Venda do Alcaide, ano 2017

Opinião
Valdemar Santos

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Militante do PCP
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No passado sábado, em campanha eleitoral na Venda do Alcaide com documentos em mão, alguém suscitou memória que aqui fica como homenagem a um grande democrata falecido recente: “os papelinhos do Vítor Borrego sempre a esvoaçar!”
Veremos há quanto tempo foi pedido a Graça Andrade, trabalhadora da Câmara Municipal de Palmela, que fizesse o levantamento de quantos estavam numa iniciativa, do que resultou um manuscrito constando: “33 adultos, 14 jovens e 3 crianças”.
E foram estes que, da maneira mais informal, aproveitaram o domingo, 31 de Outubro de 1999, para um almoço-convívio num quintal da Venda do Alcaide para festejarem os resultados positivos da CDU no país, na região e, em particular, no concelho de Palmela, pelo aumento de votação, três semanas antes.
Dos jovens, rapazes e raparigas, dois levaram guitarras, um adulto uma gaita-de-beiços, a animação teve pois causas variadas.
Um cheirinho a emulação atravessou a iniciativa. Elisa Costa, responsável pela organização da freguesia de Palmela do PCP, anunciou que a próxima reunião da Comissão de Freguesia seria na noite do dia 9, em Brejos da Assa, em casa do camarada Salvador Novo, antecedida de água-pé e castanhas. Descentralização, pois!
Edgar Pereira, engenheiro agrónomo ligado à luta dos agricultores do Poceirão, tomou nota das preocupações de um pequeno produtor de azeitonas oriundo da Marateca, face ao encerramento de lagares na região.
Um pequeno empresário de transportes pesados, obrigado a fazer a Nacional 10 para evitar custos maiores, ameaçava: “Qualquer dia atravesso o camião na portagem Setúbal-Palmela!”
A filha de Lúcia, dos Barris, distribuía a tarjeta a anunciar a iniciativa “Mais CDU é uma Festa!”, a ter lugar na Casa da Cultura da Quimigal, no Barreiro.
Gil, do Bairro Alentejano, pediu-lhe “meia dúzia lá para a organização”, um camarada da EDP também.
Também se distribuiu um outro documento, desta feita o plano organizativo do Partido para os próximos tempos, no concelho, com uma recomendação: “É para ler em casa”. E mesmo os que ainda não tinham aderido ao Partido comprometeram-se a fazê-lo!
“Para o ano não há eleições, mas proponho que nos encontremos de novo por esta altura no que poderá ser chamado, se houver acordo, o Convívio dos Fazedores da Festa do Avante!” – eis um vaticínio.
Poucos minutos antes, um maldoso metera-se com Malveiro, perguntando-lhe porque não trouxera o resto das EP’s para vender, ao que o camarada respondeu: “Ora essa, a nossa meta (do Pinhal Novo) era de 170, vendemos quase 250!”
Vítor Borrego, Presidente da Assembleia Municipal de Palmela, arrancava mais cedo para Ferreira do Alentejo, onde ainda naquele dia se comemorava a vitória do candidato da Oposição Democrática, Humberto Delgado, naquela terra, havia quatro decénios. A quem, no passo, lhe dizia: “Se os outros soubessem que isto aqui ia correr tão bem, teriam aparecido!”, retorquiu, no seu timbre bonacheirão: “O castigo que lhes damos é não terem vindo!”.
Quando uma avioneta sobrevoou três vezes o local, todos se puseram a acenar. “Quem quer que seja, está a ver-nos”.
Alguém, aproveitando-se da desgraça dos outros, ordenou: “Tragam lá essa muleta, pomos-lhe esta bandeira da CDU e seja quem for há de saber quem somos!”
Mas mais, com ar do indiscutível: “É obra do Vítor Borrego, os camaradas de Ferreira do Alentejo mandam-nos abraços, vocês não vêm os papelinhos?”
Sendo fim-de-dia, dava tempo a uma imaginação fértil.

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