A igualdade de género

Opinião
Francisco Cantanhede
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De vez em quando surgem polémicas na comunicação social sobre a igualdade de género a partir do que, na verdade, não existe, a desigualdade de género. A mais recente rebentou por estarem à venda livros de exercícios destinados a rapazes e outros a raparigas. Caiu «o Carmo e a Trindade», quando um ministro recomendou à respetiva editora que os livros fossem retirados da venda ao público, como se na Constituição e na linguagem (hipócrita?) de governantes de todos os quadrantes políticos não fosse referido que o Estado deve garantir a igualdade de género. Neste caso, se alguma crítica se deve fazer ao ministro é a de não divulgar o artigo da Constituição que suporta a sua decisão, já que tantos letrados demonstraram desconhecê-lo. Parece-nos que estas polémicas estão muito para além daquilo que as provoca, sejam livros para meninas, livros para meninos, sejam brinquedos com género distribuídos numa rede de fast food. Se a lei é igual para mulheres e homens, se os direitos e as obrigações são os mesmos, o que demonstram estas acaloradas discussões? Obviamente que persistem desigualdades e assimetrias; que a igualdade de género existe “no papel”, mas ainda está longe de ter sido interiorizada por muitos. Se fizesse parte do nosso quotidiano, nada provocaria tais polémicas. Salvaguarde-se, contudo, os avanços feitos nas últimas décadas, devido, especialmente, ao trabalho desenvolvido nas escolas; mas não se veja essa instituição como a panaceia que tudo vai resolver. Hoje, há casais que repartem tarefas caseiras, podendo ver-se, sem críticas da vizinhança, um homem a estender e a apanhar roupa, a passar a ferro, a mudar fraldas aos filhos. Mas…também «vemos, ouvimos e lemos» o que não podemos ignorar: violência doméstica, maridos que chegam a casa, sentam-se no sofá, aguardando pelo jantar, fazendo exigências atrás de exigências; estudos revelam que, a nível mundial, as mulheres são discriminadas no trabalho, na saúde, na educação…
Algumas das criticas à decisão do ministro resultam da confusão entre género e sexualidade. Claro que meninas e meninos são diferentes a nível fisiológico, mas devem ser iguais no que ao tratamento diz respeito. Seria de reconhecer que as meninas não nascem vestidas cor-de- rosa nem com bonecas atreladas; os meninos não nascem vestidos de azul nem acompanhados de carrinhos de brincar. Outros críticos não primam pela ignorância, mas sim pelo saudosismo de tempos passados. A esses lembramos que a História prova que o tempo não volta para trás! Acabou, jaz enterrado, sem hipótese de ressurreição, o tempo em que havia salas de aula para rapazes e salas de aula para raparigas, sendo as meninas educadas para serem boas donas de casa e os rapazes para garantirem o sustento da família; a mulher só podia viajar para o estrangeiro, ter emprego, ser comerciante, com autorização do marido; o marido que assassinasse a mulher adúltera era condenado a viver três meses fora da sua comarca; as professoras «primárias» e algumas enfermeiras precisavam de obter autorização superior para contrair matrimónio; revistas femininas davam conselhos às mulheres para serem felizes no casamento, como: «A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas.»; «Sempre que o homem sair à noite com os amigos, espere-o linda, cheirosa e dócil.»
A partir de livros para meninas e de livros para meninos, de brinquedos com género, a discussão deveria centralizar-se no que compete a cada um de nós fazer para garantir a igualdade de género, não esquecendo que uma das (ou a) pessoa que mais respeitamos, que mais amamos, é uma mulher, a nossa mãe.

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