Nuno Canta enfrenta mais difícil período do público em reunião de câmara neste mandato

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Durante mais de hora e meia, o autarca ouviu queixas dos munícipes. Situação do terreno do Estrela Afonsoeirense centrou atenções. Oposição criticou postura do socialista

MÁRIO RUI SOBRAL

O período do público antes da entrada na ordem do dia da reunião do executivo camarário, na última quarta-feira, 19, terá sido dos mais longos e, porventura, o mais difícil neste mandato da presidência do socialista Nuno Canta.

Durante mais de uma hora e meia, o autarca foi confrontado com várias questões e queixas de munícipes. A higiene urbana, a qualidade da água, a “infestação” de ratos e baratas no bairro da Bela Vista e o impasse na resolução da compra do terreno onde está instalado o campo do Estrela Futebol Clube Afonsoeirense foram os principais temas que chegaram a gerar forte discussão.

A Assembleia Municipal já tinha aprovado uma recomendação para que a Câmara tomasse, passados 15 dias, uma posição definitiva sobre a assunto do terreno.

O período já lá vai e José Campos, advogado dos herdeiros do referido espaço, voltou a deslocar-se à reunião do executivo, juntamente com alguns dos proprietários do terreno para obter uma resposta concreta do presidente da autarquia.

A Câmara diz-se, pela voz do presidente, interessada na aquisição da área, mas quer fazê-lo por um preço mais baixo do que aquele que chegou a estar acordado.

O advogado dos herdeiros do terreno quer que o autarca passe de “respostas evasivas” aos actos.
“O senhor insiste numa avaliação municipal. Os senhores têm na Câmara um histórico do terreno, os documentos, as avaliações feitas no passado pelos vossos serviços. Por que é que esta avaliação não está feita? Se não querem comprar, digam. Se não toma a iniciativa de o fazer, peço ao restante executivo municipal que a oposição faça incluir esta matéria na ordem do dia”, disse José Campos, com o vereador Pedro Vieira a interromper para vincar: “[O presidente] não deixa.”

“Há três anos que ando a falar consigo e ao fim de três anos ainda vai mandar fazer uma avaliação, que do meu ponto de vista até era feita em dois ou três dias, com calma e devagarinho”, continuou o advogado, para Nuno Canta sublinhar: “Nós já dissemos, por escrito, que só podemos reunir consigo mediante a reavaliação do terreno. É uma questão essencial. Isso foi-lhe dito logo na primeira reunião que tivemos.”

“Não corresponde à verdade. A primeira e única vez que o senhor me falou de reavaliar as condições da decisão, incluindo o preço, foi em Agosto de 2016. Mas vou dar-lhe isso de barato. Se assim foi, em 2014, o senhor mais se enterra, porque então teve três anos para fazer a avaliação”, defendeu José Campos.

Nuno Canta reafirmou então que a autarquia mantém “o interesse na resolução do problema, o que exige defender os interesses da Câmara”. E isso, lembrou o autarca, “não é a mesma coisa que defender os interesses” de José Campos. “Assim que tiver a avaliação feita, de imediato o contacto”, adiantou o presidente, não convencendo o advogado, que atirou: “O senhor presidente não quer ou não sabe resolver este problema. Diga que não está interessado. Os meus clientes é que estão a fazer o papel de mecenas, mantendo o Estrela Futebol Clube Afonsoeirense no terreno, e pagando IMI.”

Munícipe em dificuldade

Maria Balona, uma das herdeiras do terreno, aludiu para a insustentabilidade da situação, apresentando o seu caso em concreto ao autarca.

“Tenho o meu marido reformado por invalidez, devido a um AVC, não fala, tive que deixar de trabalhar, tenho dois filhos desempregados e tive que contrair um empréstimo para pagar o IMI, que a Câmara já recebeu, e tenho prazos para o fazer. O senhor diz que não tem prazo para fazer uma nova avaliação, então do que vou viver? Estou à espera de vender o terreno para poder pagar ao banco, porque senão tenho de ir pedir esmola”, sublinhou a munícipe.

“Lamento a questão da sua vida particular. Quanto à questão do terreno, a senhora está do lado de quem quer vender e nós estamos do lado de quem vai comprar. Quem quer vender, quer o melhor preço. Nós queremos comprar pelo preço justo. Precisamos da reavaliação e assim que a tivermos iremos falar convosco”, reforçou Nuno Canta.

Bela Vista queixa-se de praga

Da Bela Vista, Afonsoeiro, esteve presente um outro conjunto de munícipes para reclamar sobre uma praga de ratos e baratas que, segundo os moradores, tem assolado o bairro.

“Não se pode dar um passo na rua que aparece-nos uma rata à frente”, disse uma munícipe, afirmando que teve de pedir 80 euros emprestados para fazer uma desbaratização em casa. É que as baratas também proliferam, sobretudo na Rua Caldas Xavier, segundo os munícipes que se deslocaram à autarquia.

“Vamos à farmácia em frente, quase temos de fugir das baratas. Vamos à Escola do Esteval são ratas, ratas, ratas a passar-nos pelas pernas. É uma vergonha. Fazerem tantas festas e termos uma coisa destas. Tiveram tanto dinheiro para trazer o Tony Carreira e fazer umas festas aqui, onde há tanta miséria, tanta podridão, tanta rata, tanta barata, que nos obrigou a perder um bocadinho para virmos aqui falar”, lamentou.

Na resposta, Nuno Canta explicou que a autarquia está a fazer neste momento “um trabalho de desratização e desbaratização em algumas partes e também na zona do Afonsoeiro”.

“Vou ter de lá ir para ver se essa questão é assim tão extraordinária. Genericamente, a nossa cidade é uma cidade limpa, até comparando com outras [localidades] vizinhas”, afirmou, acrescentando: “Nós contratamos os artistas e pagamos, não estamos a dever nada a ninguém. Há câmaras que contratam artistas e estão a dever mundos e fundos. A Câmara não ficou a dever a desratização, a desbaratização, o tratamento dos jardins, a recolha do lixo. Pagamos isso tudo. E ainda assim temos possibilidade de ter os artistas que queremos ter.”

Pedro Vieira vale zero para Canta

Para o vereador Pedro Vieira (PSD), a questão em torno do terreno utilizado pela Estrela Afonsoeirense mostra “uma enorme falta de sensibilidade” da parte do presidente da autarquia.

O social-democrata considerou até que Nuno Canta “não tem capacidade para gerir os assuntos correntes da Câmara”.

Sobre as pragas de baratas, foi contundente: “A 3 de Abril de 2017, a Câmara teve a contratação da desbaratização das pragas, de ratazanas e demais, por 18 mil e 866 euros por 365 dias. São gastos 60 mil euros para arranjar duas rotundas. Mais de 121 mil euros nas festas. Apenas 18 mil num ano para a desbaratização.”

Nuno Canta disparou: “O senhor vereador está aqui há quatro anos e não aprendeu nada. A sua opinião para nós vale zero. Quis relacionar [o combate a pragas] com as festas. Veio aqui fazer populismo com uma coisa que não se faz. Dizer que se gasta ‘X’ numas festas e comparar isso com o valor que se gastou a desbaratizar, não se faz. Isso é desinformar as pessoas. É estar de má-fé.”

Carlos Jorge de Almeida (CDU) interveio mais à frente e também não poupou críticas à actuação do autarca do PS.

“Aquilo que posso dizer é o modo como me sinto envergonhado pela forma como o presidente da Câmara enfrenta, lida, conversa, escuta os seus munícipes que aqui se deslocam. As pessoas são recebidas com ironia, com um sorriso nos lábios – ‘ah, as ratas são grandes, as ervas são altas’ –, é esta a postura. É bom só porque percebemos que o presidente é sincero e é isto mesmo. Mas as pessoas não merecem essa sinceridade. Quem tem um trabalho de autarca, tem de ouvir, engolir, mesmo que não lhe agrade. Não se pode tratar assim o cidadão ou quem veio aqui apresentar problemas”, criticou.

A higiene urbana, limpeza de lixo e dos contentores, bem como a qualidade da água, que tem surgido amarela, além de um problema de transporte de instrumentos do Conservatório Regional de Artes do Montijo (CRAM), para a realização de um espectáculo no Jardim da Casa Mora, foram outros assuntos apresentados com indignação por outros munícipes, o que também gerou debate aceso.

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