Greve na Autoeuropa foi positiva e permitiu vincar posição dos trabalhadores – sindicatos

Local C Regional Últimas

Trabalhadores regressaram ao trabalho esta quinta-feira. Reacções à primeira greve em 27 anos sublinham importância da empresa e necessidade de um acordo

 

Os trabalhadores da Autoeuropa regressaram ontem ao trabalho, depois da greve histórica de quarta-feira contra a obrigatoriedade de trabalharem ao sábado, a primeira paralisação por razões laborais desde que a empresa iniciou a actividade há cerca de 27 anos.

“Esta greve foi importante porque nos permitiu vincar a nossa posição. Penso que a administração acabará por compreender as nossas razões e acabará por apresentar uma proposta mais equilibrada no que respeita ao trabalho aos sábados”, disse à agência Lusa um trabalhador que aderiu à paralisação, que, segundo a empresa, teve uma adesão de 41%, mas que parou toda a produção da fábrica de automóveis de Palmela, no distrito de Setúbal.

Os sindicatos mais representativos na Autoeuropa fizeram hoje um “balanço positivo” da paralisação de quarta-feira, mas, pelo menos para já, não querem entrar na ‘guerra dos números’ sobre a adesão à greve e remetem para a próxima semana uma avaliação mais pormenorizada.

“A Autoeuropa não produziu um único carro”, disse à agência Lusa Eduardo Florindo, do Sitesul, Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Actividades do Ambiente do Sul, afecto à CGTP. Apesar da greve, administração, trabalhadores e sindicatos reafirmaram a convicção de que continua a ser possível um acordo para a implementação dos novos horários de laboração contínua.

O novo modelo de horários, a ser implementado a partir de Novembro, previa que cada trabalhador iria rodar nos turnos da manhã e da tarde durante seis semanas e faria o turno da madrugada durante três semanas consecutivas, com uma folga fixa ao domingo e uma folga rotativa nos outros dias da semana.

A administração da Autoeuropa promete ouvir os sindicatos já no próximo dia 07 de Setembro, às 17h00, mas, seguindo a tradição da empresa, tudo indica que vai aguardar pela eleição da nova Comissão de Trabalhadores, prevista para 03 de Outubro, para negociar os termos de um novo acordo que mereça a aprovação de todas as partes envolvidas.

 

António Costa recorda que fábrica é “da maior importância”

O primeiro-ministro, António Costa, afirmou esta quinta-feira que a estabilidade na Autoeuropa é importante para a produção de um novo veículo, defendendo que a empresa é “da maior importância” para o crescimento económico do país.

Referindo aos jornalistas que não deve interferir no processo negocial que está a decorrer na empresa, António Costa sublinhou que “é inequívoco que é da maior importância para o país” a actividade da Autoeuropa. Para o primeiro-ministro, a Autoeuropa tem sido “um excelente exemplo de diálogo social”, sendo neste momento importante garantir a produção do novo veículo que substituirá o modelo Sharan, cuja produção será descontinuada.

 

Distrital e deputados do PS apelam à resolução do conflito

A Federação Distrital de Setúbal do PS e os deputados socialistas eleitos pelo distrito manifestaram também hoje “preocupação pela situação vivida na Autoeuropa e apelam à resolução de um conflito que não contribuiu para o clima de paz social e de estabilidade que sempre foi uma pedra angular do funcionamento de uma empresa que é fundamental para o sucesso da Economia portuguesa e que é, de longe, a maior empregadora do nosso distrito”.

O partido e os deputados acrescentam que “a Autoeuropa e os seus trabalhadores não podem e, sobretudo, não merecem estar à mercê de quaisquer tentativas de instrumentalização política que acabam por colocar em risco o sucesso da empresa e, por essa via, o emprego de muitos milhares de pessoas” e que “não é legítimo que se ponha à frente do verdadeiro interesse dos trabalhadores, das suas famílias, e do interesse nacional, quaisquer outros objectivos de natureza eminentemente político-partidários”.

Os responsáveis socialistas da região concluem ter “esperança em que a reunião prevista para a próxima semana entre a administração e os sindicatos, e a eleição, em Outubro, da nova comissão de trabalhadores, possam contribuir para o regresso da estabilidade à empresa, a salvaguarda dos postos de trabalho e o seu anunciado reforço, no respeito pelos direitos dos trabalhadores, como é imagem de marca da Autoeuropa, sempre assinalada como um caso de sucesso, também nesse domínio”.

 

Catarina Martins (BE) acredita num acordo

A coordenadora do BE, Catarina Martins, disse ontem acreditar que vai ser possível chegar a um acordo na Autoeuropa, sublinhando que a conciliação do trabalho com a vida pessoal dos trabalhadores “é uma questão essencial”.

“Tinha dito que a posição da administração de não negociar não cumpria a tradição da Autoeuropa. Os trabalhadores quando fazem greve nunca é de animo eleve, é o ultimo recurso utilizado quando é necessário, e os votos que faço é que se alcance uma boa solução”, disse Catarina Martins.

A coordenadora do BE, que esteve presente num comício em Almada, lembrou que a “conciliação da vida pessoal não é coisa pouca e é essencial para todos nós”.

“Foi um dia de greve pelo direito à vida familiar. Esta reivindicação é essencial, não é coisa pouca, e a produção não pode varrer os direitos dos trabalhadores”, defendeu, manifestando solidariedade com os trabalhadores da Autoeuropa.

Catarina Martins considerou, ainda, que a Autoeuropa é um exemplo do ponto de vista democrático, salientando que é um caso raro no país.

“A Autoeuropa é um exemplo de democracia, onde os trabalhadores escolhem, e isso é muito importante. É raro os trabalhadores serem chamados a votar sobre o que pensam dos acordos e isto deve ser preservado e alargado a outras empresas”, frisou.

Catarina Martins defendeu, ainda, que as “ameaças não são o caminho para encontrar soluções”.

“Tem de se deixar a ameaça de deslocalização de lado, porque não tem sentido, e discutir como se aumenta a produção e se aumenta os postos de trabalho, mas conciliado com a vida pessoal dos trabalhadores”, disse.

António Chora, numa entrevista publicada na edição de hoje do Negócios, acusou o PCP de estar por detrás da greve para ganhar margem de manobra nas negociações orçamentais como o Governo.

“Sim, é claramente o assalto ao castelo e a tentativa de o PCP pressionar o Governo para algumas cedências noutros lados. Mas isso tem sido a prática ao longo dos anos”, sustentou Chora, que foi membro da comissão de trabalhadores da Autoeuropa e dirigente do Bloco de Esquerda, mas que já se reformou.

Catarina Martins lembrou que António Chora já não está na Autoeuropa, mas que tem a sua visão “muito informada sobre a empresa”.

“António Chora reconhece a importância da conciliação da vida familiar e que podem ser feitos avanços nesse sentido”, frisou.

Lusa com DIÁRIO DA REGIÃO

Deixe uma resposta