Eleições autárquicas? Nem lá ponho os pés!

Opinião

Infelizmente, demasiados munícipes dizem isto.

Que foi feito das enormes esperanças na Democracia que o 25 de Abril de 1974 nos deu?

 

Caro leitor, ouve-se frequentemente a frase do título a demasiadas pessoas (nos locais de trabalho, cafés, supermercados ou nos encontros casuais de rua) sempre que se fala das eleições autárquicas. Entristece-me que se tenha chegado a isto, quando, após o 25 de Abril de 1974 (O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio, como disse a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen), renasceram tantas esperanças de participação política e empenhamento cívico e de tomarmos nas nossas mãos a resolução dos problemas e necessidades colectivos (de âmbito nacional ou autárquico, este mais fácil porque mais perto dos cidadãos). Que foi feito desses sonhos? Foram desmesurados para o que somos como povo, como colectivo? Ou foram os (des)caminhos a que nos deixámos conduzir (e que, tantas vezes, alimentámos com o sectarismo politico-ideológico ou com a indiferença) que nos fizeram perder o rumo certo? As elevadas taxas de abstenção eleitoral são lamentáveis mas nas autarquias ainda são mais, pela proximidade e conhecimento directo dos autarcas, assim como das mais óbvias necessidades e problemas dos munícipes (aparentemente de mais fácil resolução devido à sua mais reduzida escala e menor complexidade). Isto levou-nos a pensar que a abstenção autárquica seria, também, mais baixa: mas é, precisamente, o contrário, sempre foi mais alta.
A que se deve este alheamento dos cidadãos/munícipes para com o poder que lhe está mais próximo? Na minha modesta opinião, essencialmente a três factores:
1) – À falta de sensatez, honestidade e ao oportunismo político de muitos dirigentes partidários nacionais, que misturam os dois planos da acção política (nacional e local, dando às eleições locais um significado nacional, o que acaba por desvalorizar o local: discute-se o défice, a dívida, um acontecimento politico-mediático na moda em vez da gestão e dos projectos locais e, até, regionais que visem o desenvolvimentos dos territórios e a melhoria da vida das pessoas). O que confunde e desmotiva os cidadãos/munícipes e cria um clima de guerrilha política permanente, estéril e dispensável. Ao longo dos 41 anos de poder autárquico democrático tem-se aproveitado o palco mediático das campanhas eleitorais para nele se visar o governo nacional em funções a cada momento, descredibilizando-se bastante a política, em geral, e a política autárquica, em particular.
2) – À acção nefasta de muitos autarcas que, das mais variadas formas, defraudam diariamente as espectativas dos munícipes. E que se descredibilizam devido à ineficácia e ineficiência dos serviços que dirigem, desorganizados, anacrónicos, sobredimensionados, com funcionários a atrapalhar- -se uns aos outros e a atrapalhar-nos a vida, enquanto faltam noutros serviços. Quem não esperou meses pela resposta a uma solicitação ou requerimento, por vezes em clara infracção da lei que estipula um prazo razoável para essa resposta? Quem não verificou o desleixo, o tempo de espera e os gastos feitos para se resolver um pequeno melhoramento na via pública? Quem não se perdeu na burocracia kafkiana das normas e regulamentos que só servem para nos infernizar a vida? Em artigos anteriores relatei casos de bradar aos céus, pelo que me escuso de os repetir.
3) – À fraca cultura política e cívica de demasiados cidadãos, materializada na sua atitude em relação ao que é colectivo, pois entendem que não pertence a ninguém, portanto, não têm de ser respeitado. Quem não sente a obrigação de respeitar o que é colectivo como sentirá o dever de participar na sua gestão, votando?
Daí a elevada abstenção, em geral, e, no nosso distrito, em particular, a mais alta do país, o que fragiliza a legitimidade política dos autarcas eleitos, especialmente nas cinco câmaras em que obtêm menos de 20% de votação do eleitorado. No entanto, a solução nunca será a abstenção.

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