Acção de alfabetização em Sines: “Aprendi a escrever o meu nome pela Bíblia”

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Há quase dois meses, 17 cabo-verdianos, a viver em Sines, começaram a escrever um novo capítulo nas suas vidas, graças à acção de alfabetização da Associação Cabo-verdiana de Sines e Santiago do Cacém (ACSSC)

“Estou a lidar com pessoas que não tiveram oportunidade de fazer as aprendizagens mais básicas na idade própria”, explica Ana Sobral, professora de línguas há 32 anos. Foi desafiada a participar neste projecto e, desde a primeira hora, não se arrepende. “Estão a aprender comigo mas eu estou a aprender muito com eles”.

Na sala de aula, sentados nas carteiras, estão alunos diferentes da maioria. Concentrados nos cadernos, desenham com afinco as letras e têm um desejo enorme de aprender. “Estão aqui pessoas com níveis diferentes, quase todos já sabem escrever o nome, apenas uma formanda não sabia mas nas poucas aulas já aprendeu. Os outros já lêem e já escrevem qualquer coisa mas a maioria muito pouco”, conta.

Os alunos de Ana Sobral são homens e mulheres, pais e mães, trabalhadores, reformados e imigrantes, que não foram à escola porque a vida trocou-lhes as voltas. Cresceram e, apesar da idade, guardaram a vontade de aprender. É o caso de Francisco Pedro Jacinto, 60 anos.

“Aprendi a escrever o meu nome pela Bíblia. Tirava aquelas palavras em forma porque escrito pela caneta já não consigo e foi assim que aprendi a assinar o meu nome”, diz. Com a cabeça em baixo, atento aos livros, Francisco vive com um desejo. “Estou a ver se ainda tiro a carta de condução”, mas até esse dia debate-se com as letras. “Está a ver este Z ? Isto dá-me cabo da cabeça mas vai sempre bem. O F do meu nome também me deixa maluco”, confessa o pescador.

Ana é a única professora para uma turma de dezassete alunos, com idades entre os 37 e os 66 anos. A tarefa não é fácil, reconhece a docente. “Alguns têm dificuldades acrescidas de visão e audição, são muitos para este tipo de trabalho e eles querem todos a minha atenção. Têm pouca autonomia para perceberem o que lhes é explicado mas a verdade é que são muito empenhados, muito trabalhadores”.

Às voltas com as letras está Sofia (nome fictício), 64 anos, que nunca foi à escola apesar da vontade de aprender. “Os meus pais nunca me colocaram na escola, por isso não sei quase nada”, explica a empregada de limpeza que foi incentivada a participar nesta acção por uma amiga e colega de trabalho. “Ainda não consigo juntar as letras mas pelo menos o meu nome quero aprender”, prossegue. E esta vontade tem uma razão de ser. “Os meus filhos não sabem que estou na escola a aprender porque quero fazer uma surpresa”, revela. Enquanto desenha a letra S é interrompida pela professora: “O que está a fazer?”. Diz não saber e fica a ouvir com atenção os conselhos.

As aulas de alfabetização são ministradas duas vezes por semana por isso é importante não perder ‘o fio à meada’. “Já estamos aqui há um mês e já consegui evoluir. Treino também muito em casa com o meu filho. Ele vai dizendo as palavras e eu vou escrevendo as coisas. Na televisão ainda não sei ler mas acredito que vou conseguir alguma coisa. Não é muito, muito mas vou conseguir”, garante Joana dos Anjos, 51 anos. Na empresa onde trabalha pede ajuda às colegas ou ao patrão para escrever nas etiquetas mas diz que isso vai acabar. “Há muita coisa que temos de escrever e tenho de estar sempre a perguntar se está bem”, adianta.

Ana Sobral sabe que os seus alunos “não vão sair daqui grandes leitores ou a saberem escrever perfeitamente mas vão conseguir ler pequenos textos, documentos pessoais, o jornal ou uma revista e isso para eles já é uma mais valia”. Esse é o objectivo da Associação Cabo-verdiana de Sines e Santiago do Cacém. “Saírem daqui com alguns conhecimentos, é muito gratificante para nós” diz Gracinda Luz. “Sabermos que no final vão saber ler, não vão precisar de terceiros e vão ter maior autonomia é saber que conseguimos alcançar os nossos objectivos institucionais”, conclui a presidente da ACSSC.

“A acção é aberta a todas as comunidades”

Como nasceu esta ideia?
Gracinda Luz – Partiu da comunidade que sempre demonstrou que queria aprender porque a maioria não teve essa oportunidade, ou porque imigraram muito cedo, por falta de condições ou porque tiveram de começar a trabalhar (…) e agora que estão numa fase da sua vida mais estável com os filhos criados e alguns já reformados demonstraram esse interesse em aprende. Como nunca é tarde para o fazer, tentámos dar uma resposta fazendo uma candidatura para estas acções de alfabetização, no âmbito do FAMI – Fundo de Asilo, Migração e Integração, do alto-comissariado.

Estamos a falar de uma acção que se dirige apenas a cabo-verdianos?
Não, esta acção é aberta a todas as comunidades desde que sejam nacionais de países terceiros.

Entre a formalização da candidatura e o inicio da acção decorreu muito tempo?
Sim, decorreu algum tempo. A candidatura passou por todos os trâmites legais e tivemos de esperar. Para as inscrições é que foi tudo muito rápido porque as pessoas queriam muito participar nesta acção.

Recebem apoio financeiro. Qual é?
O valor da candidatura é de 2732 euros, verba que vai servir para pagar a formadora e adquirir o material necessário para os formandos, desde os livros aos cadernos, lápis, dossier e fotocópias.

A formação tem um número de horas?
Esta acção está a desenvolver-se duas vezes por semana, arrancou a 27 de Fevereiro e termina em Junho deste ano. No entanto este é um projecto que pretendemos dar continuidade.

Pelo que percebo ainda está muito dirigida à comunidade cabo-verdiana. Gostariam de promover estas acções junto de outras comunidades?
Sim, principalmente porque temos uma nova realidade migratória e quando falamos de alfabetização não falamos só do acesso ao alfabeto mas de pessoas que não tiveram contacto com o Ocidente e com a nossa língua e é para essas pessoas que se destina este projecto.
Quem são estes alunos que fazem parte desta acção de alfabetização?
Temos um grupo misto, mulheres e homens, elementos desde os 37 anos aos 66 anos. Alguns trabalham, outros estão reformados. Uns ainda estudaram um ou dois anos e outros nunca tiveram oportunidade de aprender e, é neste sentido, que aqui estamos.

Para a associação é um estimulo o trabalho que desenvolvem ?
É sempre um estímulo porque se trata de um processo de inclusão dos emigrantes que são acompanhados pela associação desde a chegada até à sua integração. Existem sempre prioridades e neste momento é esta. Vamos avançar com uma acção de 25 horas de português para os emigrantes melhorarem a língua e poderem realizar a prova de português para solicitar o pedido de nacionalidade portuguesa.

Helga Nobre

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