Aprender a voar em liberdade

Opinião
Francisco Cantanhede
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Recentemente, o antigo ministro da educação, Nuno Crato,  deu uma entrevista a um jornal diário, onde , obviamente, defendeu os exames como sinónimo de exigência. Ilação a retirar: quem for contra os exames promove o facilitismo. Reafirme-se que a exigência deve centrar-se no processo e os resultados surgirão naturalmente.

Numa democracia, não se deve aprisionar o espírito humano, a palavra igualdade significa igualdade de oportunidades e não formar todos por igual. Os professores devem sentir-se livres para actuarem em liberdade, a fim de contribuírem para formar cidadãos livres,  não devem trabalhar sob  a pressão imposta pela exigência de os seus alunos obterem bons resultados nos exames. O sistema de ensino tipo pirâmide formata todos como se de um só se tratasse, promove a competição, não respeitando o eu de cada aluno. Condicionar a vida das crianças incutindo-lhes a competição, é sujeitá-las à humilhação se se sentirem inferiores, é incutir-lhes o orgulho se se sentirem superiores. Quantas vezes os humilhados se tornam indisciplinados, alguns marginais. O aluno que obtém melhores notas, pode não ser o melhor profissional, tal como o que obtém piores notas, pode não ser o pior profissional; quantas vezes o pior é melhor do que alguns dos melhores. O aluno que obtém melhores notas pode não ser o melhor cidadão. Há algum tempo, no contexto de partilha de saberes, fui dar uma aula a uma turma do 5º ano. O aluno que mais participou, que mais questões pertinentes colocou, que mais demonstrou vontade de saber, era, afinal, aluno com necessidades educativas especiais. Não é, trata-se apenas de um aluno «com bichos carpinteiros», com um espírito ávido de sabedoria, tudo quer saber, tudo questiona, embora de forma desorganizada. Esse aluno sente-se um pássaro preso na gaiola, luta para se libertar, mas não consegue romper as amarras. Quando se sentir livre como irá agir? Afinal não serão os submissos, os que aceitam viver na gaiola, que obtém melhores notas? A criança  tem de ver, ouvir, ler, fazer, em liberdade, para atingir a sabedoria. Para ser cidadão interventivo. Ninguém é feliz se não for livre!  Ninguém é cidadão se não vivenciar a cidadania. A escola tem de se reinventar, de se reorganizar, de ensinar a voar livremente, ou seja, de libertar os pássaros que se sentem enclausurados, de ensinar a voar em liberdade os pássaros que aceitam viver na gaiola. Aprender a voar em liberdade, significa que as  crianças devem aprender a ser autónomas desde o berço, não serem tratadas como se fossem uma peça de louça chinesa do tempo dos Descobrimentos, ou corre-se o risco de quando se sentirem livres agirem como bárbaros. Veja-se o que aconteceu com alguns estudantes em Espanha. Um verdadeiro cidadão sabe que a sua liberdade termina onde começa a liberdade dos outros. No próximo ano lectivo, seis escolas vão ter liberdade para romperem com a escola tradicional, para encontrarem o caminho da educação em liberdade. Que enorme responsabilidade, não podem falhar, ou quantos anos mais terão os pássaros de esperar para poderem voar em liberdade?

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