Pedro Pinela na Índia: “Todos os dias começam de noite”

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À meia-noite ainda vê-se muita gente nas ruas que nem de perto são tão luminosas quanto as do Ocidente. No centro da cidade pode-se conduzir por estradas alumiadas apenas pelo transporte em que seguimos durante bairros

Por volta desta hora começa também a separar-se quem está de passagem com destino a casa daqueles que estiveram todo o dia em casa, sem que ninguém soubesse, e que esperaram pelo escuro para fazer a cama no passeio. A cama, muito mais que numa ocasião, só assim se lhe chama porque se lhe dorme em cima. Esta cínica cama é o chão duro ou, pelo menos, este é o estrado de um colchão que, assim sendo, é a pele coberta das roupas que se levam vestidas. As molas deste colchão ossos que se espera aguentem mais esta noite já profunda às duas da manhã, quando se torna simultaneamente congestionada de mosquitos, baratas e ratazanas aos milhares.

Sob a forma destes animais – é desta maneira que os esgotos a céu aberto inundam a cidade de madrugada. Uma água escura, quase baça, à superfície da qual pequenas bolhas emergem fruto de uma fermentação qualquer que não está ao meu alcance explicar. E fosse este o único fenómeno que extravasa as minhas capacidades descritivas: esta água nem sempre é escura, mas tem tonalidades de verde ou azul e corre numa tóxica lentidão de quem não vai a lado nenhum. Ela respira ou (se não) expira um bafo medonho. Lá está, contenham-se os pedidos de esclarecimento. Apenas sei dizer que, neste país, senti dos cheiros mais intensos de sempre. Muito mais maus que aprazíveis. Cheiros como paredes invisíveis que provocam estrondosas cabeçadas olfactivas a quem passa. São 5 da manhã e atravessa a estrada alguém cambaleante, diante de um enorme Land Rover de vidros fumados.

Dizem que o consumo de khaini os deixa fora de si. Tira-se de uma bolsa um bocado de tabaco verde-seco, de uma bisnaga, uma ponta de pasta cal e misturam-se estes ingredientes com a ponta dos dedos, com força. Depois dão umas palmadas na mistura e atiram-na para a boca, remetendo-a para um canto e lá a deixam ficar como que a derreter em saliva. Qual a satisfação ou efeito não sei, mas que é vicio, decerto que é. Seja como for, o khaini vê-se mais em Bombaim do que em Kerala. O que aqui se vê e o clássico bidi a ser fumado enquanto ainda esfregam os olhos do sono que passou e as costas das marcas que ficaram.

Passa uma hora e o sol já tudo abrange, os miúdos vão para a escola. As miúdas são lindas, mas estranhecem com a idade. Os rapazes deixam, quase todos, crescer bigodes e longos pêlos nas orelhas. É de dia.

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Pedro Pinela

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