Lisboa e a Outra Banda

Opinião
Jose Vinagre

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I

 

Neste texto-resumo da comunicação apresentada nas “7.as Jornadas de Toponímia de Lisboa”  focalizamo-nos nos territórios ribeirinhos da «Outra Banda» ou «Banda d’Além Tejo», na margem esquerda do Tejo ou «Margem Sul», opostos à nortenha Lisboa, em torno das suas operacionalizações e funcionalidades na zona estuarina potenciadas pela presença da capital. Abordaremos alguns aspectos dos recursos e funções do estuário desde o Gargalo do Tejo ao Mar da Palha[1] pela Outra Banda, procurando factos explícitos ou implícitos na toponímia dessa banda que se liguem ou projectem à história da cidade de Lisboa.

As designações da margem sul do Tejo mencionadas anteriormente, surgem na sequência da proximidade da capital e das relações entre as duas margens na «outra banda do tejo, no termo de Almada» (Doc. das Irmãs Carmelitas), com os fornecimentos dos «moinhos da banda dalém» (Regimento dos Barcos) ou «d’além Tejo, [onde] está a vila do Seixal» (Gaspar Frutuoso). A partir do séc. XV, em período de epopeia marítima a margem sul do rio é considerada a «cintura industrial» da capital, consideração justificada pela actividade que desenvolve em função do momento e proximidade de Lisboa-capital.

Sem nos atermos a uma enunciação saturada de presenças humanas em torno do Tejo e estuário, registamos concheiros (Ribatejo) e comunidades afins (Moita, Barreiro), vestígios de feitoria fenícia no Almaraz (Almada) e vestígios de mais de duas dezenas de tanques romanos como em Cacilhas e Casa dos Bicos. Interessa referir, de forma um pouco particular, as ligações a Ulissipo/Lisboa na margem sul: i) Na extrema Este, através do porto romano de Rio Frio, conhecido por Porto dos Cacos, embora ele apoiasse industria local de ânforas; essa antiga ligação, no séc. XIX ainda deveria fazer serventia de transposição para a capital, pois a sua linha de água com ligação à Ribeira das Enguias ainda era praticável. ii) Em extrema oposta a essa linha de água, na ribeira de Coina, havia a ligação do Roteiro Antonino, por Setúbal a Equabona (Coina), como local de passagem para a cidade de Olissipo ou Felicitas Augusta. iii) Na memória profunda dos tempos, outra estrada, a Estrada dos Hespanhóis, direcionada do Sul e interior da Hispânia à capital, levando aos portos da Moita e seguintes para transbordo a Lisboa, por exemplo no Moinho do Cais ou Cais Velho, em Alhos Vedros, terá sido caminho suplementar dos principais roteiros romanos. iv) Outra estrada, a «estrada real» que ligava os passantes do Sul e Espanha a Lisboa pela Ponta do Montijo/Póvoa do Montijo (local na extrema ocidental da BA6), apoiada no serviço de mala-posta, a Posta do Sul (1533), com toponímia na Quinta das Postas e rua das Postas, desviada no séc. XIX para o Cais de Pedra ou dos Vapores, de Aldeia Galega (actual Montijo), também nos deixa perceber como se fazia a ligação à antiga cidade de Lisboa. v) Frente à cidade, na tal outra banda de Almada, a serventia era feita pelo porto da Arrábida; no primeiro foral de Almada (1190) a importância da transposição do rio é agraciada como foro de cavaleiro.

O topónimo Coina (antiga Equabona) terá resultado de uma deslocação de populações e/ou desdobramento de antiga localização de Coina, na Arrábida, próximo da Aldeia da Piedade, conhecida por Coina-a-Velha, onde existe vestígios de castelo, talvez um «hishn» muçulmano. Algumas informações, na Idade Média, mostram que a chamada «estrada velha» de Almada para Palmela (NO-SE) não passa por Coina-a-Velha, local mais afastado da beira-rio e de Equabona (Coina) que terá sido desde os tempos romanos fim de jornada terrestre do Roteiro Antonino, e daí se transbordava para Lisboa. Função que poderia desempenhar muito antes: Amaral&Amaral, lêem o topónimo Equabona religando-o a Lisbona (= cidade fortificada), pois o celta Ekua faz referência a local «abaixo de, fora de». Portanto local fora de uma povoação, abaixo da cidade de Lisboa. E essa função de transporte para a cidade de Lisboa, manteve-se durante séculos: no Porto de Coina «costumam transportar povos para a Corte» (1758). Coina foi «cais pryncipal» para Lisboa até ao séc. XVIII, período em que perde importância para a Moita, como relatam as «Memórias Paroquiais». Em 1813 ainda se faz menção topográfica, aí, de um Porto del Rey.

 

 

 

II

 

Para nós este tema, «Lisboa e a Outra Banda», deixa em aberto muitas abordagens em torno do estuário e da capital. Como já referimos desde a Antiguidade que se registam presenças Fenícias e Romanas, a própria cidade terá sido lendariamente fundada pelo grego Ulisses (torre do castelo de S. Jorge, se diz de «Torre de Ulisses»). Durante o domínio muçulmano o porto de Al Ushbûna terá acentuado o seu cunho e reanimado; desse período temos designações toponímicas de vigia e defesa a Lisboa/Tejo sinalizados nos topónimos Atalaia (Montijo, Seixal) e Arrábida (Almada, Setúbal). A conquista de Lisboa, por D. Afonso Henriques, em 1147, e a doação da outra margem à Ordem de Santiago, em 1186, dá origem a um período correspondente de transposição e reordenamento dos espaços da margem sul e Península da Arrábida, cuja reactivação é feita em função da proximidade de Lisboa fornecendo então o recém-criado concelho de Ribatejo («Ripa Tejo») (o certo era continuar a designar os lugares por Moita do Ribatejo, Aldeia Galega do Ribatejo), entre o Rio Coina e o Rio das Enguias (Alcochete), vinhos do Barreiro, leite e lacticínios, lenha, etc. Até hoje esta ligação, estas trocas ou fluxos se mantêm,… Alguns exemplos e denominações atestem o intercâmbio, o fluxo, entre margens: a «Barca de Aldeia Galega», uma das barcas de lenha para Lisboa ou a dita «barca que vem do Ribatejo» (1392) para Lisboa.

Para além das trocas as inevitáveis e superiores presenças senhoriais, fidalguias ou privilegiadas resultado da apropriação dos territórios conquistados desde a Idade Média, distribuídos ao sabor dos tempos e poderes, desde então: Paio Peres, Quinta de Martim Afonso, a família Gama, Mendonça Furtado, a Quinta do Conde, … ou as quintas fidalguias, solares barrocos de «veraneio» e lagos artificiais (Ex. Quinta da Fidalga) da aristocracia lisboeta e Corte.

Do reinado de D. Fernando (lembra as muralhas fernandinas de Lisboa e «Cerca de Almada» (1373)) a Afonso V, a esquadra real é resguardada das intempéries em Coina e Cacilhas. No período das Descobertas funcionam no Seixal/Rio Judeu e Telha/Barreiro estaleiros da designada Ribeira das Naus, aí, defende Frederic Mauro, se concluíam as embarcações iniciadas no verão em Lisboa. Sobre o período dos Descobrimentos no «Dicionário Geográfico», é dito que «a primeiyra Ribeira das Nãos foi neste logar (Seixal) e dele passou a dita Fábrica para o lugar da Telha», sendo aí conhecida por Ribeira das Naus da Telha. E, segundo Azurara, a azáfama para a conquista de Ceuta era tão grande que de Lisboa se ouvia «claramente o ruído» dos trabalhos na margem ribatejana, além Tejo. A exploração de madeiras para a gesta marítima, por exemplo o sobro (top. Azinheira) e sobreexploração do recurso levou ao desaparecimento de mata na grande área da Caparica, resultando talvez em terreno charneco (Charneca da Caparica?).

Outros testemunhos do período dos Descobrimentos, na margem sul, são os fornos de Val de Zebro ou Complexo Real de Val de Zebro, onde se fabricava o «biscoto» que fornecia as armadas portuguesas. Outro apoio era o forno de cerâmica da Mata da Machada, onde se produzia os chamados «pão-de-açúcar».

A defesa da cidade, capital do Império, representa uma conjugação estratégica entre as duas margens, presente nas fortificações a sul: Forte da Fonte da Pipa, Fortim da Banática e Torre Velha da Caparica (Porto Brandão) mandada erguer por D. João II, a qual fazia fogo cruzado com a Torre de Belém impedindo o acesso ao porto de Lisboa.

Voltamos ao medievo Concelho de Ribatejo, para deixar registo toponímico que se pode revelar interessante. O concelho tinha os seus extremos em Coina e Alcochete. Ambas as extremas mencionadas são zonas de esteiros, alvéolos, enlamados e apantanados. E ambas se denominavam de Chacoteca (ver, «Carta de Portugal» de Álvaro Seco, 1561 e «Doc. de Santos» in: Fortuna). Entendemos estar na presença de expressão aportuguesada designativa do espaço cuja origem estará no árabe  Xat-al-Tek (Xatt=margem; Tek=corrente), como no Chat al Árabe (= costa dos árabes) (Costa do Tejo? Margem do Tejo?).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III

 

A Margem Sul foi local panorâmico de bons ares para fidalgos e reis que se deslocavam da Corte lisboeta para a outra banda: «Lisboa vista d’aqui… É belo!», exclamaram em 1892, do Alto de S. Sebastião (Moita). Com o mesmo sentido temos os topónimos Q.ª da Bela Vista (Amora) e  Miratejo de Corroios.

Por aqui permaneciam temporariamente reis e rainhas como atestam as designações Quinta da Princesa (em 1350),  «Castello» da Infanta no Seixal (1813) ou o antigo Paço Real do Alfeite de  D. Pedro V, Real Sítio do Alfeite e Tapada Real do Alfeite do reinado de D. Carlos; o povo tem na sua memória que os «Lagos de Maré» (no Alfeite) eram antiga piscina de D. Amélia, visto perto haver ruína que dizem ser cocheiras e casas de caça de D. Carlos.

Até nas grandes festividades da margem sul a cidade de Lisboa partilha influências. Uma das mais concorridas festividades da margem sul, o Círio da Atalaia ou «Festa Grande», em Agosto, em cujo espaço da Atalaia (Montijo) está presente um cruzeiro quinhentista, tem na sua génese a Confraria de Lisboa dos Oficiais da Alfandega (1507); a festa também era animada pelo Círio dos Pretos (Lisboa) e Círios Reais de D. José. No Barreiro a festividade de N.ª S.ª do Rosário teve origem numa Confraria de Escravos (Lisboa); a imagem  vinha de Lisboa da igreja de S. Domingos, transpunha o rio num escaler e acostava ao Cais do Rosário.

Da Outra Banda, como temos referido, o sal, o pescado, a moagem, o vinho, as hortaliças, a lenha, retirada de matas e pinhais (Ex: Pinhal de Frades), os portinhos das industrias instaladas na margem sul carregando para Lisboa (por ex: o específico Porto do Samuel/Montijo do latifúndio agro-industrial de Rio Frio), as ligações fluviais, ferroviárias e as suas pontes e movimentos pendulares ao presente valeram à margem sul, entre outras, a designação de «região abastecedora» de Lisboa. Jorge Gaspar observou que o espaço agrário à volta, foi definido em função do mercado de Lisboa. No transporte fluvial do Tejo a fragata, conhecida por «carroça do tejo», tudo transportava para Lisboa e seus cais (lenha, cortiça, animais). Segundo J.Cruz (1924) ( cit. na bibliografia), na Moita o abastecimento a Lisboa de pescado, marisco, sal, lenha impôs uma «carreira fluvial» para a capital.

Na Ponta da Mexilhoeira (Barreiro) eram apanhados bivalves para o Mercado da Ribeira de Lisboa/C. Sodré, também abastecido pelas «enviadas» das muletas barreirenses que ai vendiam o seu pescado de entre-cabos (Espichel-Roca); devido à pesca feita por barreirenses, em muletas, «além barra» (onde permaneciam semanas), esse mar ficou conhecido por Mar das Muletas e o seu local de permanência por Barreiro (significando os homens da  pesca na «barra»). Em 1254, Afonso III isentou  pescadores e peixe que fosse para vender em Lisboa. Também eram importantes as «catraias» no transporte de peixe que vinha da piscosa Sesimbra.

Os navios das diferentes nações que ao porto e estuário de Lisboa vinham carregar, acomodavam recursos da margem sul nos seus porões: o sal desde a Idade Média para a Europa do Norte ( que pagou os fretes da armada de Ceuta); em 1777, do Laranjeiro (Seixal) saía a melhor laranja para Inglaterra; na margem sul havia ligação fluvial ao transporte de hidroavião que se fazia na área da actual Expo’98 (no Clube Náutico de Sarilhos Pequenos encontramos documentos fotográficos e testemunhos vivos)os pinhais escoavam matéria prima para Lisboa, mas também para a Inglaterra para escorar minas. Singular é o «bote do pinho» para Lisboa, carregando madeira, lenha e rama para alimentar os fornos industriais. Na Idade Média, D. Fernando terá mandado plantar pinhais, e outros foram-se plantando até ao séc. XIX e recebendo várias designações, – Pinhal de Negreiros, Pinhal do Concelho (Alcochete); Pinhal Novo …-, atestando a permanência desse recurso até à electrificação dos fornos industriais lisboetas. Sarilhos e sua classe marítima viviam do transporte de lenha de pinho para a capital; o último frete terá sido feito pelo varino Palmira, em 1965; a electrificação de fornos e a camionagem substituíram os varinos. As «Memórias Paroquiais» referem Samouco e sua lenha por ter matos, como atesta o topónimo Ermida da Senhora da Conceição dos Matos. Em 1813 está cartografado em Alburrica (Barreiro) o Moinho do Cabo da Lenha. Faz parte deste tipo de transporte, como já registámos, a Barca de Aldeia Galega.

Em 1757, a irmandade dos Frades Jerónimos de Belém tem forno de cal, na outra banda, para abastecer obras na capital; em 1813, o topónimo «Bellém» ainda está registado em carta geográfica; próximo temos a designação Forno da Trindade (Azinheira- Seixal).

Em Paio Pires, no Porto das Mós, as carretas descarregavam mós para os moinhos do Mar da Palha. Em toda a Banda d’Além, entre Almada e Aldeia Galega/Montijo, havia 60 moendas (Gaspar Frutuoso) que ainda laboravam em 1924. Em 1860, a Câmara Municipal de Lisboa registou 34 barcos de moinho.

 

De Lisboa chegavam ao Portinho da Trindade calcários e o Arsenal da Marinha de Lisboa foi transferido para o Alfeite (Almada).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV

 

Também de Lisboa eram direccionados para a margem sul os lixos, ditos «lamas», com a função de fertilizar terras desde o séc. XVIII; ao longo do litoral ribeirinho a memória toponímica certifica-nos da existência passada de diferentes pontos de descarga desses lixos: são os conhecidos Portos da Lama, como no Matão/Moita e em Coina, onde permanece a conhecida história do Palácio do Rei do Lixo, na Quinta do Inferno (cuja simbólica é maçónica, por influência de proprietário).

Atesta esta ligação, que o estuário quer siamesa, os portos ou cais que marcam a zona ribeirinha da capital, indiciando fluxos entre margens: Cais de Aldeia Galega (1456), o Cais de Santarém, com rua do mesmo nome, o Porto da Madeira onde encostaram durante séculos barcos de pinho, varinos de lenha e «metano» (rama de pinho, em Pinhal Novo) para fornos.

Em 1719 a Real Fábrica de Vidros Cristalinos de Coina passa para Lisboa. Por vezes se diz que foi a primeira indústria de vidro, desde o séc. XV, perdurando o seu conhecimento na designação local Cova do Vidro (em Coina, também temos Covas de Coina).

Lisboa, a capital do Império, emprestou o seu prestigiado nome às indústrias sediadas na outra margem, como se a cidade fosse só uma, em torno do estuário, onde um «cordão» de vilas industriais (Almada, Paio Pires, Barreiro, Montijo), com cais privativos, como diz Orlando Ribeiro, fez da Outra Banda um «arrabalde fabril de Lisboa», lembrando-nos a sua designação de cintura industrial, herdada do séc. XV. Assim temos a Lisbon Fresh Water Supply/ Água Doce de Lisboa  (1936) na Amora, ou Sociedade Abastecedora de Lisboa com serventia ao Cais da Lisbon Water; uma das secas de Bacalhau, a da Ponta dos Corvos, denomina-se Sociedade Lisbonense de Pesca do Bacalhau… Nas vilas mencionadas outras indústrias se instalaram.

No séc. XIX as políticas regeneracionistas e o fontismo procuraram dotar o país de políticas industriais e agro-industriais espelhadas no acontecido na Inglaterra desde o séc. XVIII e pela Europa. Os Caminhos-de-ferro do Sul e Sueste (Barreiro), na 2ª metade da década de 1850, inaugurados oficialmente em 1861, passam a ser o moderno meio de transporte e ligação à capital, anulando as antigas estradas dos Hespanhóis e  a estrada real de Aldeia Galega, e assim caiem os portos de ligação fluvial de Aldeia Galega, Moita e Alhos Vedros; surgem as estações ferroviárias no termo da linha, do Barreiro A (ou «Barreiro-terra») e Barreiro–Mar com ligação fluvial a Lisboa ou passagem sobre o rio para o Seixal (ainda hoje a praia fluvial é conhecida por Praia da Estação dos Caminhos-de-Ferro). Ao mesmo tempo desenvolve-se um grande estabelecimento agrícola no Rio Frio, onde se faz o escoamento directo de vinhos para o mercado de Lisboa, por barco, pela Vala dos Barcos até ao Tejo.

Com a explosão industrial-tecnológica permaneceu durante muito tempo, desde a 2ª metade do séc. XIX, a ideia e possibilidade de ligar ambas as margens com ponte sobre o Tejo, com tabuleiro ferroviário. Hoje tal já acontece com as pontes 25 de Abril, vulgo sobre o Tejo (1966, ponte Salazar) e Ponte Vasco da Gama (1998), sendo recente a utilização ferroviária da primeira.

A margem sul ou outra banda, pelo que exemplificámos, foi sendo olhada ao longo da história de formas diferentes conforme a perspectiva e usufruto que a Lisboa cidade, capital e Corte fizeram dela. Foi para Lisboa: i) «zona de usufruto»  das suas paisagens, zona de caça e de bons ares como aconteceu em torno do Alfeite/Almada; ii) «região abastecedora» de peixe, fruta, farinha, lenha… ou até, se quisermos, do mercado interno e externo afecto  ao porto estuarino de Lisboa; iii) foi «cintura industrial», assim considerada desde o séc. XV (moagens, portinhos, fornos) até ao séc. XX com a instalação de diferentes indústrias no Barreiro, Moita e Montijo (Arsenal, Siderurgia, Shell, Petrogal, Fisipe, Cuf, cortiças); foi «subúrbio» e  «periferia» onde se estabeleceram migrantes sulinos na industrializada Barreiro ou em zonas residenciais como Baixa da Banheira ou Almada («Bairro de Lisboa») para se deslocarem para a capital, em movimentos pendulares ainda hoje presentes, dando a designação de «dormitório de Lisboa» a algumas terras; foi considerada uma zona «equivalente à zona saloia», por ser abastecedora  da capital. Por tudo isto dito e escrito a banda da margem sul, tem sido um «território complementar» da banda de cá, ou seja, de Lisboa, servindo até a sua travessia em barcos «cacilheiros» (Cacilhas, margem sul) de mote à cultura e poesia alfacinha.

 

Bibliografia: AMARAL, João & AMARAL, A. Ferreira (1997);CRUZ, Maria Alfreda (1973); DIAS, Mário Balseiro (1958); DIAS, A. Antunes & MARQUES, José M. Silva(1999); LUCAS, Isabel Maria Mendes, 1992; MENDES, P.de Francisco José dos Santos (2012); MEDEIROS, Eulália de & GUINOTE, Paulo ; OLIVEIRA, Nicolau (1992) ; VARGAS, José Manuel (2005) ; LIMA, Manuel (1997) ; FORTUNA, A. Matos de (2002) ; MARQUES, Luís (2006); «Um Olhar sobre o Barreiro »; VINAGRE, J. Augusto (2003; 2011).

 

[1] Designação tirada do facto de os barcos que desciam o Tejo, em dificuldades, aí libertarem volumes de palha, dizem os marítimos na margem sul.

2 comments

  1. O todo sem a parte não é todo;
    A parte sem o todo não é parte.

    Chama-se a Atenção para :

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    A reposição da conectividade fluvial
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    A valorização do património humano e edificado para o desenvolvimento das populações e regiões ribeirinhas
    O acompanhamento do PGRHT de 2015/2021 e o 3º Ciclo de Planeamento
    O risco de contaminação da bacia do Tejo pelas cinzas dos grandes incêndios
    A construção do novo aeroporto no Montijo e a afetação dos ecossistemas estuarinos e da Reserva Natural do Estuário do Tejo
    O colapso do Mouchão da Póvoa .

  2. Caro Caria

    Obrigado por ter completado o meu texto de uma forma bastante interessante, introduzindo a temática eco-ambiental, num grito de alerta que nós, muitas vezes, não queremos ouvir (como na floresta/incêndios).
    Continue. Este seu pequeno texto sobre o TEJO tem um valor inestimável. Parabéns!
    Accione sempre a sua consciência.
    Abraço.

    J. Augusto Vinagre

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