Os 5 sabores a não perder na Feira de Sant’Iago em Setúbal

SETÚBAL Feira de Sant’Iago realiza-se até 6 de Agosto com entrada livre.
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Bolachas, farturas, lombinhos, frango assado e pão com chouriço. O DIÁRIO DA REGIÃO foi conhecer as histórias por detrás dos sabores históricos da Feira de Sant’Iago, aquele que é um dos principais certames do sul do país

 

Com mais de quatro séculos de história e arraiais assentes há 13 anos no Parque de Sant’Iago, na zona das Manteigadas, é certo que a feira já mudou muito, mas se há coisa que a conservou autêntica foi a oferta de comida e bebida. Entre dezenas de vendedores há de tudo, desde cachorros a waffles, algodão doce, bifanas, caipirinhas e até kebaks – porém, poucos se poderão orgulhar de manter viva a tradição da feira ao longo de gerações familiares e criando verdadeiros laços com os que são da terra ou chegam de passagem. E que encontram sempre motivos para regressar ano após ano.

 

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Bolacha Piedade. Símbolo da doçaria setubalense

Quando apareceram para adoçar a vida dos setubalenses, em 1855, eram vendidas pelos chamados miúdos do tabuleiro que levavam um pendurado ao pescoço, cheio de bolachas, e gritavam pregões a anunciar a Bolacha Piedade. É a figura deles que surge representada no logotipo da marca, com fábrica na Rua do Ligeiro, na Anunciada, que abastece a loja na Avenida Luísa Todi e, por estes dias, o estabelecimento na feira. Quem o conta é Arnaldo Pereira, casado com uma das três filhas da fundadora da marca – Delfina, Isabel e Gabriela – que hoje asseguram a sexta geração do negócio. Mas não é preciso recuar no tempo para perceber o segredo da longevidade destas bolachas, conhecidas por serem rijas e estaladiças, adocicadas por erva doce e de formato mais estreito, largo ou comprido. Há décadas que as filas se sucedem e que a esplanada vermelha e azul, com mobiliário original de há 50 anos, se enche de clientes fiéis a este que é um dos ícones da doçaria tradicional da cidade. Vende-se a 14 euros o quilo e a boa notícia é que está disponível durante todo o ano, na pastelaria na baixa, já não sendo preciso comprar quase dois quilos de uma vez, como muitos faziam antigamente. Também já há quem a leve no avião e a torne uma embaixadora de Setúbal por esse mundo fora.

 

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Restaurante O Serrano. A tradição do frango assado na feira

“A tradição do frango assado na feira”, é assim que Abílio Santos, 47 anos, resume a essência do restaurante O Serrano, habitué do certame desde 1979. Antes de chegar à mesa, o frango é assado na rua, colocado num pequeno elevador que o leva até à cozinha e depois é servido com batatas, arroz e salada. É o prato que os clientes mais pedem (e até se vende para fora), mas o lombo de porco com camarão no tacho “também sai muito bem”, assim como o choco frito à moda de Setúbal, as sardinhas e todo o tipo de grelhados no carvão. Esta cozinha tradicional portuguesa sobre rodas – o restaurante nasce literalmente de dois semi-reboques transformados em cozinha e sala com 140 lugares – começou-a o pai do sogro de Abílio, José Serrano, 67 anos, que “deu o nome ao restaurante que já funcionava desde o tempo do pai dele”. Todos os dias de feira a partir das 18h e até à meia-noite trabalham ali 14 pessoas, o que nem sempre é fácil porque “requer muita logística” e “a feira não tem folgas”, desabafa Abílio Santos. E ainda bem: a avaliar pela casa cheia, O Serrano continua sobre rodas – e seja qual for a festa onde estacione, tem uma particularidade: “o preço mantém-se”.

 

 

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Bar Séninho. A tradição dos lombinhos na chapa

Talvez poucos saibam a origem do nome. É o diminutivo de Arsénio, o pai de Arsénio Inácio que há 27 anos assume a gestão do Bar Séninho. Quando questionado sobre o que tornou os lombinhos o jantar mais concorrido da Feira de Sant’Iago, responde com sinceridade: “Gosto de dar ao cliente o que eu próprio gosto de comer”. E dá oportunidade de ver como é feito. Na chapa só se grelha carne fresca e nacional, que uma vez no ponto é envolvida numa “margarina com um toque especial de tempero” e servida no aconchego de pão cozido em forno a lenha numa padaria da zona de Setúbal. Os oito jovens que o ajudam, quase todos da família, não têm mãos a medir para servir tantas imperiais, sendo que também há vinho verde de Palmela servido em copo ou em caneca (lombinho e imperial custam 4,70 euros). Para o professor do ensino secundário em Azeitão, a experiência dá “um gozo especial”, especialmente quando revê amigos. Diz que de ano para ano “uns acabam por ficar mais velhos, outros mais novos. Deve ser de comerem os lombinhos”.

 

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Farturas da Luizinha. As farturas da feira

São a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa em comer farturas na feira. E a fama deve-se, na opinião de Manuel Pereira, neto da D. Luizinha e actual responsável pelo negócio, a “três pequenas coisas que no fim fazem um produto especial”: o respeito pelo cliente, o amor com que se faz e a qualidade das farturas. A cada dez minutos sai um conjunto delas, e tudo começa com a água quente, com uma raspa de limão e farinha e óleo de qualidade. Quando é deitada na fritadeira, com o óleo a 190 graus, “a massa tem de levar um choque para que não absorva mais óleo. Isso faz com que a fartura fique sempre sequinha”, revela Manuel. É ele quem opera a seringa da massa, enquanto outras cinco pessoas mantêm bem oleada toda a cadeia de produção que leva a fartura ao cliente – com mais ou menos açúcar e canela –  sempre quente e envolta num guardanapo. A Farturas da Luizinha, fundada em 1965, é a única roulotte a vender apenas farturas (cada unidade a 1 euro; seis a 5 euros), e isso nunca foi problema para quem aguarda quinze, vinte ou trinta minutos na fila. Manuel Pereira arrisca uma explicação: “Farturas há muitas, mas…” talvez nenhumas como aquelas.

 

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Princesa do Sado. O arte do pão com chouriço

“O segredo está na massa”. Parece chavão, mas é verdade. Que o diga Luciano Conceição, que divide tarefas com a mulher atrás do balcão da Princesa do Sado, há mais de 40 anos na feira. Enquanto ela atende os fregueses na caixa, ele coloca e retira os pães de um dos três fornos a lenha que funcionam rotativamente para que haja sempre fornadas quentes e saborosas a sair a cada quarto de hora. No início só faziam pão com chouriço – “o nosso chouriço é o melhor”, dizem –, até introduzirem o pão com queijo e o pão com torresmos. Tudo feito com água, farinha, fermento e alguns segredos que os tornam muito procurados (2,50 euros cada unidade). Para beber e dar andamento à noite na feira, há imperial à pressão (1 euro) e vinho a copo.

 

André Rosa
Fotografias: Diário da Região

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