O que é a realização pessoal?

Opinião
Rosa Duarte

Rosa Duarte

Mestre em Estudos Portugueses
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Esta coisa da realização pessoal já fez correr muita tinta e já deu muita dor de cabeça a muita gente.
Não parece, pela sua inerente legitimidade, mas é verdade.
Com o progresso das sociedades e das mentalidades, cada vez mais o indivíduo se tem confrontado com a ideia da sua (possível) realização pessoal. Uma questão que facilmente é associada a conceitos ligados à boa vivência humana como a felicidade, a harmonia, o prazer de existir, entre outros.
Dá vontade de interpelar o leitor que neste momento está a ler este texto sobre a sua realização pessoal. Dado que este texto é escrito e não interativo, se assim o entender, pode aproveitar o fim deste parágrafo para pensar um pouco sobre isto (se não se incluir no círculo de pessoas esclarecidas sobre este assunto).
Perdoem-me, mas eu vou aproveitar este momento. Confesso que às vezes penso nisso, e isso faz-me bem, mas ainda tenho sérias dúvidas sobre a minha realização pessoal. Posso no entanto adiantar, sem grande margem de erro, que a minha realização pessoal é muito mais do que o estudo e a prática que gosto de fazer sobre a poesia, a música, a escrita, a pintura.
Posso provavelmente presumir que a realização pessoal passa por algum exercício de autoconhecimento necessário para preparar o sucesso de cada atividade individual.
No entanto, vem-me, por exemplo, à ideia palavras como as proferidas há dias por Steven Spielberg quando este, em entrevista, admitiu que não é dado a exercícios de autoconhecimento e que tem dificuldade em falar de si próprio. Que só os seus filmes poderão autorretratá-lo.
Apesar disso, penso, todavia, que é inequívoco o facto de ser crescente a consciência individual do universo do ser e a urgência de tomar autoconhecimento dos talentos e/ou dos interesses pessoais (que não são, pois, sinónimo de realização pessoal).
Daí que falar de realização pessoal também implique naturalmente falar das várias facetas de cada experiência de vida, ou seja, ao nivel da família, da profissão, da participação cívica, artística, desportiva… que se pressupõem ora com sucessos ora com fracassos ora com investimentos de esforço q.b., ora nem por isso…
Logo a realização pessoal pode acontecer. Passar de mera meta. Que deve acontecer. Que depende (não só mas também) do próprio. Pode prolongar-se ao longo de uma existência humana. Como pode ficar comprometida de um dia para o outro.
A realização pessoal deve assim significar um estado elevado de bem-estar e bons períodos de felicidade. Duradouros ou não…
Então porque é que um ser humano aplaudido, que deu o seu melhor e foi muito bom numa desterminada atividade reconhecida, pode não se sentir confortável/feliz com a vida que tem?
Será a velha máxima do amor conjugal correspondido ser determinante para a chave da realização pessoal?
Ou sempre é Fernando Pessoa que tem razão e a consciência da existência humana provoca inevitavelmente a dor a quem pensa e é impossível a realização feliz dos seres que têm existência efémera e intrinsecamente insatisfeita?
«Ela canta pobre ceifeira/Julgando feliz talvez».

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