Petróleo no Alentejo

Opinião

Carlos Cupeto

Universidade de Évora

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Em vez do “pobrezinhos mas honestos” optamos  agora pelo “pobrezinhos e patetas”. No Alentejo e arredores, como no Algarve, não querem petróleo. Mas ninguém, sobretudo os dignos autarcas, consegue fazer  o que seja sem combustíveis fósseis. Nada, mas nada existiria na antroposfera se não fosse o petróleo, não há volta a dar. E tudo o que se apregoa como alternativa é muito pouco, isto é, nada,  para que assim deixe de ser.

Abstenho-me, aqui e agora, de defender um modo de vida substancialmente diferente assente em recursos essencialmente renováveis, locais; sempre o tenho feito e, sobretudo, praticado na medida do possível. Por ora nada neste planeta “vive” sem petróleo. Na verdade esses arautos da palermice hipócrita o que defendem não faz qualquer sentido. No mínimo, e é só disso que se trata, o país tem de saber os recursos que tem. Depois, muito depois, se houver condições para isso poderá optar por explorar, ou não, esses recursos. Entretanto, saiba-se que no caso da costa alentejana há mais de uma década que há prospeção. “Não queremos petróleo no Alentejo”, ponto. É mesmo só isto, há um conjunto de interesses equivocados, de verdadeiro obscurantismo,  que manipula a opinião de uma região, o Alantejo, que não quer a prospeção de hidrocarbonetos no Alantejo. Se for lá longe, quiçá ao lado, em Espanha,  não tem problema, nós cá estamos para importar e consumir com uma intensidade e eficiência que envergonha – nisto ninguém fala; esta é uma das fortes razões porque somos estupidamente pobres. Como habitualmente o cidadão quer a rua limpa mas não quer o contentor à porta de sua casa. Em perfeita contradição os mesmos autarcas defendem o Porto de Sines e o aeroporto de Beja; haverá no planeta Terra, já agora em Portugal e no Alentejo, alguma infraestrutura mais dependente do petróleo do que qualquer uma destas duas? Os alentejanos e os estrangeiros que  vivem na magnífica costa alentejana  têm todo o direito de não querer petróleo e até de serem incoerentes com o seu modo de vida e com tudo o que têm à volta. No verso da medalha está a assunção da responsabilidade por esta tomada de posição.

Os recursos geológicos, nos quais se incluem os hidrocarbonetos, gozam de uma característica incontornável: ocorrem obedecendo apenas a fatores geológicos; estão onde estão e só aí podem ser explorados. É assim. Já um aeroporto, como se vê durante largos anos em Portugal, pode ser construído, quase, onde se quiser. Esta é uma pequena grande diferença que condiciona os recursos naturais dos países. É pela prospeção que se sabe existir ouro no Escoural (Montemor-o-Novo), que naturalmente também tem vozes contra, os mesmos de sempre –  os que só governam se houver miséria -, e que um dia será naturalmente extraído.   Obviamente que qualquer exploração que se inicie no presente tem exigências e soluções técnico-ambientais impensáveis há uns anos. Os gravíssimos passivos ambientais existentes em todo o mundo e também na Europa, em Portugal, no Alentejo ou na margem sul  – nem imaginam o que há de passivos ambientais no Seixal, por exemplo-,  resultantes de explorações mineiras não podem servir de razão para que recursos vitais à nossa vida possam ser ignorados.

Na verdade pertencemos a uma minoria de privilegiados que temos todos meios e recursos  para viver confortavelmente com muito pouco respeito pelo que nos rodeia e que ainda se dá ao luxo de eleger causas completamente incoerentes com o seu modo de vida.

Todavia é igualmente certo que numa crise climática sem precedentes que conduzirá a um problema alimentar catastrófico é inquestionável que estamos obrigados a energia sustentável e a uma arquitetura de vida diametralmente oposta à que seguimos até aqui. É a própria vida que está em causa mas a pergunta é: vivemos sem petróleo? Se for explorado lá longe já não tem problema?

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