Debate das autárquicas ‘garante’ pavilhão desportivo em Palmela

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Candidatos a presidente da Câmara de Palmela foram unânimes com um compromisso; pavilhão desportivo que a secundária e a vila esperam há anos, será construído no próximo ano, seja qual for a assunção de responsabilidade por parte do Governo

 

Seja qual for o resultado das próximas Eleições Autárquicas, no próximo mandato vai mesmo ser construído o pavilhão desportivo que falta há anos na Escola Secundária de Palmela e cujo projecto prevê a utilização pela comunidade em geral.

O compromisso foi ‘fixado’ no debate de Palmela da ‘Operação Autárquicas 2017’ – que o DIÁRIO DA REGIÃO está a promover em parceria com as rádios Popular FM, Rádio Sines, a Setúbal Revista, a agência ADN e o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) -, que teve lugar na quinta-feira à noite, no Cine-Teatro São João, com os candidatos a assegurarem que a obra será concluída, independentemente do grau de comparticipação do Governo, que é quem tem essa competência mas que até agora não avançou com a construção.

O tema foi suscitado por um espectador, Nicolau da Claudina, e Álvaro Amaro, candidato da CDU a novo mandato como presidente da Câmara, explicou que a autarquia já ofereceu um projecto para o pavilhão, com custo de 750 mil euros (mais IVA) e que propôs também “pagar uma parte”, mas que, até ao momento, o Governo não respondeu nem apresentou qualquer contra-proposta ao município.

Por ordem do sorteio, o primeiro a responder sobre este tema foi Paulo Ribeiro, candidato da coligação ‘Palmela Merece Mais’ (PSD/CDS-PP). Começou por lembrar que a construção do pavilhão “não é responsabilidade directa da autarquia” para afirmar que “se a administração central não tem condições para fazer, devemos dizer que a Câmara, com mecenato, deve construi-lo neste mandato”.

Raúl Cristóvão, candidato do PS, referiu que “a Câmara inicialmente recusou comparticipar” mas que, no decurso das negociações “depois aceitou financiar 25%” da obra. O cabeça-de-lista socialista assumiu então frontalmente o compromisso: “comprometo-me aqui que no próximo ano será construído”. Raúl Cristóvão já tinha assegurado que “o pavilhão vai ter que ser feito com mais ou menos comparticipação da Câmara Municipal”.

Já José Calado, candidato do Movimento Independente pela Mudança (MIM), defendeu que o problema “já devia ter sido resolvido” e garantiu que “se tivermos poder na Câmara, se chegar-mos lá, vamos reivindicar ao Governo a construção do Pavilhão”.

O candidato do BE, Carlos Oliveira, começou por dizer que “a Escola Secundária de Palmela foi vitima de uma intervenção externa [resgate internacional ao país]”, para disparar ao candidato da direita que “temos um Paulo Ribeiro antes da troika e outro depois”. Carlos Oliveira terminou a dizer que “o Bloco apoia as propostas que foram feitas”.

A terminar as intervenções sobre este tema, Álvaro Amaro (CDU) assumiu também claramente o compromisso. “No próximo mandato vamos ter que ter pavilhão na Escola Secundária de Palmela. Nós [Câmara Municipal] vamos a jogo, seja com que percentagem for [de co-financiamento da obra].”, disse o presidente recandidato que se comprometeu ainda com a construção, também no próximo mandato, do polidesportivo coberto no Poceirão e do polidesportivo de Aires.

 

Abstenção e outros temas

O debate de Palmela passou por vários outros temas, alguns levantado pelo moderador José Luís Andrade (responsável da área multimédia do DIÁRIO DA REGIÃO) e outros apontados pelo público.

A abstenção, que em Palmela atinge, nas autárquicas um dos valores mais elevados de todo o país (cerca de 60%) foi o primeiro dos assuntos colocados aos candidatos, logo após a intervenção inicial de seis minutos que cada um fez.

O candidato PSD/CDS-PP defendeu a ideia, tanto nessa fase como depois na ‘alegação final’, que “abster-se é a mesma coisa que votar CDU”. Paulo Ribeiro disse que “a abstenção só beneficia, só serve, que cá está [no poder]” e acrescentou achar “que pelo candidato da CDU não há grande preocupação com a abstenção”.

Raúl Cristóvão considerou que a participação nas eleições é uma manifestação “também sobre a obra que foi feita [em cada mandato]” e apontou que quem é “responsável há 43 anos é a CDU  e não as outras forças políticas, nomeadamente o PS”, até porque “as pessoas votam para o Governo [legislativas] e não votam para as autarquias”. O candidato socialista diz que os políticos “tem obrigação de ser pedagógicos”.

José Calado disse que “haverá várias razões” que levam as pessoas a não votarem, não sabendo bem qual será a principal, e acrescentou que o MIM nasceu também porque “com 60% de abstenção haverá muita gente que não se revê nas actuais forças políticas”, e prometeu “fazer tudo para levar esses munícipes a votarem”.

Carlos Oliveira, candidato bloquista afirmou-se também empenhado no combate á abstenção e defendeu que “o caminho é sairmos das nossas sedes e irmos ao encontro de quem está na rua”.

Já Álvaro Amaro começou por recusar que a abstenção esteja relacionada com o partido que governa. “Cascais é de outra força política [PSD] e ultrapassou Palmela em Abstenção”, disse o candidato comunista, que expressou a ideia de que é necessário contrariar a imagem que os políticos e a Politica têm actualmente.

“O que queremos dizer às pessoas é que vale a pena acreditar na Política”, afirmou Álvaro Amaro, explicando que a CDU procura fazer isso “com contacto directo e propostas sérias”.

Outros temas em debate foram a economia local, a preservação do património, designadamente o castelo e o centro histórico, o estatuto não rural das freguesias de Poceirão e Marateca – com a generalidade dos candidatos a considerarem um erro e uma injustiça a classificação que prejudica estas freguesias no acesso a recursos financeiros, desde logo aos fundos comunitários – e a sua (des)agregação – com quase todos os candidatos a defenderem a possibilidade de separação das freguesias, à excepção de Paulo Ribeiro, para quem não houve mudança significativa para as populações porque “o que mudou é que passou a haver um presidente da Junta em vez de dois”.

Para mais informações, agenda de debates e os vídeos entre no site da Operação Autárquicas 2017.

 

COMENTÁRIO
Francisco Alves Rito – Director do DIÁRIO DA REGIÃO

Um hino à democracia

Palmela proporcionou um debate autêntico, livre e com nível

O debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Palmela foi um verdadeiro hino à democracia. Em todos os aspectos principais.

Os candidatos, sem excepção, participaram com espírito democrático, demonstrando disponibilidade, para o contraditório e o escrutínio, respeito uns pelos outros, pelo moderador e organização e pelo público, e até boa dose de humildade. Houve, é certo, alguma picardia, mas dentro dos limites da discussão salutar, calorosa e centrada nas matérias e não nas pessoas.

O público, obviamente composto também de simpatizantes de cada uma das candidaturas, colaborou com elevação exemplar, de forma interessada, com atenção, e sem manifestações ruidosas ou condicionantes.

Além de opiniões diferentes, houve apresentação de ideias, com propostas concretas (que não conseguimos reproduzir aqui – daí a vantagem de assistir, ao vivo ou em directo), num debate autêntico, livre e com nível.

Assim vale a pena, não apenas para quem vai assistir com o objectivo de ficar mais esclarecido sobre as propostas e as qualidades de cada candidato, mas também para quem faz o esforço – e não é pequeno, atendendo à desproporção entre a envergadura da operação e os meios existentes – de organizar e proporcionar estes debates em cada um dos 13 concelhos do nosso distrito.

Foi, certamente, uma das noites de debate e reflexão colectiva mais abrangente da história do Cine-Teatro São João e até de Palmela.

OS CANDIDATOS UM A UM

Paulo Ribeiro (PSD/CDS-PP)
Foi o ‘mais político’ de todos os candidatos, no sentido da boa combinação entre a oratória e o à-vontade. Num registo seguro, bem-disposto, o candidato PSD/CDS-PP nunca perdeu o pé. Mesmo em questões em que ficou isolado, como na agregação das freguesias, não se deixou atrapalhar. Chegou até ao desportivismo de tentar ajudar a CDU na resposta a um espectador – certamente da sua área partidária – que afirmou que o comunismo está ultrapassado.

Paulo Ribeiro teve como pontos fortes a objectividade nas respostas, a linguagem clara, com frases sonantes, com propostas concretas e a postura altiva mas sem arrogância que transpira segurança.

O ponto mais fraco talvez seja o notar-se ainda que não é nativo. Apesar de ser autarca no concelho há quatro anos, de ter cumprido plenamente o mandato de vereador para que foi eleito e de estar entrosado socialmente ao ponto de identificar cada um dos membros da assistência que usaram da palavra, parece faltar ‘qualquer coisa’ a Paulo Ribeiro neste aspecto particular. Como se o homem urbano que é não encaixasse perfeitamente no toque de ruralidade comum ao concelho de Palmela.

Consegue passar a ideia de que poderia ser um bom presidente de Câmara.

 

Raúl Cristóvão (PS)
É o candidato que melhor consegue irradiar uma sensação de bondade – talvez sugerida pela sua imagem física, que lembra o Pai Natal. Seguro, com linguagem simples e clara, com propostas concretas, transmite confiança pela sensatez e pela honestidade de, em várias questões objectivas, concordar com os pontos de vista dos adversários (como fez com Álvaro Amaro a propósito do reboco da muralha do castelo em que admitiu complexidade do processo).

Raúl Cristóvão tem como pontos fortes a serenidade, a perspectiva construtiva orientada para a solução e a constante preocupação com o social.

O ponto mais fraco do candidato do PS foi ter resvalado, uma ou duas vezes, para o ataque mais pessoal ao presidente e candidato da CDU, com algum excesso de agressividade que contrasta com a sua postura geral.

Consegue passar ideia de que poderia ser um bom presidente de Câmara.

 

José Calado (MIM)
Revelou pouca preparação, remetendo demasiadas vezes a apreciação sobre matérias concretas para um “nestes dois meses e meio que faltam até às eleições vamos” estudar ou perceber o assunto. Também se refugiou vezes demais na criação de “um gabinete” para tratar o problema. No fundo, resposta evasivas para contornar, reveladora de falta de conhecimento. O candidato do MIM não soube aproveitar a ligação existente, pelo menos aparentemente, entre o elevado nível de abstenção e a justificação de uma candidatura independente. Com tantos bons exemplos, locais, nacionais e, sobretudo estrangeiros, nem por uma vez explorou o que pode ser uma tendência crescente.

O ponto mais forte que deixou minimamente patente foi a coragem e a vontade de enfrentar adversidades, que estarão na génese da criação do MIM, e que demonstrou na galhardia com que respondeu a todas e cada uma das provocações lançadas por Álvaro Amaro.

O ponto mais fraco é mesmo a falta de preparação, que indicia ser de dois níveis; o conhecimento dos assuntos e a própria formação individual.

Não conseguiu passar a ideia de que poderia ser um bom presidente de Câmara.

 

Carlos Oliveira (BE)
Foi o mais apagado de todos os candidatos. Sem rasgo politico e sem especiais dons de oratória, o candidato do BE pautou-se por um discurso de generalidades, cumprindo somente os mínimos que lhe eram solicitados. Repetiu-se demasiado com o tema da mobilidade mesmo quando o assunto em cima da mesa era outro, e apresentou poucas ou nenhumas propostas concretas. Na maioria das vezes a solução apresentada ficou-se pelos princípios ideológicos e ainda assim mal explicados.

O ponto forte decorre um pouco do ponto fraco; foi (demasiado) polido, nada contundente ou assertivo, e isto pode ser visto, também, como elevação democrática, abertura, respeito pela opinião e condição adversária.

Os pontos mais fracos foram, o já referido, tom e dom de chama quase apagada e a falta de preparação, comum ao candidato independente.

Não conseguiu passar a ideia de que poderia ser um bom presidente de Câmara.

 

Álvaro Amaro (CDU)
É o candidato ‘mais politico-técnico’, com instinto politico conjugado com forte domínio da componente técnica das questões. Revelou-se o candidato melhor preparado, com números e outros elementos que demonstram conhecimento detalhado dos dossiês – dos maiores aos mais insignificantes -, embora parte deste ‘mérito’ decorra da vantagem de ser o presidente da Câmara. Manteve uma postura serena e, sobretudo, confiante, mesmo quando acossado por vários, e enfrentou com eficiência as questões mais criticas (chegou a ser brilhante na provocação sobre a alegada falta de validade actual do comunismo, ao começar por dizer que tem “muito orgulho” em ser do PCP e fundamentar depois com opções práticas de ordem ideológica).

O ponto mais forte, além das já referidas competências politicas e técnicas, é o desassombro com que rebate todos os ataques.

O ponto mais fraco foi a postura de aparência pouco simpática – que é ‘feitio da peça’ – mas que, neste contexto particular (de presidente em exercício), é naturalmente ampliada pelo facto de ter de confrontar-se de forma mais intensa com quatro adversários em simultâneo. Ficou patente no episódio em que foi mal-interpretado ao referir-se à intoxicação geral das intervenções anteriores (era o ultimo a falar); apontaram-lhe soberba quando, percebi, se referia apenas à falta de objectividade.

Consegue passar ideia de que poderia ser um bom presidente de Câmara.

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