Choco frito, o rei da gastronomia sadina

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Um dos pratos predilectos da gastronomia setubalense, o choco frito atrai não só as pessoas de Setúbal, mas também as de fora e os turistas, assumindo um papel importante na restauração da cidade. Comerciantes falam numa melhoria na actividade face aos anos conturbados da crise, com o mérito a ir principalmente para o turismo

A “Casa Santiago – Rei do Choco Frito” existe há 43 anos e a sua especialidade é o choco frito. Nos dias de maior movimento, aos sábados, são servidos em média 300 quilos deste peixe. A filha da proprietária, Mariana Santiago, 49 anos, afirma que os anos que já levam de actividade lhe permitiram ter uma grande diversidade de clientes: “Em Setúbal nós fomos os pioneiros, e o facto de já estarmos abertos há 43 anos faz com que uma geração já tenha passado pelo nosso restaurante”.
Este é apenas um de muitos exemplo de restaurantes em Setúbal que servem choco frito, sendo que neste caso, é mesmo a especialidade da casa. Em sandes ou no prato, ao almoço ou ao jantar, e até como petisco, assado, grelhado, mas principalmente frito, o choco assume-se como uma das principais bandeiras gastronómicas de Setúbal e há até quem considere que é já um prato com fama internacional. Talvez por isso, sejam poucos os restaurantes da cidade, especialistas e não especialistas em choco frito, que não incluam nos seus menus aquele que é considerado o prato típico setubalense.

Vende-se bem todo o ano

O choco frito, a par do peixe grelhado e das sardinhas na altura delas, é um dos pratos com mais saída na restauração sadina, facto confirmado pelos restauradores que atestam ser este um prato que se vende bem todo o ano, embora no Verão acaba sempre por sair mais devido ao maior movimento na cidade: “Vende-se mais no Verão porque há mais clientes, mas tanto no Verão como no Inverno é um prato que sai muito”, afirma Marco Baptista, 29 anos, dono do “Restaurante Marisqueira Copa d´Ouro”. Opinião partilhada por Miguel Santos, 42 anos, um dos donos do “Bombordo”, mas com ligeiras diferenças: “O choco vende-se sempre bem. A diferença é que num dia forte de Verão vende-se 70, 80 doses, e num de Inverno vende-se 10 ou 20”. Já uma ideia diferente tem Florentino Silva, 56 anos, dono do restaurante “Tasca das Marés”, para quem é no Inverno “que o choco se vende mais”. No entanto, apesar do impacto significativo que este prato parece ter na facturação dos restaurantes, nem tudo é bom: “O choco tem um lado negativo porque é caro (para os restauradores), sai mais caro que o peixe grelhado”, afirma Eduardo Carvalho, 63 anos, dono do “Baia do Sado”, que também faz críticas à falta de apoios dados ao sector “Queria que a Câmara fizesse mais alguma coisa pela restauração”, refere.


Das 20 doses até às “cento e tais”

Sendo então este um prato bastante popular nos restaurantes em Setúbal, uma questão surge: Quantas doses de choco frito devem sair nos dias mais fortes? Embora nenhum restaurador possa responder a esta pergunta com exactidão, tentam pelo menos dar um palpite: Desde as 20 e 30 doses que em média saem, respectivamente, nos restaurantes “O Rebarca” de Ângelo Fernandes de 42 anos, ou no “Novo 10” do chefe Teixeira da Silva de 57 anos, passando pelas 50 ou 60 do restaurante “Tasca das Marés” de Florentino Silva, até às “cento e tais”, de acordo como Marco Baptista, no “Copa d´Ouro”, as respostas são diversas. “Em todas as mesas há sempre choco, ou como entrada, ou como prato principal”, destaca Eduardo Carvalho, do “Baia do Sado”. Talvez por isso, tendo mais ou menos saída, não seja boa ideia excluir este prato do menu, mesmo que não se trate da especialidade da casa: “O choco frito é um prato que está na carta há três ou quatro meses. Porque eu, na minha opinião, tendo em conta que temos casas especializadas no choco frito em Setúbal, sempre entendi que não devia tê-lo na carta. O que me obrigou a isso foi, por exemplo, ter grupos que apareciam para comer choco frito, pessoas que se sentavam na mesa, olhavam para a carta e viam que não tinha choco frito e iam-se embora porque de facto vinham para comer choco frito. Foi então que optei por colocá-lo na carta”, afirma Teixeira Silva, chefe do “Novo 10”.

Os de Setúbal, os de fora e os turistas

Sendo um prato típico de Setúbal, isso podia significar que seriam setubalenses a consumir este peixe de forma mais regular tanto em casa, como nos restaurantes, mas não parece ser necessariamente assim. As opiniões divergem, há quem considere que setubalenses e pessoas de fora consomem, pelo menos nos restaurantes, este prato de forma “igual”, como é o caso de Ângelo Fernandes, dono do “Rebarca”, de Florentino Silva, dono do restaurante “Tasca das Marés”, ou de Ana Santos, 50 anos, cozinheira do “Baluarte da Avenida”. Já outros pensam que este é um prato que atrai principalmente as pessoas de fora: “90% são de fora, muita gente vem de Almada, Lisboa, Montijo ou Barreiro ao fim-de-semana. Telefonam a perguntar se há choco e mandam marcar mesa, se não houvesse choco se calhar não vinham.”, afirma Eduardo Carvalho, do “Baía do Sado”. A mesma ideia é partilhada por Miguel Santos, do “Bombordo”: “As pessoas de Setúbal já conhecem, fazem em casa, conhecem a forma tradicional de cozinhar. As pessoas de fora é que vem à procura daquilo que não conseguem ter na terra delas.” E Marco Baptista, do “Copa d´Ouro”, parece ter uma explicação para o porquê das pessoas de fora virem a Setúbal só para comer este prato: “Mesmo que se coma fora de Setúbal já não é a mesma coisa, saindo da cidade já não é igual”, salienta.
E os turistas? Provam o prato? Ângelo Fernandes, do “Rebarca” afirma que sim, porque “vêem em todo o lado a publicidade”. E gostam? A maioria dos restauradores tem uma percepção positiva, mas como é óbvio, há excepções. Para Pedro Anselmo, 39 anos, que tem uma Casa do Leitão na terra do peixe (mas que nem mesmo assim deixa o famoso prato fora da ementa), “Os ingleses gostam muito, já os franceses não gostam tanto”, uma opinião que vai de embate à de Florentino Silva, do “Tasca das Marés”, para quem “os espanhóis comem mais choco, os ingleses e alemães não gostam tanto assim”. Teixeira da Silva, do “Novo 10”, acrescenta mais uma nacionalidade a esta lista ao afirmar que, regra geral, os brasileiros não apreciam o prato “nem frito nem grelhado”.

Turismo: o principal responsável na melhoria da actividade

É sabido que o sector da restauração passou por um período complicado nos últimos anos. Convidados a fazer uma comparação com o passado, a reposta praticamente unânime dos restauradores foi a de um “sim” à melhoria da actividade. Sem esquecer questões com o aparente desanuviamento da crise e recuperação do poder de compra nacional, o alívio do IVA na restauração, ou o trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal e pela Casa da Baia, os louvores vão principalmente para um factor: turismo. O aumento das visitas a Setúbal parece ser uma questão fundamental não só na restauração como na hotelaria. Esta ideia é confirmada pelos dados do Anuário 2016 de Setúbal, elaborado pela Câmara Municipal. De acordo com ele, “o total de turistas que vistam Setúbal continua a crescer, com os dados de 2016 a revelarem um aumento de 6% de dormidas na hotelaria tradicional em relação ao ano anterior. A Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, com base numa amostra de 60% de oferta turística em Setúbal, revela que se registaram 225.022 dormidas nas unidades hoteleiras do concelho em 2016, face às 213. 255 em 2015. O turismo interno registou também um aumento de 6%, graças às 125. 843 dormidas de portugueses em 2016, enquanto em 2015 houve 118.939. Quanto ao turismo externo, houve um aumento de 5% – 99.179 contra 94.316. Neste segmento, destacam-se os ingleses com um crescimento de 34% nas dormidas em Setúbal, e os holandeses com mais 19 % face a 2015.”, lê-se no documento.
Mas há também quem pense, como é o caso Miguel Santos, do “Bombordo”, que outros factores anteriores ao recente aumento do turismo também têm mérito na melhoria da dinâmica da cidade: “Setúbal melhorou muito, há quem diga que é da Câmara, da Casa da Baia, mas eu continuo a ter a minha opinião pessoal: foi desde a novela que foi gravada em Setúbal (Mar Salgado, exibida entre Setembro de 2014 e Setembro de 2015) que tudo mudou. Começamos a ter muita gente de todo o lado depois da novela, não foi depois das outras coisas”, afirma. No que diz respeito ao turismo, Miguel Santos tem a opinião que a proximidade com a capital prejudica a cidade: “É verdade que há muitos turistas que agora fazem aquelas excursões fora daquela zona e começam a vir a Setúbal quando dantes só iam a Cascais ou Sintra, ganhámos por isso. Mas depois temos o lado mau. Como estamos aqui ao pé, todo a gente vai comer lá, dormir lá, aqui não temos ninguém, só no verão. Estamos a 50 Km de Lisboa e pagamos a factura for isso”, finaliza.
Apesar da concordância em torno da melhoria geral da actividade, esta parece estar ainda longe dos tempos áureos do passado: “Antigamente era melhor, muito melhor. Nós tínhamos filas ao fim-de-semana, rodavam os clientes e enchia-se o restaurante outra vez. Mas agora tem melhorado (comparativamente ao um passado mais recente), mas não é aquela loucura de antigamente, em que saíamos três, quatro da manhã do restaurante.”, diz Ana Santos, do “Baluarte da Avenida.”

O

que dizem os consumidores

Ouvidos os restauradores, há também que ouvir o que os outros têm a dizer, neste caso, os consumidores. Quem se assume frequentadora assídua de restaurantes “quase todas as semanas” para comer choco frito é Alice Marcelino, 36 anos, residente em Setúbal, que vai sempre ao mesmo local para consumir este prato. Quando o faz, salienta que “vê lá muitos estrangeiros” para provarem o prato e dá a sua opinião para a razão desse fenómeno: “tem a ver com a publicidade que fazem do prato na nossa cidade, o que faz com que as pessoas queiram tirar as teimas para ver se é tão bom como dizem.”, destaca. Inácio Ferreira, 60 anos, residente em Moita, também testemunha a curiosidade das pessoas de fora em experimentarem choco frito: “Sei por experiência própria que um dos pratos que os visitantes preferem é o choco frito, sei por colegas e pessoas que moram noutras regiões, e algumas delas nunca tinham ouvido falar do choco frito, nunca tinham provado e depois deliciam-se”, afirma este senhor que admite gostar de choco frito, mas apreciar especialmente o grelhado. Já Leonel Gomes, 76 anos, residente em Setúbal, diz gostar de choco frito, mas que “não é em todo o lado”, porque “há aí muitas casas que não prestam”. Come choco frito “quando lhe apetece”, e “quando tem dinheiro”. Nota igualmente a fama que a iguaria tem juntos dos estrangeiros, mas adverte que a cidade tem mais oferta gastronómica que isso: “Setúbal não é só choco frito, também temos as caldeiradas, e outras coisas”.
Também Ana Santos, 30 anos, residente em Setúbal, afirma “gostar muito de choco” e de o comer com bastante frequência até porque tem familiares ligados à pesca deste peixe. Por isso admite que quando frequenta restaurantes “na maior parte das vezes até peço outra coisa”, sendo que, quando é mesmo para comer choco frito, “vai a restaurantes específicos”. Durante o período mais conturbado pela qual a restauração passou pelos últimos anos, destaca que notou algumas diferenças porque sentiu que “os preços aumentaram um bocadinho e depois houve restaurantes que perderam qualidade, mas outros até mantiveram”. O contrário pensa Joaquim António, 63 anos, residente em Azeitão, para quem, muitos restaurantes, face às dificuldades “até melhoraram para chamar mais pessoas”. Assume que costuma comer choco frito “quando calha, mas é mais quando vou aos restaurantes”, mas que dantes o prato sabia melhor: “Antigamente o choco era melhor, era feito de forma tradicional, agora é tudo frito em farinha e pronto”, critica.

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