D. Manuel Martins (1927-2017)

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Bispo emérito de Setúbal faleceu aos 90 anos. Fica para a história como o ‘bispo vermelho’. Funeral realiza-se na terça-feira e o corpo estará em câmara ardente a partir desta segunda-feira, 25, de manhã

Manuel Martins, bispo de Setúbal entre 1975 e 1998, morreu ontem, Domingo (24), aos 90 anos, informou a Diocese de Setúbal. O comunicado da Diocese de Setúbal informou que Manuel Martins “faleceu hoje, às 14h05, acompanhado dos seus familiares e após receber a Santa Unção” de um pároco local, sem referir o local da morte.
“Deus acaba de chamar a si o primeiro Bispo da Diocese da nossa Diocese de Setúbal, D. Manuel Martins. Acompanhamos, em oração, este particular momento da nossa Igreja diocesana e, assim que possível, serão dadas mais informações.”, refere o documento.
A diocese sublinha que Manuel Martins foi o primeiro bispo de Setúbal, nomeado em 1975.
Manuel Martins chegou a ser conhecido por “bispo vermelho”, durante a crise dos anos 80, pelas denúncias que fez de situações de pobreza e de fome na região.
Nascido em 20 de Janeiro de 1927, em Leça do Bailio, Matosinhos, Manuel da Silva Martins estudou no seminário do Porto e, mais tarde, na Universidade Gregoriana, em Roma.
Foi pároco de Cedofeita, nos nove anos de exílio do bispo do Porto António Ferreira Gomes (1960-1969), durante o Estado Novo, e foi vigário geral após o regresso do prelado.
Em 1975, um ano após o 25 de Abril de 1974, foi o ano da nomeação de Manuel Martins para bispo da diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998.
À família enlutada e à Diocese de Setúbal, o DIÁRIO DA REGIÃO apresenta sentidas condolências.

Missa em Setúbal e funeral em Matosinhos

As exéquias fúnebres de D. Manuel Martins se celebram amanhã, terça-feira (26), pelas 15h00, no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos. O corpo estará em câmara ardente no Mosteiro, a partir de desta segunda-feira, entre as 9h00 e as 24h00, e terça-feira, entre as 9h00 e as 12h00.
Em Setúbal, realizar-se-á a missa de sétimo dia, no domingo, 01 de Outubro, pelas 16h00, na Sé.

O “BISPO VERMELHO” QUE ESTUDOU EM ROMA

“Nasci bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal”

Manuel Martins ficou conhecido por “bispo vermelho”, na crise dos anos 80, pelas denúncias de pobreza e de fome no distrito de Setúbal.
Nascido em 20 de Janeiro de 1927, em Leça do Balio, Matosinhos, Manuel da Silva Martins estudou no seminário do Porto e, mais tarde, na Universidade Gregoriana, em Roma.
Foi pároco de Cedofeita, nos nove anos de exílio do bispo do Porto António Ferreira Gomes (1960-1969), durante o Estado Novo, e foi vigário geral após o regresso do prelado.
Em 1975, um após o 25 de Abril de 1974, foi nomeado bispo da diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998.
“Nasci bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal”, disse no dia da ordenação episcopal aquele que foi o primeiro bispo da diocese – criada a 16 de Julho de 1975, em pleno `Verão Quente´ do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) – e que acabou por se tornar uma voz incómoda para o poder político da época.
Para Manuel Martins, desses primeiros anos da sua passagem por Setúbal ficou um sentimento de dever cumprido e a convicção de que deu o seu melhor na luta pelas causas dos mais desfavorecidos.
“Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me”, recordou Manuel Martins, enquanto partilhou, com a Lusa, em 2016, algumas histórias desses tempos conturbados.
Nessa conversa com a Lusa, recordou um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro, Mário Soares.
“O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que ‘se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome’”, lembrou.
Existia mesmo “fome em Setúbal”, assegurou o ‘Bispo Vermelho’, que é considerado um dos principais responsáveis pela acção que a igreja católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos.
Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Acção Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, e da secção portuguesa da Pax Christi.
Após a resignação, continuou a fazer conferências e palestras, sendo objecto de vários livros, como “História de uma Crise – Grito do bispo de Setúbal”, do jornalista Alcídio Torres, e o próprio também escreveu “Pregões de Esperança”, editado em 2014 e apresentado pelo ex-Presidente Ramalho Eanes.

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