Catarina Marcelino: “Há um país activo e com pensamento crítico”

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O Roteiro para a Cidadania em Portugal está a percorrer o país, de norte a sul, para pôr a comunidade a falar sobre cidadania. São vários os desafios lançados à sociedade com o objetivo de aprender quais as preocupações dos portugueses em relação a questões estruturantes. Em entrevista ao Diário da Região, Catarina Marcelino, Secretária de Estado da Cidadania e Igualdade fez um balanço positivo do projeto e adiantou que a estratégia nacional de educação para a cidadania na escola pública poderá ser introduzida nas escolas no próximo ano letivo.

Helga Nobre

Qual é o objetivo do Roteiro da Cidadania?

Tem como objetivo pôr o país a pensar e a falar em cidadania. Concluímos o ano passado que, com o momento que de crise que o país atravessou, a dinâmica social do ponto de vista do associativismo e das comunidades estava muito parada. As questões da cidadania estavam a ser muito pouco trabalhadas e achamos que era preciso criar uma estratégia que impulsionasse esta dinâmica a nível nacional e, assim, nasceu este roteiro, em parceria com a ANIMAR, de forma a podermos dinamizar pelo país em conjunto com os municípios mas também com as associações locais, ações para falar sobre cidadania. Temos uma carrinha que anda pelo país com uma equipa de animadores que, nas localidades por onde passa, pára e promove iniciativas com o tecido social local sobre cidadania. No fundo é isso que andamos a fazer desde outubro do ano passado.

Qual o montante investido?

Foi um investimento de cerca de 200 mil euros para um ano de atividades em todo o país.

Há pouco disse que, devido à crise, estas questões da cidadania ficaram paradas, mas não regrediram?

Julgo que não tenham regredido, mas houve um desinvestimento porque é evidente que quando há crise e há momentos difíceis, as comunidades concentram-se na resposta aquilo que são os problemas relacionados com a pobreza e o desemprego. Há uma tendência em concentrar a energia na solução dos problemas básicos e o debate da cidadania e as dinâmicas da comunidade em prol do desporto, da igualdade de género e das atividades para crianças e idosos, vão ficando para segundo plano. Neste momento é preciso voltarmos à dinâmica que tínhamos antes da crise e no fundo é isto que a carrinha se propôs fazer.

Visitam, neste roteiro, cem municípios. Os escolhidos têm alguma particularidade?

Não, nós lançamos o repto aos municípios que, por sua vez, se inscreveram. Inicialmente inscreveram-se cem municípios mas, neste momento, já são mais. Também temos outras estratégias para ir aos outros municípios, através de projetos em escolas, com a Fundação Maria Rosa que trabalha com os jovens as questões da cidadania e do que é que os jovens gostavam de ver melhorado nas suas escolas para depois devolverem essa informação quer a mim quer ao Secretário de Estado da Educação no final. Também a rede ex aequo está a levar às escolas, workshops contra a homofobia, ou seja há outras estratégias além da carrinha que também fazem parte do roteiro e, no final, teremos todos os municípios do país contemplados neste projeto. Neste momento já visitamos 166 locais em Portugal.

Portanto, o projeto está em constante evolução?

Exatamente, estamos em maio e a ideia é que o projeto termine quando fizer um ano mas a dinâmica do roteiro termina no mês de julho, nas ilhas, em setembro e outubro existirão outras iniciativas de avaliação final do projeto mas para lhe dizer que, neste momento, ainda temos desafios novos que estamos a integrar no roteiro, portanto é um processo sempre em construção.

Estamos a falar de um projeto que não tem um público-alvo específico?

Sim, este é um projeto para a comunidade e não está dirigido a ninguém em particular. A ideia é que todo o país, todas as pessoas e todos os grupos, falem, promovam e discutam a cidadania. Nós temos 10 mil pessoas envolvidas nesta dinâmica em 251 atividades. É um número muito expressivo e, neste grupo, estão pessoas idosas, crianças, pessoas de etnia cigana, jovens em escola, pessoas com deficiência, desportistas, etc.

Isso significa que temos linguagens diferentes e uma forma de abordar a cidadania diferente?

Exato, linguagens diferentes, trabalhos diferentes. Só para ter uma ideia e recordando o que foi feito no Litoral Alentejano, entre o dia 2 e 6 de maio, desenvolvemos um workshop sobre igualdade no trabalho e no emprego, uma caminhada pela igualdade intergeracional e workshops sobre o combate ao discurso do ódio. Isto demonstra bem a diversidade das ações.

O roteiro obedece a imensos temas mas no seu entender quais são os temas mais sensíveis para a comunidade portuguesa?

Temos tentado ir ao encontro daquilo que as comunidades nos pedem e de facto as questões ligadas à violência no namoro têm sido muito procuradas e isso é bom porque é uma área que precisamos de trabalhar muito, já que os números são bastante assustadores. A igualdade de género, a discriminação no local de trabalho e o racismo também foram questões procuradas, o que não significa que, por exemplo, temas como a religião ligadas ao terrorismo não tenham tido impacto.

Penso que, no fundo, há uma vontade muito grande da comunidade em debater vários temas e de falar de atualidade porque aquilo que preocupa a sociedade portuguesa são questões de atualidade e que interferem com a vida e o futuro das pessoas. É muito positivo e gratificante ver que há um país ativo, atento e com pensamento crítico sobre os vários temas.

Isso significa que temos uma comunidade sensível para as questões da cidadania?

Sim, e perante isto temos de ter estratégias que permitam criar espaços e locais de debate e reflexão sobre a cidadania que, no fundo, é isso que o roteiro faz. Cria e propicia o espaço adequado para que as pessoas possam debater, conversar e pensar sobre a cidadania.

E como se pode investir nestas temáticas?

No final do roteiro vamos avaliar o processo e pensar como podemos dar continuidade a este trabalho, que não tem de ser neste modelo exato, mas temos de refletir sobre os resultados para avaliar esta dinâmica. A seu tempo apresentaremos propostas novas.

Defende uma estratégia nacional de educação para a cidadania na escola pública portuguesa. Que passos já foram dados nesse sentido?

Vamos apresentar dentro em breve a nossa estratégia de educação para a cidadania e é evidente que estes projetos quando vão e estão dentro de escolas também nos ajudam a refletir esta necessidade, porque sabemos que o grande investimento tem de ser feito na escola. Os valores da cidadania têm de ser trabalhos do pré-escolar ao secundário e o Governo tem uma estratégia preparada que apresentará em breve. Em principio, no próximo ano letivo, iniciaremos esse processo na escola pública portuguesa.

E, a nível legislativo, há alguma alteração que venha a ser introduzida?

Pode haver necessidade de alguma legislação no sentido de enquadrar a estratégia mas está incluída no projeto educativo da escola portanto não precisará de grandes alterações legislativas.

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