Cais dos Vapores, um passado que não volta

Opinião
Catarina Marcelino

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Dirigente do Partido Socialista
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A proposta da CDU de repor o transporte fluvial no Cais dos Vapores, leva-me a pensar que só podem existir duas motivações para tal promessa: ou que há uma incapacidade em perceber que a realidade se alterou profundamente nos últimos 20 anos ou então, que não passa de um jogo eleitoralista que se apropria de sentimentos e recordações de algumas pessoas, capitalizando votos através de um efeito saudosista.

Esta proposta, cerca de duas décadas depois do cais ter sido deslocado para o Seixalinho, é utópica e sem qualquer possibilidade real de concretização.

Os argumentos aduzidos pela CDU, de que a volta do Cais dos Vapores traria mais pessoas ao centro da cidade e que reativaria o comércio é um logro. A ideia de que as pessoas chegam no barco ao final do dia de trabalho e vão às compras à Praça da República e à Rua Direita não corresponde à realidade, porque as pessoas que chegam neste horário de maior movimento, entram no carro ou no autocarro e vão para casa fazendo compras nas grandes superfícies ou no comércio de bairro das novas centralidades.

Por outro lado, o número de carros que hoje estacionam no parque do cais do Seixalinho é 3 a 4 vezes superior aos carros que estacionavam junto do Cais dos Vapores quando os barcos atracavam ali na década de 90 do século passado. Mesmo nessa época, já existia um grave problema de estacionamento na zona ribeirinha. É totalmente impossível acomodar no centro do Montijo os 1500 lugares de estacionamento que existem hoje no Seixalinho.

Também é bom lembrar os aspetos ambientais em causa. Se por um lado passou a haver um assoreamento da cala, também não é menos verdade que os muros do rio sofreriam uma erosão acrescida pela passagem diária dos catamarãs, pondo em risco as paredes do rio e os sapais. Se a dragagem pode ser retomada a qualquer momento, a destruição dos muros do rio seria definitiva. Do ponto de vista ambiental a passagem do cais para o Seixalinho trouxe a preservação do nosso património ambiental e da biodiversidade dos sapais, gerando ainda a oportunidade de criar espaços de lazer, como o passadiço do Seixalinho até á zona ribeirinha da cidade ou as piscinas de água salgada junto ao rio, propostas que o Partido Socialista apresenta no seu Programa Eleitoral.

O Cais do Seixalinho é uma boa solução, que tem boas infraestruturas, e que responde hoje, em 2017, às necessidades dos movimentos pendulares diários da travessia do Tejo.

O que precisamos é de continuar a melhorar as infraestruturas e a qualidade do transporte fluvial e de acesso ao Cais do Seixalinho. Esse deve ser o desafio que nos deve convocar, através de medidas como a gratuitidade do parque de estacionamento, negociada e concretizada pelo atual Executivo Socialista, que poupa aos munícipes um valor correspondente a 2 ou 3 depósitos de combustível por ano e que retirou dos arrabaldes junto à estrada centenas de carros mal estacionados.

Mas não podemos esquecer o facto de, em 2021, na Base Aérea nº6, ir nascer o novo aeroporto. É incontornável que o aeroporto terá como uma das principais acessibilidades à cidade de Lisboa o transporte fluvial. Neste novo contexto, o Cais do Seixalinho será peça chave de um interface de transportes.

O que me surpreende é o facto de forças políticas que dizem constituir-se enquanto alternativa de poder ao PS no Montijo, tenham, por um lado uma visão passada quanto à localização do cais fluvial e dos benefícios para a cidade e, por outro lado, não apresentem uma única proposta sobre as necessidades de adaptar o território à vinda do novo aeroporto que é uma peça fundamental de desenvolvimento, para a Cidade, para o Concelho e para a Região.

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