As aprendizagens do Tomás

Opinião
Francisco Cantanhede
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Afirma José Gaiarsa que «a criança, desde um ano ou antes, já aprende como chamar alguém, como irritar alguém, como despachar, como encantar alguém, como conseguir o que ela quer, como evitar o que não quer, como ir para onde gosta e não ir para onde não gosta. Ela está adquirindo todos os manejos básicos de «vou-não vou», «quero -não quero», «gosto-não gosto», «aceito-não aceito». Este é um aprendizado gigantesco e um dos fundamentos do que, mais tarde, os psicólogos chamarão de caráter. Basicamente: como é que eu consigo aquilo que preciso e como evito o que me incomoda com astúcia, com jeito, com teimosia, com espontaneidade, com exigência- do jeito que for».

Vem esta citação a propósito de experiência que vivi recentemente. A minha filha, a viver na Alemanha, esteve em Portugal dez dias acompanhada do meu neto, o Tomás, com dez meses de idade. Uma vez que me interesso por questões de educação, estive atento às reações do Tomás. Por volta das vinte e uma horas, esfrega os olhos com frequência, sinal que está na hora de dormir, e dorme cerca de nove horas seguidas. Esclarece a mãe: «foi difícil, passei algumas noites quase sem dormir, pois, o Tomás insistia em pernoitar na cama dos pais; nem ele dormia tranquilamente, nem nós. Ao fim de três noites de protestos, aceitou dormir no seu berço.» O rapaz tem uma predileção por luzes, especialmente as da máquina de lavar. Quando tenta carregar nos botões, a mãe reage: Tomás, não mexe aí, pois estraga a máquina; o menino para, aguarda que a mãe se afaste para voltar a tentar; volta a ouvir o aviso da progenitora, desiste! Sendo um comilão, movimenta as pernitas com rapidez quando vê comida; quando recusou comer a sopa triturada, logo a mãe e os avós temeram que a criança estivesse doente. Ao ver os adultos tomar a refeição, regressa o pedalar das pernas, o avô dá-lhe um pouco da comida do seu prato, o Tomás saboreia, mastiga com os seus oito pequenos dentes, e volta o movimento acelerado das pernas…quer mais; comeu ameixas, ao colo do avô passa junto da ameixeira, olha, mexe as pernitas, come avidamente um dos frutos. Para chegar até aos cães, tem de ultrapassar um pequeno degrau, barreia aparentemente intransponível; o Tomás hesita, vira-se de costas, deixa o corpo escorregar, e está ultrapassado o obstáculo. Os familiares batem palmas, a criança sorri, avança confiante. Dirige-se de gatas até junto do animal, para, hesita, levanta a mão, recua, avança, agarra o pelo do açor que rosna…afasta-se de imediato, dirige-se para junto do Brown, repete os exercícios, o animal não rosna, agarra-lhe o pelo, puxa-lhe uma orelha, faz-lhe festas. O Tomás usa uma estratégia infalível no relacionamento com os adultos: sorri, sorri, sorri…em casa, na rua, ninguém resiste ao sorriso da criança, responde-se com um sorriso, uma expressão, é «tão simpático», «é tão bonito», o que parece agradar-lhe, pois solta mais um sorriso, mais um movimento acelerado das pernitas, como se estivesse a pedalar. E o Tomás «com astúcia, com jeito, com teimosia, com espontaneidade, com exigência», vai conseguindo o que quer, vai recusando o que não quer, contudo quando ouve um não que é não, compreende perfeitamente a mensagem.

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