E se tivéssemos eleições autárquicas todos os anos?

Opinião

Caro leitor, dificuldades com o servidor de Internet onde me encontro temporariamente desde finais de Agosto atrasaram este artigo, que deveria ter saído a 29/8. Espero que o próximo saia a 26/9.
Neste período eleitoral, por não ter vínculos partidários, procurarei que as minhas reflexões sejam o mais genéricas possíveis para manter a independência de pensamento e acção. E também para não ser acusado de usar este espaço de livre opinião (e participação cívica) ao serviço de alguém, em particular, mas sim ao serviço dos munícipes, em geral.
O que não quer dizer que tal preocupação de independência me tenha retirado a capacidade de escolha para a votação de Outubro. Estarei, mais uma vez, presente, pois a Democracia não existe sem eleições plurais nas quais cada um possa escolher quem achar melhor (ou, no limite, vote em branco ou anule o voto). Abster-me é atitude que nunca tive e jamais terei, pois acho-a uma cobardia cívica. Estarei ainda presente por ter bem vivas as memórias do triste tempo em que tal não era possível.
O título desta reflexão parecerá absurdo, despropositado ou provocador. Ocorreu-me a partir da constatação do frenesi que grassa (desde há um ano, em especial, nos últimos seis meses) um pouco por todas as autarquias do país (que conheço bem, nunca frequentei os Varaderos e Puntacanas latino-americanos, muito menos as Bora Boras asiáticas. E conheço também pelas notícias dos órgãos de comunicação social e de outros dos novos canais por onde circula a informação). As autarquias do distrito conheço-as por já ter vivido em quatro, trabalhado em três e ter familiares noutras que visito regularmente. Dizia, foi a constatação desse frenesi que grassa um pouco por todo o lado ─ com obras onde sejam visíveis e possam influenciar os munícipes, ajudando assim a conquistar o seu voto ─, que me levou a este título e este texto.
Não há rotunda, berma de estrada, passeio ou jardim que não tenha sido «barbeado» à pressa, buraco na rua que não tenha sido tapado (às vezes mal tapado), pintura de passadeira de peões ou marcação de estrada que não tenham sido feitas. Embora com três anos de atraso, sempre vale mais tarde do que nunca.
Como nunca há regra sem excepção, referindo-me ao distrito, há autarquias que desenvolvem, desde o início deste mandato, planos consistentes de reabilitação dos espaços públicos incluindo a rede viária (assim como promovem a cultura de qualidade, não o pechisbeque pimba, e a acção social inovadora e de qualidade em bairros sociais difíceis). Outras, por mais pinturas e «barbeações» à pressa que façam, têm um passivo de desleixo e de abandono destes espaços que só com eleições sucessivas de seis em seis meses durante vários anos entrariam na normalidade.
Ora, este «amor febril» de muitos autarcas do nosso distrito em relação ao bem-estar dos munícipes nos locais onde vivem e por onde circulam não deixa de ser contraditório com o desleixo a que sempre votaram este aspecto, pois as suas prioridades sempre se centraram nas festarolas e foguetes (basta ver as listas de artistas ─ muitos pimbas ─ contratados a peso de ouro ao longo dos anos). Quando acham que não têm suficientes inventam ou compram mais uma festa ou foguetório, sendo as famosas feiras medievais o último «mosto da melhor vindima» de câmaras e juntas de freguesia.
Finalmente, os autarcas do nosso distrito concluíram, tarde e a más horas, e não num assomo de racionalidade e de aterragem na realidade, mas em defesa da eleição (por mais uma «robusta» maioria absoluta obtida a partir de votações dos eleitorados concelhios entre 15 e 20%), que o que sempre desprezaram também dá votos.
Mas acabam por dar razão a quem tem criticado e chamado à atenção para os problemas do desleixo dos espaços públicos e da rede viária.
Se calhar sempre fazia sentido termos eleições uma vez por ano: ao menos era dada importância ao essencial em vez do acessório. E até talvez a maior nódoa autárquica do século XXI ─ a ausência de saneamento básico para centenas de habitações, algumas nas barbas da sede dos municípios ─ pudesse ter o seu dia de finados.

2 comments

  1. Chegam as eleições e com ela a praga dos comentadores sem vínculos partidários que publicitam isso como garante da sua independência de pensamento e ação. A independência de pensamento e ação é boa e muito bem vinda, mas pensar que para isso não se pode ter ligação aos partidos é desconhecer os partidos.

    Vou por agora ignorar que em lugar de usar o termo correto, o texto refere vinculo, o que tem um significado muito mais próximo de enlaçado, atado do que participar ou inscrever que tem o termo filiação.

    Os partidos não são um saco de gatos, ou pelo menos o meu não o é. E se fosse, seria obrigação dos seus filiados torná-lo melhor já que decidiram participar do partido. É dentro partidos que são feitos os debates que lhes permitem generalizar as intenções e visões de todos os filiados.

    Assim, não cabe a um autor por si só generalizar sobre as vontades dos cidadãos. Não tem só por si legitimidade democrática para o fazer simplesmente porque não temos como certificar-nos que ele realmente tem o apoio de quem diz ter. A generalização deve vir do debate de ideias independentes que, uma vez que não há homens perfeitos, depois de debatidas entre todos, resultam numa ideia aceitável pelos que mantém a associação ao espaço de debate.

    A um autor por si só e quando não tem filiação partidária, cabe dar o seu contributo para o debate mais alargado que surge fora dos partidos.

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