.

Lusa

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