A nova vocação das autarquias: os espectáculos de diversão

Opinião

Caro leitor, recentemente falei da realidade que se vive na maioria das autarquias da região desde há meses (e em muitas no país), que traduzi na frase: «cheira a eleições, chovem obras e milhões» (realidade que teremos até Outubro, abrandará depois e acelerará um ano antes das eleições de 2021: como se houvesse necessidades apenas num em cada quatro anos). Falei dela devido ao afã em realizar pequenas obras por todo o lado e anunciar milhões de euros de investimento futuro (o futuro é um lugar promissor, apesar de muito incerto).


Afinal, além das obras e milhões chovem espectáculos de diversão nas nossas autarquias (e noutras do país), parecendo que são promotoras de entretenimento (de eventos: como se diz na novilíngua portuguesa), substituindo os promotores profissionais e asfixiando o tradicional associativismo comunitário (remetido à subsidiodependência).
Noutras ocasiões, neste espaço de intervenção cívica que generosamente me cederam e que tenho usado livremente, indignei-me com três coisas que acontecem em todo o distrito (a feliz excepção é Setúbal na requalificação do espaço público, no Plano de Mobilidade e no Plano de Desenvolvimento Estratégico do concelho, como referi no artigo anterior):
1.ª ─ O abandono a que demasiadas autarquias votaram as necessidades básicas das populações: Mobilidade (rede viária; transportes públicos; rede integrada e segura de ciclovias); Higiene Pública (recolha indiferenciada e separada de resíduos; limpeza do espaço público); Saneamento Básico (em todas as povoações); Espaços Verdes (criação; requalificação; manutenção);
2.ª ─ A aposta em diversões além do que é razoável, normalmente contratadas por ajuste directo; ou na compra a empresas do ramo de formatos prontos a usar, sem a participação das comunidades locais na sua concepção, construção e representação; ou nas avenças anuais continuadas a grupos artísticos cuja produção, e sua fruição pelos munícipes, são muito discutíveis.
Nisto se gastam milhões de euros que faltam para o essencial, para que os munícipes ao votar se esqueçam do que ficou por fazer. É o conhecido «pão e circo» do tempo dos Romanos, hoje apenas «circo» pela escassez de recursos;
3.ª ─ A ausência de pensamento estratégico sobre o futuro dos concelhos e a definição de grandes objectivos para o médio e o longo prazos.
Parecem três coisas sem ligação entre si, mas a segunda compromete a primeira e ambas resultam da terceira: a falta de massa crítica que pense além das vitórias eleitorais, que pense na qualidade de vida das pessoas. Não se estranha a falta de massa crítica, pois cada vez mais os candidatos autárquicos são funcionários das autarquias, qualificados apenas pelo cartão partidário.
Há muitos anos, a historiadora Mona Ozouf caracterizou os países do Sul da Europa como «países da festa», mas a festa é hoje escandalosa. Por isso vemos uma autarquia gastar cerca de 1,5 milhões de euros por ano num festival de música rock, tendo Centros de Recursos de escolas do 1.º Ciclo pobremente equipados; outra autarquia pagar 90 mil euros a um famoso artista estrangeiro por um espectáculo igual ao que noutra ele recebeu 43 mil; ou vemos o clã Carreira (Tony, Mickael e David) receber desde 2009 (ano em que os contratos passaram a estar no Portal Base da Contratação Pública) 1.9 milhões de euros em 67 contratos por ajuste directo; vemos ainda outra autarquia gastar, só em brindes «para oferta aos participantes em diversos eventos», a quantia de 24 mil euros.
A propósito deste regabofe (muito generalizado no distrito e no país), era bom que os candidatos autárquicos se pronunciassem e os munícipes não se ficassem pela abstenção em valores obscenos: 60% ou mais no Montijo, Almada, Seixal, Setúbal, Palmela e Sesimbra; 50% a 60% no Barreiro e Moita; 40% a 50% em Alcácer do Sal, Sines, Alcochete e St.go do Cacém; pouco menos de 40% só em Grândola (nas autárquicas de 2013).
Nas famílias é difícil compreender que não se compre pão, roupa e medicamentos e se gaste os parcos recursos em bilhetes de futebol, passeios ou perfumes: contudo, nas autarquias o regabofe é coisa normal.

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