A narrativa dos números – Estatísticas

Opinião
Amelia Antunes
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A narrativa dos números está na ordem do dia, no espaço público, no espaço mediático. São os números do défice, da dívida, do PIB, da inflação, do desemprego em geral e do desemprego jovem em particular, do investimento, do turismo, das exportações, das importações, das chegadas e partidas dos passageiros dos aeroportos, dos sem-abrigo, dos que não têm habitação, das imparidades, dos lucros e dos prejuízos da banca, de mortes por AVC em cada dia, das listas de espera dos hospitais, dos jovens médicos que não têm acessoa especialização, dos utentes do SNS sem médico de família, das entregas de declaração de IRS, da devolução de IRS, das empresas que não pagam IRC, dos trabalhadores inscritos nos sindicatos, do credito ao consumo, das poupanças das famílias, as reclamações para a DECO, os acidentes rodoviários, os fogos florestais, das vagas de acessoao ensino superior, do abandono escolar, das vitimas de violência doméstica, dos pensionistas, dos veículos que circulam nas autoestradas, que atravessam as pontes, das migrações,das sondagens e, um sem fim de outros números.

As estatísticas são da maior importância para o conhecimento das realidades sobre que incidem. Existem entidades que se têm dedicado a esta ciência, com grande mérito e fiabilidade, como por exemplo o INE e a PORDATA. A confiança que merecem depende da sua credibilidade. O conceito de estatística vem descrito nos manuais como “a ciência que dispõe de processos apropriados, para recolher, organizar, classificar, apresentar e interpretar conjuntos de dados”. Com a informação obtida dos dados recolhidos, interpreta-se e compreende-se melhor as realidades objeto de análise, para transformar em conhecimento.

Conhecimento para ser colocado ao serviço das pessoas.

A narrativa dos números, isto é, o seu relato pelo narrador ou narradores, a interpretação variam em função dos objetivos que cada um se propõe alcançar pela forma como os apresenta e tira conclusões ou potencia conclusões, leituras e interpretações diversas.

Tudo isto anda, neste nosso tempo, numa “roda-viva”, concentrado nos narradores e na narrativa. Na sua credibilidade ou não!

Há interpretações das realidades, para contentar todos, quer em termos individuais, quer coletivos, com narrativas contraditórias, antagónicas ou complementares, em suma tanto para os que veem “o copo meio cheio” ou para aqueles que veem “o copo meio vazio”. Estas são realidades que não inspiram confiança.

Números são números, mas o que importa são as pessoas. É para as pessoas, para o seu bem-estar e felicidade, que os números devem servir, para tomar as decisões no interesse das pessoas, no interesse geral e do bem comum. Para as pessoas em termos absolutos. Continuar pelas amostragens, pelos números, pela manipulação grosseira ou não dos numeros, sem rigor, seriedade e responsabilidade é o caminho mais rápido para  a desconfiança das pessoas.

Não esquecer que mais importante do que falar em números, é falar em pessoas, cuidar das pessoas, ter em conta as pessoas. Até porque na linguagem dos números, é sempre possível a “desconstrução” das realidades.

One comment

  1. É importante investir em teorias mais arrojadas para a abordagem das
    “multidões de números” uma vez que, como afirmam os matemáticos,
    números em grande quantidade não se comportam como números
    em pequena quantidade.Estamos a entrar numa era de interconexão planetária nunca antes
    vista, o que requer uma teoria social que cultive noções de incerteza,
    de imprevisibilidade e a capacidade de lidar com ilhas de ordem num mar de desordem.
    Com uma metáfora teórica mais arrojada, a certeza enganosa de certos mapas bem se pode
    converter na surpresa lúcida dum holograma.

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